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Lutar por uma USP livre de apartheid

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Palestinos protestam contra os planos de anexação israelense da Cisjordânia ocupada, e pedem solidariedade internacional, em 22 de junho de 2020 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]

Na semana passada a realização na Universidade de São Paulo da Feira das Universidades Israelenses acendeu o alerta sobre a importância de se avançar na luta por uma USP livre de apartheid e por boicote acadêmico em todas as instituições no Brasil.

Passo importante nessa direção foi a articulação chamada por estudantes da universidade, com o apoio tanto do sindicato dos trabalhadores (Sintusp) quanto de organizações brasileiras e palestinas, que resultou em realização de protesto em frente ao Centro Intercultural Internacional, iniciativa da Agência USP de Cooperação Acadêmica de Cooperação Nacional e Internacional (Aucani), no último dia 6 de abril contra a feira que reunia instituições israelenses em espaço denominado Israel Corner. Inaugurado em 15 de dezembro de 2021 numa parceria com o Consulado Geral de Israel em São Paulo, este expõe a cumplicidade há bastante tempo da USP com a contínua Nakba (catástrofe consolidada com a formação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada).

Como aponta carta enviada à reitoria e à diretoria da USP dias antes da feira, intitulada “Por uma USP livre de apartheid! Boicote acadêmico a Israel!”, “não é de hoje que estudantes, professores e funcionários têm informado e trazido para a instituição o debate sobre a colonização israelense, limpeza étnica nas terras palestinas e, portanto, violação pelo Estado de Israel de todos os direitos humanos fundamentais. Este processo histórico já dura 74 anos, como comprovado inclusive por historiadores israelenses como Ilan Pappé. A consequência é a instituição de um regime de apartheid, como reconhecido, entre outras, pela Anistia Internacional, Human Rights Watch e a organização israelense de direitos humanos B´Tselem”.

No ofício o movimento convida os destinatários a conhecerem os relatórios dessas organizações e destaca: “Entendemos que iniciativas que contribuem para a manutenção de um regime de apartheid não deveriam ter lugar dentro de uma universidade. Acreditamos que a manutenção do espaço Corner Israel, a realização da feira e convênios de cooperação e intercâmbio com universidades israelenses vão de encontro à intenção expressa pelo senhor reitor, em seu discurso de posse, quando afirma: ‘A nossa gestão visa à criação de políticas internas à universidade que possam, além de mitigar esses fatores [desafios em políticas sociais, étnico-raciais e de gênero], ser modelos para a sociedade.’

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A carta lembra que a instituição pública, por sua importância, “deveria estar na linha de frente como um espaço livre de apartheid”. Também aponta a falácia do argumento contra esse tipo de boicote de “liberdade acadêmica”. Esta “não deve ser confundida com apoio a violação de direitos humanos fundamentais”. E vaticina: “Liberdade acadêmica não combina com apartheid.”

A Federação Árabe-Palestina do Brasil (Fepal) também encaminhou carta à reitoria e à diretoria da Aucani com igual reivindicação. Lamentavelmente não houve resposta a nenhum dos ofícios.

Por que boicote acadêmico

Em seu chamado por boicote acadêmico, a sociedade palestina revela que “durante décadas, as universidades israelenses desempenharam um papel fundamental no planejamento, implementação e justificação das políticas de ocupação e apartheid de Israel, mantendo uma relação estreita e única com os militares israelenses”. Além disso, como enfatiza a campanha, “um estudo da Human Rights Watch revela discriminação racial institucionalizada contra palestinos em todo o sistema educacional de Israel, incluindo universidades”.

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Chamado ao protesto do dia 6 de abril contra a realização da Feira das Universidades Israelenses na USP [Divulgação]

Essas instituições, segundo demonstra a campanha, são parte orgânica de um sistema de segregação que tem como marcas a limpeza étnica e colonização agressiva. Seus campi, construídos sobre aldeias palestinas destruídas a partir de 1948, são os locais onde se realizam pesquisas e desenvolvimentos militares, assim como se alimenta a ideologia que sustenta o regime de apartheid israelense.

Participante da feira na USP, a Universidade de Tel Aviv, por exemplo, como aponta a campanha de boicote acadêmico, “desenvolveu dezenas de sistemas de armas e a ‘doutrina Dahiya’ de força desproporcional empregada pelos militares israelenses para cometer crimes de guerra contra civis palestinos e libaneses”. Tal doutrina foi implementada pelas forças de ocupação israelenses em massacres na estreita faixa de Gaza.

A Universidade de Ben Gurion, presente na edição da feira de 2021 e com a qual a USP mantém atividades e convênios, é igualmente cúmplice nas violações de direitos humanos por Israel. A campanha de boicote acadêmico revela que, por essa razão, a Universidade de Johannesburg cortou vínculos em 2011 com essa instituição, inclusive por sua atuação no apartheid da água, demonstrado nos relatórios da Anistia Internacional e demais organizações. Na Cisjordânia, palestinos não recebem sequer o mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para sobreviver, enquanto os assentamentos ilegais israelenses têm a sua disposição até oito vezes mais do que o recomendado. Em Gaza, palestinos têm 96% da água para consumo humano contaminada.

Outra participante da feira neste ano, a Technion, desenvolve tecnologias de drones militares e escavadeiras controladas remotamente usadas para demolir casas palestinas. A Anistia Internacional demonstra que ano a ano são centenas de lares palestinos postos abaixo pelo apartheid israelense, em velocidade alarmante, para a implementação de mais assentamentos ilegais. Segundo reportagem do portal Monitor do Oriente de 14 de março último, 800 casas palestinas em Jerusalém Oriental estão ameaçadas de demolição. A aldeia de Al Araqib, no Naqab (Negev), já foi destruída 199 vezes, e os beduínos palestinos seguem a reerguê-la a cada agressão. Palestinos são obrigados a demolir suas próprias casas e ainda pagar por isso. A punição coletiva é parte intrínseca da limpeza étnica planejada.

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A Universidade Hebraica – também participante da feira na USP –, conta, entre outros, com o programa militar Talpiot, patrocinado pelas forças de ocupação israelenses. Os estudantes aperfeiçoam seu aprendizado em “campo”, utilizando seus conhecimentos para aprofundar a pesquisa e o desenvolvimento militar.

Urge ampliar a mobilização, seguindo o exemplo dos mais de 270 acadêmicos que aderiram no Brasil ao boicote acadêmico e de outras centenas em toda a América Latina. O tremular das bandeiras palestinas e o grito das palavras de ordem em frente ao Centro Intercultural Internacional da USP – no importante protesto simbólico em 6 de abril com a presença de representantes dos centros acadêmicos das faculdades de Letras e Relações Internacionais, dos Estudantes em Solidariedade ao Povo Palestino da universidade, do Sintusp, da Frente em Defesa do Povo Palestino, do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel e de outras organizações – devem agitar enorme campanha com engajamento de professores, pesquisadores, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras da Universidade de São Paulo.

O primeiro passo para uma USP livre de apartheid é cancelar o convênio que deu origem ao espaço “Corner Israel”. Na sequência, romper ou não renovar convênios com universidades israelenses já existentes. Este é o chamado.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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