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Não precisamos de mais guerras falsamente humanitárias

Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) libera pombas brancas nos terrenos da mesquita Hazrat-i-Ali, em celebração ao Dia Internacional da Paz, em 22 de março de 2007, na cidade de Mazar-i-Sharif, Afeganistão [Helena Mulkerns/ONU]

Há exatamente quinze anos, em setembro de 2006,  – em um momento de massacres imensos e de guerras movidas pelos Estados Unidos por interesses financeiros, em vários países do Oriente Médio, causando a morte de milhares de crianças e mulheres -, éramos levados a refletir sobre o significado das palavras paz e humanidade através da memória do Dia Internacional Da Paz, criado vinte e cinco anos antes pela ONU, em 1981.

Naquela tarde de 2006, preparando-me para voltar à Europa e mergulhada numa profunda tristeza pelo assassinato de crianças iraquianas pelos EUA e pelas imagens de tortura de seres humanos em Abu Ghraib, tentei entender o que significava de fato a criação daquele dia e como ele poderia ser um grito de alerta contra todas as guerras movidas por poços de petróleo, reservas de gás natural que vale bilhões e recursos naturais preciosos que se transformaram, não em fontes de riqueza para os povos do Oriente Médio, mas em uma sentença de morte emitida pela maior potência armamentista do mundo.

Naquela tarde, descobri que o grito de alerta da ONU, sobre precisarmos de um novo código de ética e de um contrato social baseados no humano, me tocava profundamente, e que apesar de minha imensa esperança, os ruídos dos mísseis, kalashinikovs e bombas poderiam torná-lo inaudível. E de fato o tornaram.

No momento em que escrevo esse artigo, manejando a única espada que sei manejar, a escrita, lutando para dar voz aos refugiados e relatando a dor que testemunhei vivendo em campos de refugiados, há pelo menos sete guerras acontecendo no mundo, matando milhões de crianças e fazendo prosperar apenas a indústria da morte e das armas: a Guerra da Síria continua em curso, mesmo depois de dez anos de dor e mais de 500 mil mortes, causadas também pela intervenção dos EUA, que confessaram ter armado terroristas no país, acreditando se tratar apenas de opositores políticos. Há uma guerra civil no Congo, que já dura mais de uma década e causou milhões de estupros e mortes num conflito onde o corpo da mulher também se torna um território de guerra. Há uma guerra no Iêmen, onde sauditas e norte-americanos também armaram um dos lados do conflito, causando uma guerra infinita, sem horizontes de resolução e que já matou de fome e inanição mais de 300 mil crianças. Há ainda conflitos violentos na Líbia e no Iraque, países que se tornaram falidos e ainda mais mortais depois da invasão norte-americana e da criação do ISIS, com as armas deixadas pelos EUA depois das invasões. Há conflitos imensos na Nigéria e o grupo Boko Haram, cada vez mais armado por traficantes de armas internacionais, continua a matar e a sequestrar meninas do país. E há ainda um Afeganistão em chamas, alvo de dois atentados do ISIS, dominado por um Talibã ainda mais armado, e dividido por ódios étnicos que só se fortaleceram com a guerra dos Estados Unidos ao sexto país mais pobre do mundo.

Eduardo Galeano, o imenso escritor uruguaio que tive a honra de conhecer em uma conferência pela paz, afirmava que “a história é um profeta com olhar voltado para trás, ela nos conta o que foi, como foi e nos anuncia o que será”.

Em uma época que a maioria dos países latinos convivia com as mordaças das ditaduras, Galeano ousou quebrar o silêncio e denunciar os instrumentos de dominação, a espoliação e o roubo de nossas riquezas, a participação dos EUA nos Golpes militares do Brasil, Chile e Argentina e as indústrias da morte através do livro “As Veias Abertas da América Latina” , e, mesmo depois de sua morte, suas palavras naquela tarde da primavera de 2010, continuam a me emocionar e me inspirar em minha luta pela paz:

“Não é culpado de terrorismo o serial killer que, mentindo, inventou uma guerra no Iraque e assassinou tanta gente? Ou serão culpados os indígenas do Chile ou os kekchies da Guatemala, ou os camponeses sem terra no Brasil, todos acusados de terrorismo por defender seu direito à terra? Se sagrada é a terra, não são sagrados também os que a defendem? Por que o mundo premia os que o saqueiam? Quem são os justos e quem são os injustos? Se a justiça internacional realmente existe, por que não são presos os autores dos mais ferozes massacres e guerras? Por que são intocáveis as cinco potências que tem direito de veto nas Nações Unidas? Esse direito tem origem divina? Por acaso vela pela paz os que fazem o negócio da guerra? É justo que a paz mundial esteja a cargo das cinco potências que são as cinco maiores produtoras de armas?” 

