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Covid-19, arqueologia de Israel e o avanço do Monte do Templo sobre Al-Aqsa, em Jerusalém

Colonos israelenses, escoltados pela polícia da ocupação de Israel, invadem o complexo da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, 2 de junho de 2019 [Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images]
Colonos israelenses, escoltados pela polícia da ocupação de Israel, invadem o complexo da Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, 2 de junho de 2019 [Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images]

Desde antes de sua criação, em 1948, Israel emprega estratégias militares e não-militares para exercer seus interesses nacionais e de segurança no Oriente Médio. Para Israel, a guerra na Palestina é um instrumento político, especialmente na Faixa de Gaza. O estado israelense também utiliza táticas não-militares, contudo, particularmente em áreas críticas de Jerusalém (Al-Quds). Além da guerra, a arqueologia logo tornou-se um instrumento político para a estratégia israelense.

Seria natural alguma perplexidade ao observarmos como Israel faz para utilizar a arqueologia como ferramenta de interesse nacional, caso respeitemos os conceitos tradicionais dos estudos arqueológicos. Na compreensão geral, a arqueologia é um campo puramente científico e acadêmico, composto por certas éticas e reforçado por leis domésticas e internacionais. Porém, no mundo real, o nobre caráter da arqueologia costuma ser sacrificado por interesses políticos e ideológicos. Estados pragmáticos como Israel utilizam a arqueologia como ferramenta de política territorial. Neste sentido, a ocupação israelense tenta efetivamente impor plena soberania ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa, ao sobrepô-lo com o chamado Monte do Templo, em oposição a qualquer pressuposto de soberania palestina, com métodos próprios de arqueologia como artifício.

Os palestinos chamam o local de Haram al-Sharif (Nobre Santuário). Israelenses e palestinos disputam o complexo sagrado com base em suas próprias narrativas históricas e religiosas.

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Para os judeus, o Monte do Templo é o local do primeiro e segundo templo de seu passado. A tradição judaica afirma que o primeiro templo foi construído pelo Rei Salomão (Profeta Suleiman, segundo o Islã), em meados de 1.000 a.C.. O templo foi destruído por um ataque babilônico em torno de 598 a.C, liderado pelo Rei Nabucodonosor II. Em 515 a.C., a reconstrução do segundo templo foi concluída, em grande parte, pelo Rei Herodes. O local voltou a ser destruído em 70 a.C.. Os judeus alegam que os restos do templo estão enterrados embaixo do complexo de Al-Aqsa, em particular, sob o Muro de Al-Buraq (Muro das Lamentações), lugar mais sagrado para a tradição judaica contemporânea.

Não obstante, na tradição islâmica, o Haram al-Sharif é um local sagrado ligado ao episódio da Jornada Noturna do Profeta Muhammad. Muçulmanos acreditam que o Profeta pousou no santuário com seu veículo fantástico, o “Buraq”, e realizou uma prece antes de mais uma vez erguer-se ao Paraíso. O islamismo celebra o episódio anualmente, como Isra e Miraj.

As alegações sobrepostas sobre o complexo de Al-Aqsa e o Monte do Templo tornaram-se uma das questões mais controversas sobre o conflito israelo-palestino.

Desde 1967, Israel utiliza a arqueologia com objetivo claro de criar segurança a um patrimônio cultural exclusivamente judaico, em Jerusalém, contraposto a qualquer patrimônio palestino. Após a chamada Guerra dos Seis Dias, Israel passou a criar sentidos simbólicos via monumentos culturais para nutrir o nacionalismo entre o povo judeu, a fim de salvaguardar o estado-nação de Israel. Arqueólogos como Benjamin Mazar foram glorificados como verdadeiros patriotas para o estado sionista. De fato, arqueólogos israelenses como Eilat mazar, Gabriel Barkay e Israel Finkelstein auxiliaram na construção da narrativa ultranacionalista israelense. O governo instituiu ainda a Autoridade de Antiguidades de Israel, a fim de executar escavações arqueológicas alinhadas aos interesses do estado-nação.

Neste sentido, Israel passou a implementar duas políticas claras no complexo sagrado de Jerusalém, ambas ligadas a estratégias pragmáticas. A primeira é a política de “judaização”, pela qual artefatos históricos são interpretados por um viés ideológico, de modo que a verdade em Jerusalém pôde ser sacrificada para fortalecer a narrativa judaica. A outra refere-se a apagar a identidade palestina, pela qual patrimônios árabes são pouco a pouco minimizados ou liquidados, a fim de conter qualquer reivindicação futura dos palestinos sobre Haram al-Sharif e Jerusalém. As duas políticas refletem aspectos significativos da arqueologia de direita e extrema-direita israelense, com apoio da Autoridade de Antiguidades de Israel.

