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Esquerda sionista é uma esquizofrenia. Sionismo é sionismo!

Entrevista com a palestino-brasileira Soraya MIsleh, filha de primeira geração dos palestinos da Nakba.
Soraya Misleh [Foto arquivo pessoal]

Soraya Misleh é uma jornalista, escritora e  militante determinada em defesa da causa palestina. E ela mostra com seu trabalho a forte identidade palestina mantida pelos descendentes da Nakba –  a expulsão de palestinos para a implantação do Estado de Israel, e os 72 anos de limpeza étnica que se seguiram

Contrariando os esforços de normalização da ocupação que Israel promove no resto do mundo, buscando inclusive a cumplicidade de uma pretensa esquerda sionista,  Soraya explicita uma resistência ativa, que se manifesta de geração em geração, apoiada por campanhas de solidariedade que exigem o fim da ocupação, sem maquiagens.

Nesta entrevista ao Monitor do Oriente Mèdio, Soraya explica porque, para quem luta pela Palestina, a Nakba ainda não acabou.

Qual sua relação com a Palestina?

O meu pai é palestino, um sobrevivente da Nakba, foi expulso aos 13 anos de idade junto com mais 800 mil palestinos, a aldeia do meu pai foi uma das 500 que foram destruídas. Minha mãe é filha de palestino e teve a aldeia ocupada em 1967. Minha relação com a Palestina é sobre minhas raízes, minha origem. Desde quando era criança, sempre escutei meu pai contando sobre o lugar maravilhoso onde ele nasceu, que tudo que eles precisavam  tiravam da terra e de sua infância maravilhosa e que tudo isso teve fim com a limpeza étnica violenta que ocorreu na aldeia dele. Também cresci ouvindo histórias da família da minha mãe, que são da memória coletiva, como por exemplo, sobre Deir Yassin e tudo isso me marcou muito. O que me marcou muito principalmente foi a ideia da Palestina histórica, de um lugar para todo mundo, onde todos se relacionavam bem, era uma vida muito simples, mas todos viviam felizes.

Soraya Misleh em 2010 pegando terra da aldeia Qaqun na Palestina ocupada para levar para ao seu pai [Foto arquivo pessoal]

Soraya Misleh em 2010 pegando terra da aldeia Qaqun na Palestina ocupada para levar para ao seu pai [Foto arquivo pessoal]

Em seu livro “Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina” você relata que Israel negou sua entrada na Palestina por duas vezes, qual o sentimento gerado por essa ação? Pensa em retornar à Palestina?

O sentimento é de enorme tristeza, é uma dor que eu levarei por toda vida, é uma terra muito amada por nós todos, é um sonho poder retornar. A Palestina mesmo ocupada tem suas peculiaridades, que são as pessoas, a generosidade, o amor que tem naquela terra, a própria terra.

A última vez que negaram minha entrada foi mais difícil, porque eu tinha esperança de entrar, pois tínhamos negociado com o governo brasileiro uma missão humanitária. Foi muito triste também porque seria a última vez que eu veria meu tio que acabou falecendo alguns meses depois. Mas o que me fortalece são os próprios palestinos que estão lá resistindo. São nossos exemplos, nossa inspiração e nunca desistiram. Então, não será uma entrada negada, diante do que os palestinos passam, o que vai nos silenciar ou fazer parar de lutar por uma Palestina livre, do rio ao mar.

Você afirma em seu livro que a Nakba ainda não acabou, por quê?

A Nakba continua até hoje, mais de 72 anos depois e se aprofunda. O projeto colonial sionista continua em execução, o projeto sempre foi colonizar e ocupar toda a Palestina histórica. Em 1948 Israel ocupou 78% da terra mediante a limpeza étnica.  O regime de apartheid é  institucionalizado, as pessoas não tem nenhum direito humano fundamental garantido, tudo é violado, o direito de ir e vir, a saúde, o trabalho, a educação, as mães não podem sequer ter seus filhos nos hospitais, casas, escolas e hospitais são demolidas constantemente.  Gaza vive um cerco desumano há 13 anos e bombardeios frequentes. A Cisjordânia tem todo um aparato de postos de controle, muro e segregação.

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Soraya Misleh e Mohama Kadri com parte dos integrantes da Missão Humanitária à Gaza após terem a entrada negada na Palestina por Israel [Foto Aline Baker]

Soraya Misleh e Mohama Kadri com parte dos integrantes da Missão Humanitária à Gaza após terem a entrada negada na Palestina por Israel [Foto Aline Baker]

Qual sua opinião sobre os acordos de normalização entre os países árabes e Israel?

Criminosos! Os Emirados Árabes disseram que era pelo fim do plano de anexação, mas o próprio Netanyuhu disse que só tinha adiado a implantação por conta dos protestos no mundo e na verdade o que eles estavam visando era o próprio interesse econômico, assim como Bahrein e agora o Sudão e Omã que pretendem ser os próximos. Esses acordos de normalização são parte também do projeto sionista e mostram os inimigos históricos da causa palestina, entre eles os regimes árabes.

