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Relembrando a entrega de ‘uma Palestina, completa’

Neste dia, em 1920, Herbert Samuel foi nomeado primeiro Alto Comissário para a Palestina, por decreto do governo britânico; no documento assinado, lia-se ‘uma Palestina, completa’

Neste dia, em 1920, o primeiro Alto Comissário para a Palestina, o Visconde Herbert Samuel, recebeu do governo britânico a administração sobre o país e assinou um documento no qual reconhecia aceitar “uma Palestina, completa”. Passaram-se três anos até que o mandato sobre a Palestina, concedido ao Reino Unido pela Liga das Nações, entrasse em vigor.

O que: Concessão de ‘uma Palestina, completa’

Onde: Palestina

Quando: 30 de junho de 1920

Quem era Herbert Samuel?

Político liberal, Herbert Samuels foi o primeiro judeu praticante a servir como ministro de governo e liderar um partido político majoritário na Grã-Bretanha. Embora não fosse membro da Organização Mundial Sionista, enquanto Secretário de Estado para Assuntos Internos, em 1914, Samuel obteve as últimas publicações da entidade. Não muito depois, passou a exercer campanha ativa por um lar nacional judaico na Palestina, “cooperando de perto” com líderes sionistas para aprofundar sua causa, como escreveu em suas próprias memórias.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, o envolvimento de Samuel com o sionismo cresceu exponencialmente. Em 1915, propôs a ideia de estabelecer um protetorado britânico sobre a Palestina após a guerra e defendeu a criação de uma pátria judaica na região. Segundo ele, os judeus aguardaram “mais de dezoito séculos” para retornar [sic] à Palestina, uma terra cuja conexão, alegou, era “quase tão antiga quanto a própria história”. Na ocasião, a Palestina era parte do Império Otomano, com maioria islâmica dentre população nativa; estava sob domínio islâmico há séculos.

“Que um centro judaico seja estabelecido na Palestina”, exortou Samuel em memorando de gabinete que esboçou. “Que alcance, como deve alcançar, certa medida de grandeza espiritual e intelectual; e indiferentemente do caráter do indivíduo judeu, onde quer que esteja, este será aumentado. As associações sórdidas ligadas ao nome judeu, a algum nível ao menos, serão deterioradas, e o valor dos judeus como elemento da civilização dos povos europeus será aprimorado.”

As ideias de Samuel incitaram a orientação pró-sionista do governo britânico e pavimentaram o caminho para a Declaração de Balfour, em 1917, na qual o Secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha declarou apoio do governo à criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina.

O que aconteceu?

O Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial em novembro de 1914, ao lado das potências centrais; foi dissolvido em 1921, após sua derrota. Um mandato para administração dos territórios palestinos foi incumbido à Grã-Bretanha pela Liga das Nações e entrou em vigor em 29 de setembro de 1923.

Em uma série de cartas trocadas no decorrer da guerra – conhecidas como Correspondência MacMahon-Hussein – o governo britânico concordou em reconhecer e honrar a independência árabe após o fim dos conflitos, caso os árabes lutassem contra o Império Otomano. Após a guerra, entretanto, Grã-Bretanha e França dividiram entre si os territórios antes ocupados pelos otomanos, conforme o Acordo de Sykes-Picot, assinado em 1916, e consentiram com sistema de mandato para governar a Palestina. Este episódio foi visto como traição pelos árabes.

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Painel exibe documento assinado pelo primeiro Alto Comissário do Mandato da Palestina, reconhecendo ter recebido ‘uma Palestina, completa’ [Cortesia da Tapeçaria da História Palestina]

O que aconteceu a seguir?

Samuel foi indicado primeiro Alto Comissário para a Palestina pelo Primeiro-Ministro britânico David Lloyd George. Em 30 de junho de 1920, assinou um recibo – concluído com o termo “E&OE”, isto é, “erros e omissões excetuados”, em atenuação de compromissos legais – enviado a ele pelo chefe da administração militar britânica na Palestina, o Major General Sir Louis Bols, reconhecendo ter adquirido feitoria sobre “uma Palestina, completa”. O documento marcou a entrega das terras palestinas da gestão militar à gestão civil.