Israel luta contra o coronavírus – cartum [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Israel luta contra o coronavírus – cartum [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

O partido Likud, sob liderança do atual premiê israelense Benjamin Netanyahu, é notório por suas políticas predatórias contra o povo palestino. Netanyahu utiliza a “síndrome de negação” contra quaisquer patrimônios palestinos em Jerusalém e nos territórios ocupados. O governo ainda ordena escavações arqueológicas extensivas em Jerusalém e nos arredores de Al-Aqsa, ao impor uma série de projetos de caráter político. Entre eles: Beit Strauss, Beit HaLiba, Túnel do Muro Al-Buraq, Kedem, Centro Geracional, Ponte do Portão Mughrabi (interrompido em 2014) e plataformas de culto para judeus americanos.

Todos os projetos de escavação corriam sem percalços antes do surto de covid-19 em Israel e nos territórios palestinos ocupados. O Estado da Palestina e o Reino da Jordânia de fato implementaram esforços junto da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para interromper as escavações arqueológicas israelenses no complexo de Al-Aqsa. Contudo, Israel manteve as violações sobre os patrimônios históricos, previstas conforme a lei internacional. Esforços assumidos pela Liga Árabe, Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), Organização para Cooperação Islâmica (OCI) e Turquia também falharam em controlar a pressão das políticas sionistas. Resoluções da ONU apresentam-se somente no papel, incapazes ainda de impedir Israel de violar a lei internacional. Os Estados Unidos utilizam reiteradamente seu poder de veto no Conselho de Segurança para neutralizar resoluções da ONU contra Israel, concedendo imunidade efetiva ao estado sionista – um relacionamento bastante especial.

Desde 1967, nenhum estado ou organização da comunidade internacional foi capaz de parar as escavações israelenses no Haram al-Sharif. Com apoio americano, Israel adquiriu ganhos territoriais em 2019. Washington reconheceu Jerusalém como capital israelense e transferiu sua embaixada de Tel Aviv à cidade sagrada. A política americana sobre Jerusalém prejudica o status quo em Al-Aqsa e em toda a região. Fica a dúvida: Emirados Árabes Unidos e Bahrein estão dispostos ou são capazes de proteger os patrimônios históricos palestinos em Jerusalém por meio do recente estabelecimento de laços diplomáticos com Israel?

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Obviamente, a lei internacional e as instituições liberais foram incapazes de conter o comportamento agressivo israelense contra a Palestina histórica e a população palestina, em Gaza, Jerusalém e Cisjordânia. O poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança salvaguarda as ações beligerantes de Israel. O estado sionista continua a violar a lei internacional em todos os aspectos relativos à questão palestina. Entretanto, um pequeno germe, o coronavírus forçou Israel a instituir um “desligamento completo” após a primeira onda da doença, em abril de 2020. Netanyahu viu-se encurralado pelo covid-19 e condenado a uma rigorosa quarentena. Posteriormente, o Ministro da Saúde de Israel Yaakov Litzman testou positivo para a doença.

Em Israel, quase todas as atividades econômicas e sociais tiveram de ser suspensas pelo coronavírus. O projeto do Monte do Templo em Jerusalém foi interrompido. De fato, todas as escavações e projetos arqueológicos foram postergados até segundo aviso. O Muro de Al-Buraq foi fechado a fiéis judeus entre março e maio de 2020, permanecendo vazio, exceto por trabalhadores de limpeza em pesados trajes de proteção, a fim de esterilizar a estrutura sagrada. De tempos em tempos, as “cartas para Deus” eram coletadas, deixadas tradicionalmente por fiéis judeus nas fissuras de Al-Buraq, para serem enterradas no Monte das Oliveiras. Pela primeira vez desde 1967, o complexo de Al-Aqsa e seus arredores vivenciaram a consagrada paz eterna. Nenhum protesto ou confronto ocorreu no local.

Diante do coronavírus, ninguém pôde efetivamente impor-se para reivindicar propriedade ou soberania sobre o complexo de Al-Aqsa ou o chamado Monte do Templo. Afinal, doenças como o covid-19 não distinguem entre civilizações ou povos. O pequeno germe teve o poder de interromper as escavações arqueológicas de Israel ao redor de Al-Aqsa. O coronavírus e as decorrentes medidas de lockdown enfim frustraram a avanços de posse sobre o projeto do Monte do Templo, ao menos por um tempo. A doença criou um breve hiato neste aspecto, em particular, do conflito israelo-palestino, rendendo a Israel uma posição de impotência sobre suas políticas referentes a Al-Aqsa.

Israel pôde perceber que qualquer pragmatismo ou política de poder foram efetivamente devorados pela pandemia. De fato, Israel enfrenta um novo adversário no âmbito de sua segurança nacional na forma da doença. Os israelenses continuam a contrair o vírus e falecer, em número muito superior às estimativas palestinas. O coronavírus debilitou a estratégia israelense contra a Palestina histórica. Para os palestinos, o covid-19 representa uma nova ameaça, para além da ameaça israelense imposta por décadas e décadas de ocupação. Idealmente, Israel poderia chegar a um consenso com os palestinos para combater este inimigo em comum e sobreviver assim na Terra Santa. Não obstante, há uma lição importante a ser obtida da pandemia. Os palestinos não representam mais uma “ameaça mortal” a Israel. Nenhuma ideologia pode sobreviver ao covid-19. Apenas paz e a humanidade poderiam salvar Israel de seu próprio destino.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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