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Sangue, lágrimas e a heroica resistência em Gaza

Gaza é o capítulo explícito da limpeza étnica na Palestina, que segue há mais de 71 anos, desde a Nakba.

Em apenas dois dias, 34 palestinos assassinados em Gaza e 111 feridos. Esse é o saldo da nova ofensiva israelense, que se iniciou no último 12 de novembro. Tudo começou com o lançamento de uma bomba sobre a casa da liderança do partido Jihad Islâmica, Bahaa Abu Al-Ata, e de sua companheira. O ataque que os matou também deixou feridos os filhos e outros membros da família, além de vizinhos. Sob a já desgastada retórica de “segurança” e “defesa” – do ocupante –, a desculpa era de que Abu Al-Ata coordenava o lançamento de foguetes a “Israel”.Na verdade, como sempre, a ação planejada teve a ver com cálculo político sionista. A crise interna se expressa e se aprofunda – assim como o declínio desse projeto colonial ante o mundo. Desde as segundas eleições gerais israelenses em setembro último, não conseguiram sequer formar seu “governo de unidade nacional” – a primeira foi em abril, mesmo impasse, que levou à repetição do processo de votação.

Líder do partido Likud, o criminoso Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel por uma década e responsável por inúmeros massacres, é apontado como “frouxo” em relação a Gaza. A recente ofensiva buscava responder a esse argumento e mantê-lo no jogo político (o que pode inclusive livrá-lo da cadeia, frente a acusações de corrupção).

Um dos que chamaram Netanyahu de “frouxo” é seu sucessor como primeiro-ministro, Benny Gantz. A despeito disso, segundo o Times of Israel, ele teria declarado que essa “crise” não o forçaria ao governo de unidade. Para analistas, na sua pretensão de se mostrar o “homem forte”, Netanyahu estaria mais interessado em uma terceira eleição geral, que se aproxima. Bombardear Gaza seria parte dessa preparação e campanha para ver se emplaca como primeiro-ministro na nova tentativa. Não obstante, de olho nos frios cálculos, declaradamente não pretendia manter os bombardeios sobre aqueles que despreza, mata e desumaniza há tempos. E a Jihad Islâmica e o Hamas estiveram no Cairo, capital do Egito, discutindo acordo de cessar-fogo que começou a vigorar neste dia 14 – e que já demonstra sua fragilidade.

Bombardeios como os vivenciados pelos palestinos agora têm ainda outra função. Estão intrinsecamente ligados ao teste de novas tecnologias militares para posterior exportação – destino de 70% dessa produção israelense. Os palestinos são as cobaias. O que os mata sustenta a ocupação sionista criminosa. E governos de todo o mundo são cúmplices: a cada dia, firmam novos acordos para aquisição dessas armas. O Brasil está no topo da lista: nos últimos anos, tornou-se um dos cinco maiores importadores dessas tecnologias. E Bolsonaro, representante explícito do sionismo na cadeira do Planalto, está doido para alçar novos degraus. Os governos estaduais, como o de Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, seguem o mau exemplo: armas israelenses estão nas mãos das polícias que matam pobres e negros nas periferias.

Limpeza étnica

Nada de novo. Israel segue a massacrar Gaza de forma criminosa, seja a conta-gotas, seja via bombardeios massivos, como em 2008-2009, 2012 e 2014, o mais intenso entre eles. E se não joga bombas sobre as cabeças de palestinos, mata lentamente: segundo a própria Organização das Nações Unidas (ONU), Gaza pode se tornar inabitável já em 2020, diante de grave crise humanitária imposta por bombardeios frequentes em meio a um cerco desumano que já dura 12 anos. São 2 milhões nessa prisão a céu aberto. Apenas quatro horas de eletricidade por dia. Noventa e seis por cento da água potável contaminada. Metade das crianças com quadro de desnutrição crônica. E desde março de 2018, em meio a protestos pelo retorno dos refugiados e contra o bloqueio criminoso, mais de 300 mortos e 30 mil feridos.

Gaza é o capítulo explícito da limpeza étnica na Palestina, que segue há mais de 71 anos, desde a Nakba (a catástrofe com a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948). Na estreita faixa, 80% são deslocados internamente – ou seja, refugiados dentro de sua própria terra, oriundos daqueles 800 mil expulsos na Nakba e parte dos hoje 5 milhões à espera do retorno.

Mas Gaza também é um símbolo da resistência de quem nada tem a perder. Diante da quarta potência bélica do globo, uma resistência heroica que se fortalece e inspira lutadores na América Latina e no mundo.

Nesses dois dias, a resposta palestina, obviamente sem o mesmo poderio militar, tanto que não há vítimas israelenses, veio sob a forma de centenas de foguetes. Vergonhosamente, de acordo com o Middle East Monitor, o coordenador especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio, Nickolay Mladenov, condenou o lançamento desses como “inaceitável”, e não o massacre em Gaza. Muito diferente da verdadeira e urgente solidariedade internacional, que encontra sua expressão entre os oprimidos e explorados mundo afora.

Para além, os palestinos persistem. Resistem. “Quando tivermos sede, espremeremos as pedras. E comeremos terra, quando estivermos famintos. Mas não iremos embora. E não seremos avarentos com nosso sangue. Aqui temos um passado. E um presente. Aqui está nosso futuro”, ecoam as palavras do poeta palestino Tawfiq Zayyad.

Artigo publicado originalmente na Carta Capital

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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