Qual sua análise sobre a influência sionista no Brasil?

Além da influência sionista nos governos federais e estaduais, tem as lideranças neopentecostais que também tem interesses políticos e econômicos que trazem o sionismo cristão e enganam as pessoas, vemos que são evangélicos pobres e que estão buscando na religião um alívio. Não temos problemas com nenhuma religião, mas  estão sendo enganados por esse discurso do sionismo cristão. Outra influência nefasta que atinge inclusive organizações que se dizem progressistas e movimentos que se dizem de esquerda, é o sionismo de esquerda que tem um discurso suave, diz que quer a paz, mas não abre mão da defesa de Israel, um estado ocupante. Eles tem uma mentalidade colonizadora de dizer o tipo de solidariedade que eles querem dar e que é totalmente maquiada. Dizer esquerda sionista é uma esquizofrenia, sionismo é sionismo, é um projeto político. Tem um autor que é inclusive israelense que escreveu a Muralha de Ferro e diz ” a diferença entre os sionistas de direita e os de esquerda é que os de direita são menos hipócritas”

O Brasil é um dos maiores parceiros comerciais na compra de armas de Israel, como isso fortalece a ocupação militar na Palestina?

Isso sustenta a ocupação, o sangue palestino serve para eles venderem essas armas para o mundo. O Brasil é o 5° maior importador de tecnologia militar, os governos estaduais seguem na mesma toada e compram essas armas, inclusive blindados israelenses, como o governo paulista e o caveirão no Rio de Janeiro. Agora, o governo Dória comprou 10 metralhadoras israelenses por meio milhão de dólares, para serem usadas na Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que é uma das polícias que mais mata, isso é foi comprovado pelas ouvidorias e  órgãos oficiais. A compra está sendo objeto de uma ação de um advogado israelense de direitos humanos e nessa ação ele mostra que essas metralhadoras são usadas na fronteira por Israel e tem uso militar e  que seria um massacre usá-las na cidade. Isso tudo  promove o genocídio do povo pobre e negro aqui nas periferias. A opressão e genocídio daqui sustenta o genocídio e limpeza étnica lá na Palestina.

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Com um governo de direita e pró-Israel, como fazer a solidariedade com a Palestina no Brasil?

Pedimos que as pessoas abracem os palestinos, quando você vai para a Palestina eles sempre dizem que o mundo os esqueceu, eles se sentem abandonados e eles tem razão em  se sentirem assim, porque são mais de 72 anos e a ocupação e colonização só se expandem.

Precisamos fortalecer as campanhas de solidariedade, por exemplo, campanha pela libertação dos cinco mil presos políticos, inclusive crianças, mais de 240 crianças e mais de 40 mulheres estão presas e sofrem todo tipo de tortura. E principalmente apoiar o chamado que a gente faz que é a campanha que abraça todas as outras é o BDS, a campanha de boicote, desinvestimentos e sanções a Israel.

Como funciona o BDS?

O BDS é um chamado da sociedade civil palestina feito em 2005 e pede o boicote, desinvestimentos e sanções a Israel. A campanha pede para não normalizar a ocupação, não fazer parcerias ou atividades com organizações que estão institucionalmente ligadas à ocupação israelense e que tem discurso sionista, mesmo que maquiado.

E quais são as campanhas?

Hoje estamos tentando barrar a compra das metralhadoras que serão utilizadas pela Rota, mas temos várias outras. A campanha de boicote acadêmico visa encerrar convênios de cooperação das universidades com o estado de Israel até que se cumpra os direitos humanos fundamentais, inclusive o direito de retorno. Pedimos também o boicote cultural, para que artistas não se apresentem, não deixem que Israel use sua arte e seu nome para maquiar a colonização e a limpeza étnica. Tem o boicote esportivo. Há pouco, houve uma vitória importante, quando a seleção argentina se recusou a jogar em Israel. Existe também o boicote econômico que significa verificar quais são os produtos de origem israelense e não comprar, não compactuar com o apartheid.

Como adquirir mais informações sobre o BDS?

Tem todas essas informações no site do BDS e temos também a página no facebook do BDS Brasil para acompanhar as campanhas que acontecem aqui. Quem quiser mais informações, estamos a disposição. Temos também a página embargo militar a Israel que foi lançada agora. Nosso pedido é : Respeitem o direito a autodeterminação dos palestinos, eles são os oprimidos e o que eles estão nos dizendo hoje é: boicote israel!.

Integrantes de movimentos sociais de várias partes do mundo no museu da Maré participam do Julho Negro , 2017 [Foto arquivo Pessoal]

Integrantes de movimentos sociais de várias partes do mundo no museu da Maré participam do Julho Negro , 2017 [Foto arquivo Pessoal]

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