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Da Palestina ao Brasil e EUA, nós não podemos respirar

Mural homenageia George Floyd, em Berlim, Alemanha. [ Eme Street Art in Mauerpark]
Mural homenageia George Floyd, em Berlim, Alemanha. [ Eme Street Art in Mauerpark]

Ebulição pela injustiça a grupos oprimidos une povos em uma luta internacional

As últimas palavras de George Floyd, 46 anos, em Minneapolis, estado de Minnesota, nos Estados Unidos, ao ser assassinado em 25 de maio último por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço durante nove minutos, ressoam mundo afora. Encontram aqueles a quem o ar também falta cotidianamente, submetidos a crimes contra a humanidade como esse, frutos do racismo, apartheid, colonização: “Não posso respirar!”É o caso dos palestinos ante a ocupação israelense, em que o racismo é institucionalizado. É também a situação dos moradores das favelas no Rio de Janeiro. Nesses e em outros lugares, as revoltas e a solidariedade entre os oprimidos a partir do assassinato de Floyd no coração do capitalismo têm escancarado o racismo próprio desse sistema – que a pandemia também explicita. Nas palavras da ativista e jornalista comunitária da Favela da Maré, Gizele Martins, “se eles criminalizam nossas vidas e internacionalizam a militarização, nós internacionalizamos a luta”.

No mesmo mês em que Floyd foi assassinado, a violência policial matou jovens no Rio de Janeiro, como João Pedro, 14, e João Vitor, 18. A ocupação israelense não fica atrás. Entre os mortos, o rapaz palestino autista Eylan Al-Hallaq, 32, em Jerusalém (cujo nome árabe é Al Quds), e Zaid al-Fayumi, 14, em campo de refugiados na cidade de Hebron (Al Khalil). E essas são apenas algumas entre milhares de vidas, anual e regularmente.

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“O uso seletivo de agressão é muito semelhante e lembra o que vemos na Palestina pelas forças israelenses”, destaca a palestino-americana Mariam El-Khatib em reportagem publicada no portal Middle East Eye no dia 31 de maio.

Em seu twitter no dia 27 de maio, o comediante palestino-americano e professor de Direito, Amer Zahr, evidencia as práticas afins: “Nunca se esqueça que eles assassinaram George Floyd e compraram um hambúrguer para Dylann Roof [o supremacista branco que em 2015 matou nove negros em uma igreja na Carolina do Sul].”

Ao Middle East Eye, El-Khatib demonstra que as similaridades vão além: “Quando eles começaram a usar gás lacrimogêneo contra os manifestantes [em Minneapolis], foi para mim como um flashback na Palestina (…).” Não é novidade no mundo a utilização de gás à repressão em manifestações e, no caso palestino, a reportagem aponta ser notório “o uso quase diário de Israel (…), com pesquisadores em 2018 rotulando o campo de refugiados de Aida, na Cisjordânia ocupada, como ‘o lugar mais gasoso do mundo’”.

A impunidade que se vê do Rio aos Estados Unidos é marca do Estado de Israel, erigido em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada dos nativos palestinos (para esses, a Nakba, catástrofe em árabe). “O que estamos aprendendo? Quantas pessoas devem morrer até encontrarmos justiça? … Não posso diferenciar se estou falando da Palestina ou da comunidade negra e indígena daqui”, ressaltou o ativista palestino Mohammed, que vive em Minneapolis. Imagens compartilhadas nas redes sociais de sufocamento dos que vivem sob ocupação ao lado da cena da morte de Floyd não deixam dúvidas: “Não podemos respirar!”

Exportação da barbárieÀ sequência do assassinato de Floyd, conforme o Middle East Eye, “ativistas das mídias sociais começaram a apontar que cerca de 100 policiais de Minnesota haviam participado de treinamento em um consulado israelense com suas autoridades em 2012”.

