Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Reflexões sobre ser muçulmano no Ocidente

Mulher muçulmana em Cantuária, Inglaterra, 13 de outubro de 2012

O Ocidente, termo que engloba as Américas, Europa e Austrália, é um conceito geopolítico e cultural muito mais que uma macro-região geográfica do globo terrestre. Essencialmente, o Ocidente é sinônimo de Cristandade europeia, que ultrapassou, há alguns séculos já, os limites do velho continente, criando colônias nos quatro cantos da terra. Muitas destas colônias conseguiram a sua libertação após árduas lutas. No entanto, os continentes das Américas setentrional e meridional, junto com a Oceania, tornaram-se uma extensão da Europa. Por isso, mesmo sendo situada no no extremo oriente, a Austrália é considerada um país ocidental. O domínio europeu sobre as Américas e a Oceania significou a dizimação das populações nativas, que foram praticamente exterminadas e suas terras usurpadas.

A hegemonia europeia causou sofrimento e tragédias para as populações não-europeias do mundo todo. De fato, os europeus e seus descendentes tornaram-se os senhores do mundo. O Ocidente passou a ser o centro político, cultural, econômico e social. Os povos, oprimidos e dominados pelas potências ocidentais, passaram a afluir para os países ocidentais, em busca de melhores condições de vida. Assim, além dos europeus e seus descendentes, e do que sobrou das populações nativas no Novo Mundo, o Ocidente passou a ser o receptor de levas e levas de imigrantes das diversas partes do mundo. Estes imigrantes acabaram fixando-se definitivamente nas suas novas pátrias ocidentais. Entre estes grupos de imigrantes estão os árabes e muçulmanos.

Causas da emigração de muçulmanos

Pode causar estranheza ao observador ocidental neutro o fato de muitos muçulmanos abandonarem os seus países, para fixar-se definitivamente no Ocidente. É paradoxal constatar que os países islâmicos, detentores de uma milenar e rica cultura, além da riqueza em recursos naturais e humanos, sejam incapazes de absorver e manter as suas populações. De fato, ninguém emigra por turismo. As causas da emigração são praticamente as mesmas em todos os tempos e espaços. Emigra-se pelas mesmas razões, independentemente de etnia, raça, ou credo religioso. As pessoas, na grande maioria das vezes, emigram por dois grandes motivos: busca por melhores condições de vida, em situação de paz; ou fuga de situações trágicas e catastróficas, como guerras e tragédias ambientais.

LEIA: As comunidades árabes no Brasil entre o passado e o futuro

No caso dos muçulmanos que emigraram para o Ocidente, tornando-se cidadãos cristãos  europeus (lembramos que as Américas do Norte e do Sul fazem parte deste mundo cristão), os motivos para deixar para trás a terra natal não são diferentes dos motivos dos outros povos. Mas estes motivos adquirem, no caso dos muçulmanos, particularidades que lhe são peculiares. A principal destas particularidades é o mundo muçulmano ser rico em recursos naturais e humanos, e ser dono de uma imponente e nobre cultura, com gloriosa história. Esta riqueza cultural, humana e natural compõe um paradoxo quase indecifrável, quando colocado em confronto com o êxodo de muçulmanos. Se os países muçulmanos são ricos material e culturalmente, porque, então, levas de muçulmanos continuam a emigrar para as Américas, Europa e Oceania?

A chave para entendermos este paradoxo remonta ao ano de 1799 da era cristã. Este ano foi o ano das guerras de Napoleão Bonaparte no Oriente Médio, passando pelo Egito e pela Palestina, sendo famoso o sítio que este conquistador francês fez na cidade de Akka, litoral palestino. A importância deste ano é muito mais cultural, para o mundo islâmico, do que política ou militar. Foi o ano em que o mundo islâmico deparou-se e se deu conta, pela primeira vez na História, com a superioridade militar, tecnológica e científica do Ocidente. Esta incursão militar ocidental, no mundo muçulmano, abriu o caminho para o posterior colonialismo europeu em todos os domínios do Islam. Já na primeira metade do século XIX, o  mundo muçulmano entrou em longa fase de exploração e exaurimento de seus recursos e riquezas com o advento do colonialismo europeu, tendo como acontecimento marcante a colonização da Argélia pela França. Esta fase perdura até hoje, mesmo com o fim do colonialismo. Hoje, na época do neocolonialismo, prolonga-se os efeitos nefastos do colonialismo e imperialismo sobre o mundo islâmico.