“O mundo está organizado a serviço da morte. Ou não fabrica a morte a indústria militar, que devora a maior parte dos nossos recursos e boa parte das nossas energias? Os senhores do mundo só condenam a violência quando são outros os que a exercem. E este monopólio da violência se traduz em um fato inexplicável para os extraterrestres e também insuportável para os terrestres que querem, contra toda evidência, sobreviver: os humanos somos os únicos especializados no extermínio mútuo e desenvolvemos uma tecnologia da destruição que está aniquilando o planeta e a todos os seus habitantes (..)” 

LEIA: OS EUA e suas indústrias da morte são a grande ameaça à paz mundial, e não o Oriente Médio

Recentemente, um pouco antes da pandemia começar a matar centenas de milhares no Brasil e de a morte ter como aliado o homem que ocupa o mais alto cargo de meu país, eu me emocionei ao receber uma linda homenagem de uma escola técnica da cidade em que nasci, a ETEC Alfredo de Barros Santos, ao dar uma palestra sobre a paz para mais de cem jovens que naquela noite.

Eu explicava a eles que precisamos entender que somos todos de uma única raça, a humana, que precisamos entender que só sobrevivemos até hoje como humanidade porque em um dado momento da era das cavernas, nós aprendemos a ajudar uns aos outros, a cuidar dos feridos e a dividir os alimentos e as colheitas e a cooperar uns com os outros. A reação bonita daqueles jovens pela empatia e contra as guerras, e o semblante de professores como Haroldo Tupinambá e Paula Abreu, me encheram de esperança, alegria e honra.

Precisamos entender que as guerras só fazem prosperar as indústrias do medo e da morte.

Precisamos entender que as guerras estão banalizando a morte de nossos irmãos negros e muçulmanos, como se a vida de cada um deles valesse de fato menos do que a vida de cada um de nós, cristãos, ocidentais e nascidos em uma classe social privilegiada. Precisamos entender que somos todos refugiados, somos filhos da mesma Terra e da mesma humanidade.

Somos todos netos de refugiados, de humanos que fugiam da fome e das guerras e encontraram no Brasil acolhimento, vida e prosperidade. Sejamos nós de origem sírio-libanesa cristã, como eu, ou de origem italiana, alemã ou japonesa, somos todos netos de refugiados, de europeus brancos que desembarcaram nas praias e no porto do Rio de Janeiro famintos, fugindo de conflitos, da Primeira Guerra Mundial ou de um Oriente Médio em frangalhos, dividido e empobrecido depois do acordo de Sykes-Picot, o acordo entre França e Inglaterra para abocanhar e explorar a região depois da queda do Império Otomano.

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Ao contrário do que fazem hoje os europeus, bisnetos daqueles italianos e alemães famintos, que elegeram os refugiados como alvos de seu ódio, os brasileiros, que vivíamos em um país rico e considerado entre os mais promissores daquela época, jamais jogamos os refugiados muçulmanos, judeus e cristãos ao mar, e jamais os confinamos em campos de refugiados, campos de dor e desespero para prisioneiros sem crimes. Nós os acolhemos..

Foi no Brasil que milhares de refugiados de guerra prosperaram, como meu pai, um menino sírio-libanês pobre, filho de refugiados, um menino repleto de sonhos que, anos depois, através de muito trabalho, conseguiu fundar uma rede de lojas e hoje dá empregos para mais de 500 brasileiros. Os mais de 30 milhões de refugiados que acolhemos no último século são uma parte fundamental da nossa história, da nossa riqueza como nação, uma nação que até pouco tempo era a sexta maior economia do mundo, e de nossa diversidade cultural e étnica.

É muito triste que hoje os EUA, um país também construído por refugiados, promovam inúmeras guerras e as chamem de “guerras humanitárias”.

Não existem guerras humanitárias.

Existem invasões territoriais que escondem os interesses econômicos de uma imensa indústria da morte.

Existem apenas conflitos movidos por interesses econômicos, um negócio que movimenta hoje mais de três trilhões de dólares no mundo todo.

Não precisamos de mais armas e guerras.

Precisamos de mais amor, de empatia pela dor do outro, precisamos da humanização do outro, seja ele um muçulmano, um negro, uma mulher ou um indígena. Precisamos reaprender a ver no outro a nossa própria humanidade refletida.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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