Aos olhos da população nativa da Palestina, que buscava sua própria independência e direito à autodeterminação, a Grã-Bretanha de fato concedeu o território aos sionistas e seu projeto de assentamento colonial, suportados pela postura de Samuel, que governou a região até 1925. O povo palestino jamais foi consultado sobre qualquer uma dessas transições.

Em discurso proferido em Jerusalém, em junho de 1921, Samuel alegou que as palavras da Declaração de Balfour “significam que os judeus, um povo espalhado pelo mundo, mas cujo coração sempre voltou-se à Palestina, deveriam ter permissão para encontrar ali seu lar; e que alguns entre eles, dentro dos limites fixados pelos números e interesses da população presente, deveriam vir à Palestina, a fim de ajudar a desenvolver o país, com seus recursos e esforços, em benefício a todos os seus habitantes.”

Dois meses depois, em relatório sobre seu primeiro ano como Alto Comissário, Samuel disse que os sionistas “às vezes se esquecem ou ignoram os habitantes presentes da Palestina … muitos dos quais possuem, e possuem de forma bastante firme, visões bastante distintas.”

A política britânica de facilitar a imigração judaica à Palestina com objetivo declarado de criar um lar nacional judaico, e o descompromisso com a população nativa e seus próprios anseios nacionais, resultou na Grande Revolta de 1936, um levante nacionalista conduzido pelos palestinos contra a gestão da Grã-Bretanha e a imigração colonial judaica na Palestina ocupada.

A Grã-Bretanha decidiu encerrar seu mandato na Palestina em 15 de maio de 1948. O então chefe executivo da Organização Mundial Sionista David Ben-Gurion – mais tarde premiê de Israel – leu a chamada “Declaração de Independência”, que estabeleceu o Estado de Israel apenas um dia após o fim do mandato.

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Milícias e gangues terroristas sionistas já haviam cometido atrocidades contra o povo palestino e, de fato, autoridades britânicas, levando à expulsão de aproximadamente 750.000 palestinos do estado nascente. Na ocasião, mais de 400 aldeias e cidades palestinas foram despovoadas e destruídas; hoje, a estimativa supera 530 destes locais. A limpeza étnica tornou-se conhecida como Nakba, a catástrofe palestina. Apesar de sua adesão como membro das Nações Unidas ser condicional a Israel permitir o retorno dos refugiados palestinos às suas casas, o primeiro governo de Tel Aviv efetivamente aprovou uma série de leis para impedí-los de fazê-lo. Nos três primeiros anos, entre maio de 1948 e fim de 1951, cerca de 700.000 judeus se assentaram no novo estado.

Israel continua a ignorar o legítimo direito de retorno, estabelecido pela Resolução 194 da ONU, em 1948, e reafirmado todo ano desde então. O direito de retorno também é mencionado especificamente como “direito inalienável” pela Resolução 3236 da ONU, promulgada em 1974.

Menos de duas décadas após a Nakba, em 1967, Israel ocupou a Cisjordânia e Faixa de Gaza, durante a Guerra dos Seis Dias, e começou a construir assentamentos ilegais ao longo dos territórios palestinos ocupados. Ao contrário do que alega a narrativa sionista, Israel de fato deu início às hostilidades ao bombardear e destruir a Força Aérea do Egito ainda em solo.

Hoje, Israel continua a exercer controle militar sobre os palestinos nos territórios ocupados; estima-se que há atualmente 6.5 milhões de refugiados palestinos e seus descendentes, com pleno direito de retornar às suas terras.

Cem anos depois

Exatos cem anos após a entrega da Palestina, o recibo assinado por Herbert Samuel por “uma Palestina, completa” está incluído em um painel exposto na Tapeçaria da História Palestina, que conta a jornada do povo nativo por meio de um bordado habilidoso, detalhado e tradicional palestino.

“A verdadeira lição da história de ‘uma Palestina, completa’ é a luz que joga sobre a influência sionista ao desenvolvimento da política britânica, tão remoto quanto 1920”, afirma Ghada Karmi, autor e patrono do projeto.

Tal influência prevalece até hoje; há quem argumente, mais do que nunca.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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