As práticas do colonialismo e neocolonialismo podem diferir e variar nos meios, métodos e mecanismos, mas tem o mesmo fim: a exploração e espoliação dos povos colonizados. Neste sentido, tanto colonialismo quanto neocolonialismo, fazem alianças com as elites locais, as quais gozam de privilégios e benefícios, enquanto as massas e a nação, como um todo, sofrem de opressão, e tem a soberania violada.  Com a decadência e enfraquecimento do império turco-otomano, desde os primórdios do século XIX até hoje, na terceira década do século XXI, o que tem acontecido de uma forma mais consistente é a exploração do mundo islâmico pelas potências ocidentais, aliadas a elites islâmicas locais, aliadas com os interesses de expansão imperialista, em detrimento dos genuínos e lícitos interesses islâmicos.

A aliança do colonialismo, neocolonialismo e imperialismo ocidentais com as elites islâmicas locais causou e causa imensos prejuízos a todo o mundo islâmico. As riquezas muçulmanas são drenadas para o Ocidente. Às elites locais é permitido o acúmulo de enormes fortunas, com um estilo de vida marcado pelo luxo e desperdício esbanjador de recursos, em contraste com a miséria das massas. Em consequência desta grave injustiça social, as massas islâmicas tornam-se vítimas da pobreza,  ignorância e doenças. Este fato fez e faz com que muitos muçulmanos abandonem os seus países natais, rumo ao rico Ocidente, em busca de melhores condições de vida. O colonialismo o neocolonialismo tem defendido e patrocinado regimes tirânicos, inimigos de suas próprias populações, para governar a maior parte dos estados islâmicos.

LEIA: A Ibéria árabe

 Não podemos deixar de citar os conflitos armados e as guerras como outro fator importante causador do êxodo islâmico rumo ao Ocidente. O colonialismo e o neocolonialismo tem promovido massacres contra as populações de muçulmanos desarmados. Desde o início do século XXI até hoje, dois países islâmicos foram alvo de guerras imperialistas que promoveram massacres de inocentes, limpeza étnica e destruição de cidades e infra-estrutura. Iraque e Síria são o exemplo claro e vivo de como o casamento perverso entre imperialismo ocidental e tirania local pode ter resultados ominosos. Muitos iraquianos e sírios buscaram refúgio em países ocidentais. Portanto, guerras provocadas e patrocinadas pelo Ocidente acabaram provocando o êxodo de vítimas para os próprios territórios do Ocidente.

O muçulmano no Ocidente

Nos últimos anos, o Ocidente inteiro tem sido varrido por movimentos de ultra-direita, com tendências xenófobas, de ódio religioso e de rejeição das comunidades com origens árabe, latina, africana. O ódio aos muçulmanos recebe a denominação de islamofobia, e é caracterizada por leis que denotam discriminação (como a proibição do uso do hijab na França) ou por atos individuais de extrema violência, como o massacre das mesquitas da Nova Zelândia, e o recente crime no Canadá.

As comunidades muçulmanas têm contribuído para o progresso dos países ocidentais receptores de imigrantes. O muçulmano como indivíduo, no Ocidente, encontra-se preso entre vários dilemas e paradoxos. Ele sente que faz parte de uma minoria. No fundo, ele desejaria estar em algum país muçulmano. No entanto, as circunstâncias políticas, sociais e econômicas no mundo islâmico obrigam o imigrante muçulmano a criar raízes na sua nova pátria. É certo que se houvesse sistemas políticos, sociais e econômicos adequados nas terras islâmicas, não haveria comunidades de muçulmanos em todo o Ocidente. Mas a aliança do colonialismo, neocolonialismo e imperialismo com as ditaduras e tiranias locais permite a espoliação das nações islâmicas, e a criação de gritantes injustiças sociais, com carências graves na saúde e educação. Isso sem falar das guerras que assolam mais de uma país islâmico.

Se por um lado a América Latina é receptiva e hospitaleira para com os muçulmanos, por outro lado, regiões como a Europa e a Austrália tem uma clara tendência para a islamofobia. Em países como o Brasil, podemos ver a comunidade islâmica vivendo de forma harmoniosa com os demais componentes da nação brasileira. Entretanto, com a ascensão da direita ao poder, e com o fenômeno do bolsonarismo, passamos a ter, no Brasil, cenas e atitudes claramente islamofóbicas. Entendemos que a intolerância religiosa não faz parte da tradição do povo brasileiro, tradicionalmente hospitaleiro, receptivo e tolerante. Preferimos acreditar que a ascensão do extremismo no Brasil será breve e constituirá um fenômeno isolado da História do Brasil.

LEIA: Reflexões sobre a atuação política da comunidade islâmica no Brasil

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ArtigoÁsia & AméricasAustráliaCanadáEstados UnidosEuropa & RússiaOceâniaOpiniãoPalestina
Show Comments
Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
Show Comments