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E complementa que isso não é novo, nem restrito a um estado no coração do capitalismo: vem pelo menos desde os anos 1990. “Segundo a Anistia Internacional, centenas de policiais norte-americanos passaram por treinamento em Israel, tanto em viagens privadas quanto públicas, enquanto milhares foram treinados por forças israelenses nos Estados Unidos.”

Relatório da Jewish Voice for Peace [Vozes Judias pela Paz] de 2018 informa:

“O que as autoridades americanas aprendem com o policiamento israelense é uma política oficial de marcar populações inteiras como suspeitas, um modelo que está em oposição direta aos esforços para acabar com a discriminação racial que há muito tempo é constitutiva do policiamento americano.”

A troca de “conhecimentos” e tecnologias nesse campo se dá ao ritmo do apoio fundamental do imperialismo estadunidense ao sionismo – e envolve igualmente bilhões de dólares. “As chamadas armas ‘menos letais’, incluindo gás lacrimogêneo, são fabricadas nos EUA e vendidas para Israel, onde são testadas e usadas em palestinos ”, aponta a organização ao Middle East Eye, acrescentando: “A tecnologia de vigilância é fabricada em Israel e trazida para os EUA para invadir a privacidade de negros, pardos, muçulmanos, pobres e marginalizados .”

No Rio de Janeiro, em que a morte pelas mãos da polícia aumentou 43% no período da pandemia – ou um óbito a cada quatro horas –, segundo o Instituto de Segurança Pública do Estado, não é diferente. Gizele Martins explicitou essa conexão em atividade durante o 3 Julho Negro, em julho de 2018, que segue atual:

“O Exército, quando invade a favela e em suas operações nas periferias, faz os chamados ‘fichamentos’. Nas entradas e saídas de moradores das favelas, eles os revistam, pegam suas identidades, pedem para que fiquem esperando, sentados em uma cadeira, para ver se esses moradores têm algum tipo de violação ou passagem pela polícia. Eu vi algo muito parecido só que de uma forma – óbvio – muito mais intensa na Palestina, em que os moradores em seus locais, em suas aldeias, nos seus territórios, são obrigados a passar pelos checkpoints [postos de controle]. Outra semelhança é a presença cada vez maior dos carros blindados, que aqui no Rio a gente chama de ‘caveirões’, dentro de nossos territórios empobrecidos, que são territórios negros, nordestinos e indígenas. Atualmente vêm também sendo utilizados, nas operações policiais nas favelas, helicópteros que são uma versão desses blindados, como ‘caveirões’ aéreos, que atiram de cima para baixo em nossas cabeças”.

A outra analogia pôde ser vista in loco: muro construído para ocultar da paisagem fluminense a comunidade da Maré – formada por 140 mil habitantes –, segregando-a. Segundo informaram moradores, o Governo do Rio de Janeiro gastou R$ 20 milhões na sua construção. Enquanto os palestinos lutam contra o “muro do apartheid”, um dos muitos aparatos que violam seus direitos humanos fundamentais em território ocupado, a população local resiste a desaparecer atrás do que chama de “muro da vergonha”.

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Os “caveirões” são parte das aquisições no Brasil de equipamentos, armas, treinamento e táticas israelenses – tecnologias desenvolvidas pelo Estado sionista e testadas sobre as verdadeiras “cobaias humanas” em que converte os palestinos cotidianamente, como se vê nos bombardeios constantes à faixa de Gaza. Essa produção de morte tem como destino preferencial a exportação – o sangue de negros e pobres nas periferias do mundo sustenta a ocupação que mata palestinos há mais de 72 anos.

Enquanto Israel alimenta o que há de pior no mundo – haja vista sua aliança explícita neste momento com Bolsonaro e Trump – e vice-versa, a causa palestina segue como símbolo das lutas contra a opressão e exploração, internacionalmente. Sua resistência histórica segue como inspiração. Suas bandeiras se encontram nas ruas, onde quer que haja crimes contra a humanidade, onde quer que se ergam vozes por justiça, como neste momento.

Até que parem de nos matar.

Até que possamos respirar.

Até que sejamos livres.

Artigo publicado originalmente em Carta Capital.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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