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Eid al-Adha: a data mais sagrada do calendário islâmico

elebrações do Ei-Al-Adha na Meca, em torno da Kaaba, em anos sem restrições. Este ano, devido à pandemia, somente muçulmanos que vivem na Arábia Saudita poderão participar da peregrinação à Meca [Pixabay]

O último mês do calendário islâmico, que é o décimo segundo mês do ano lunar, e que adota a hegira (migração do profeta Mohammad de Meca para a Medina) como marco inicial, tem a data anual mais sagrada do calendário islâmico. É o Eid al-Adha, que significa dia do sacrifício, e caracteriza o ponto sagrado máximo de todo ano islâmico. Este “eid” (eid quer dizer dia santo, em árabe), também chamado de “o grande eid”, começa dia 10 do mês de Zu-elhijja e vai até o dia 13 deste mês, com duração de cerca de exatos quatro dias. O nono dia do mês de Zu-elhija (traduzido literalmente como mês da peregrinação) é o chamado dia da “waqfa” no “Arafah”, ou seja, “parada em Arafah” é o dia mais importante do ritual da peregrinação islâmica anual. Neste dia da parada, os peregrinos juntam-se no monte de Arafah, no santuário sagrado de Meca, onde fazem súplicas e orações o dia inteiro. Portanto, o Eid al-Adha que tem duração de quatro dias é antecedido pelo dia da parada (Waqfa) em Arafah. Ambos, Waqfa e Eid al-Adha, são os dias máximos que constituem o ritual da peregrinação propriamente dito.

O primeiro dia dos quatro dias do Eid al-Adha é o dia de nahr (significa dia do sacrifício), no qual cada peregrino deve oferecer em sacrifício um animal ovino, bovino ou camelo. O sacrifício é obrigatório para cada peregrino. O muçulmano que não foi à peregrinação pode oferecer sacrifício no seu local de residência, no entanto, é um sacrifício voluntário e estimulado. Os outros quatro dias do Eid-Adha são chamados os dias de “tashriq”, nos quais são completados os rituais do hajj (peregrinação), com o apedrejamento de Satanás no vale sagrado de Meca, numa área conhecida como “Mina”, a qual tem três áreas de apedrejamento, a menor, a média, e a “Aqaba”. O ritual da peregrinação é completado com as circunvoluções da despedida em torno da Kaaba, na Mesquita Sagrada (Al-Masjid Al-Haram) de Meca.

Os muçulmanos que não comparecem à peregrinação comemoram os dias de Eid al-Adha nos seus respectivos locais de residência. Os dias santos são dias de adoração a Deus e sacrifício em todo o mundo islâmico. Na manhã do dia 10 de Zu-ehijja, logo após o nascer-do-sol, tem a oração do eid, que é realizada nas mesquitas. Um dos rituais que caracterizam estes dias santos, além da peregrinação e do sacrifício, é o ritual do “takbir”, que é a constante citação do dizer “Allahu Akbar”, que quer dizer “Deus é o Maior”. Na manhã do eid, este takbir recebe um nome especial “takbirat el-eid”, que são entoadas acompanhadas de outros dizeres de glorificação a Deus, ao profeta Mohammad (que as bênçãos e a paz de Deus estejam sobre ele), aos companheiros do profeta e às suas esposa, junto com a exaltação do monoteísmo islâmico puro. Tudo isso entoado em alto e bom tom nas mesquitas.

Eid al-Adha , a Festa do Sacrifício de 2019, Mesquita Brasil/SP. [Foto Arquivo]

Todo o Eid al-Adha faz referência à história do pai do monoteísmo, o profeta e mensageiro Ibrahim (Abraão, em português), que a paz de Deus esteja sobre ele, com o seu filho Ismael, considerado o pai dos árabes, assim como o seu meio-irmão Isaac é considerado o pai dos judeus. É a história do sacrifício citada no Nobre Alcorão. Em um sonho, Deus ordenou ao profeta Ibrahim que oferecesse em sacrifício o seu filho Ismael, em sinal de devoção e penitência sinceros a Deus. O profeta Ismael, que a paz de Deus esteja sobre ele, então bem jovem (mais provavelmente pré-púbere), aceitou resignadamente ser sacrificado e preparou-se para o ritual, mostrando uma coragem e fé que surpreenderam o seu pai Ibrahim.

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Segundo o Nobre Alcorão e a tradição profética islâmica, foram Ibrahim e Ismael que construíram a Kaaba em Meca. A Kaaba foi a primeira casa construída por humanos para a devoção e adoração ao Deus único. Tornou-se o ponto geográfico mais sagrado do Islã, e o local para o qual todos os muçulmanos dirigem-se ao realizar as suas cinco orações diárias obrigatórias, e todas as orações voluntárias. As mesquitas são construídas de tal forma que a oração seja dirigida em direção a Meca. O “mihrab” (nicho que fica na parte frontal de toda mesquita) orienta a direção para o qual os rostos dos praticantes da oração devem dirigir-se, que é justamente a direção da cidade sagrada de Meca.

Portanto, o Eid al-Adha evoca o monoteísmo no seu sentido mais puro e original. Volta-se às origens das três religiões monoteístas, com os profetas Abraão e seu filho Ismael. Há um outro fato a ser lembrado relacionado à cidade sagrada de Meca: a fonte de Zamzam, aos pés da Kaaba. Esta fonte brotou no famoso episódio de Ismael com a sua mãe Hagar, esposa egípcia de Ibrahim, e que era escrava de Sara, primeira esposa do pai das três religiões monoteístas, e mãe do profeta Isaac, que a paz de Deus esteja sobre ele. Naquele episódio, a mãe e o filho menino estavam sozinhos com muita sede na região do vale de Meca, então uma região árida, desabitada e desprovida de qualquer recurso hídrico. A mãe Hagar caminhou sete vezes entre os montículos de Safa e Al-Marwa em busca de água. Após este percurso, Deus fez brotar a fonte cristalina de Zamzam que saciou mãe e filho, bem aos pés da Kaaba. Hoje os montículos de Safa e Al-Marwa foram engolidos pela mega construção moderna da Mesquita Sagrada, e a fonte de Zamzam, que sacia a sede dos peregrinos, foi canalizada e sua água é distribuída através de um moderno sistema refrigerado.

Entre os significados nobres do Eid al-Adha está a solidariedade. O sacrifício de reses tem a sua carne distribuída aos de casa, aos parentes e a pobres e necessitados. O ritual do sacrifício evoca, num alto grau, a devoção a Deus e a submissão aos seus mandamentos. Enaltece um valor humano muitas vezes esquecido no meio das preocupações egoístas e mundanas: o valor do sacrifício. Como seres humanos temos direitos e deveres. Os bons seres humanos respeitam os direitos alheios e cumprem os seus deveres. Mas somente os seres humanos excepcionais conseguem, além de cumprir os seus deveres, oferecer sacrifícios, sejam eles morais ou materiais. O sacrifício eleva o ser humano ao grau de herói. Aquele que oferece o seu dinheiro para beneficiar e ajudar o seu próximo está realizando mais do que seu dever, está realizando um nobre ato de sacrifício. Aquele que oferece a sua vida nos campos de batalha, em prol de uma causa justa, faz muito mais do que o seu dever, ele torna-se mártir pelo auto-sacrifício consciente. Aquele que doa o seu tempo dedicando-se a uma nobre causa, sacrificando o seu conforto e o seu lazer, faz muito mais do que um dever, ele se eleva ao rol dos nobres e grandes homens pelo sacrifício.

Lado a lado com os rituais religiosos sagrados do Eid al-Adha, temos o lado social nas sociedades islâmicas. É uma oportunidade anual para fortalecer os laços familiares e de amizade, e para disseminar a solidariedade e generosidade na sociedade. As famílias reúnem-se para refeições. Pratos e sobremesas especiais são preparados. Visitas a familiares e amigos são um hábito que os muçulmanos praticam nesse dia santo. No mundo islâmico, este ambiente de felicidade e regozijo durante o Eid al-Adha faz-se sentir de uma forma intensa. No resto do mundo, onde há minorias muçulmanas, este ambiente sente-se de uma forma tímida ou passa despercebido, uma vez que restringe-se às comunidades muçulmanas apenas, como ocorre no Brasil e em toda a América Latina.

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Neste ano de 2021, o dia 10 de Zu-elhijja coincide com o dia 20 de julho. No Brasil, e em boa parte do mundo, ainda estamos em plena pandemia. Este fato levou ao cancelamento do ritual de peregrinação de muçulmanos fora da Arábia Saudita, para evitar as aglomerações que este ritual ocasiona. Portanto, as autoridades sauditas, neste ano, permitiram somente a peregrinação de cidadãos muçulmanos que residem na Arábia Saudita. A peregrinação de muçulmanos do resto do mundo foi impedida. As medidas sanitárias acabaram prevalecendo sobre rituais religiosos. Sem dúvida, foi uma medida acertada e louvável das autoridades sauditas.

Aos muçulmanos do mundo todo, e especialmente aos muçulmanos que residem no Brasil, sejam eles brasileiros ou estrangeiros, desejamos um Eid al-Adha abençoado. Esperamos que, no eid do próximo ano, a pandemia tenha sido vencida e que a realização da peregrinação torne-se possível da forma habitual. Neste ano, os muçulmanos do mundo todo (com exceção da Arábia Saudita) tem que contentar-se com os rituais de oração, sacrifício e takbir, associados às comemorações sociais que obedecem às medidas sanitárias de prevenção da pandemia. Adha mubarak a todos!

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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