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Sejamos honestos, Israel é construído sobre uma trama de mentiras

Diana Neslen, de 82 anos [Youtube]

Nem todos os judeus são sionistas, nem todos os sionistas são judeus, mas diga qualquer coisa negativa sobre a ideologia política do sionismo ou a favor da Palestina e não importa sua religião ou mesmo ausência de crença: você será fatalmente acusado de antissemitismo. No mundo contemporâneo, compartilhar sua oposição ao sionismo ou expressar a menor das críticas a Israel pode lhe causar graves problemas. Uma senhora de 82 anos na Grã Bretanha, por exemplo, sofre o risco de ser expulsa do Partido Trabalhista por postar mensagens “antissemitas” em suas redes sociais. Diana Neslen, entretanto, é judia.

Após três inquéritos do partido, Neslen disse basta e decidiu reagir. Sua equipe de advogados enviou uma carta para advertir a alta cúpula trabalhista de que sua posição antissionista é uma opinião filosófica devidamente protegida sob o Ato de Igualdade. Além disso, seus representantes do escritório de direito Bindmans apontaram que Neslen sofre “discriminação e assédio do partido associados à sua crença filosófica legalmente resguardada”.

Trata-se de um caso com potencial importância, capaz de conferir novos debates sobre a ideologia do sionismo. Seus apoiadores, sobretudo os milhões de cristãos evangélicos em todo o mundo, querem nos fazer acreditar que o sionismo político é mais velho que o próprio Matusalém — que, segundo o Velho Testamento, chegou à idade de 969 anos. Não obstante, comparado ao antiquíssimo patriarca, o movimento nacionalista vive sua infância, concebido por ideológos da Europa central e oriental no final do século XIX.

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Não somente o sionismo é uma criança dentre as ideologias, mas seu apoio por correntes tradicionais judaicas e não-judaicas, em todo o espectro político, é bastante recente. O sionismo criou raízes entre os judeus após décadas de propaganda e milhões de dólares gastos com lobby nos Estados Unidos e em outros países do Ocidente, para esquematizar legislaturas capazes de criminalizar aqueles que ousam contestar seu projeto.

Nem sempre foi assim. Em dezembro de 1938, os resultados eleitorais na Polônia viram o sionismo político lutando para se estabelecer dentre uma das maiores comunidades judaicas da Europa. Somente um dos vinte assentos reservados aos judeus foi conquistado por um candidato sionista; outros 17 foram angariados pelo partido socialista e antissionista, Bund. A evidência sugere que, antes da Segunda Guerra Mundial, os judeus ortodoxos em geral não se sentiam atraídos pelo sionismo ou pelo conceito de um estado judaico. Mike Marqusee argumentou nesse sentido em seu livro If I am Not For Myself: Journey of an Anti-Zionist Jew (Verso Books, 2008): “Enquanto existir sionismo, há judeus antissionistas. De fato, décadas antes de ganhar notoriedade entre não-judeus, o antissionismo era uma ideologia judaica bem estabelecida e, até a Segunda Guerra Mundial, desfrutava de um vasto apoio na diáspora”.

O Holocausto nazista mudou a conjuntura, após o execução de milhões de judeus e outras minorias e opositores, incluindo deficientes, ciganos, homossexuais e sindicalistas. “Quando a guerra terminou, eu pensava, ‘Por que os alemães não fizeram nada?”, recorda Neslen. “Quando há injustiça em seu nome, não podemos lavar as mãos. É por isso que me sinto tão decidida”. Israel, por sua vez, alega agir em nome de todos os judeus, não importa onde.

A verdade, no entanto, é que o sionismo se baseia em mentiras. Pronto, eu disse —e não há dúvida de que os componentes mais raivosos dentre os apoiadores de Israel e lobbies sionistas recorrerão às universidades para instigar sua plataforma contra essa afirmação. Contudo, como Neslen, alcancei o limite e é hora, portanto, de defender minha posição e resistir aos ataques e às difamações.

Uma das mais consistentes mentiras do sionismo político foi promovida pelo autor britânico Israel Zangwill há 120 anos, quando reproduziu o slogan sionista de que a Palestina seria “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Após compreender sua mentira, Zangwill rompeu laços com os fundadores do sionismo e, em 1904, começou a falar dos 600 mil palestinos que então residiam naquela “terra sem povo” — na realidade, um problema impossível de ser ignorado pelo projeto sionista. Atualmente, sem dúvida, o próprio Zangwill seria rotulado como antissemita; em 1913, foi chamado meramente de traidor.

Assim como Zangwill, Diana Neslen era uma “sionista comprometida” até visitar Israel e ver em primeira mão as condições do estado judaico. Assim como o escritor de outrora, Neslen foi castigada, insultada e perseguida após apartar-se do ideário colonial racista. Entretanto, Neslen não está sozinha em meio à perseguição decorrente de sua postura antissionista e sua identidade judaica não parece dissuadir seus detratores. Os apoiadores de Israel, ao contrário, insistem que o Partido Trabalhista deve investigar seu “antissemitismo”. O que ela disse ou faz para merecer tamanha resposta “injustificada e desproporcional”, como apontaram seus advogados? Em 2017, escreveu no Twitter: “A existência do Estado de Israel é um empreendimento racista e eu sou uma judia antirracista”.

Dentro de Israel, em resposta às denúncias de judeus como Neslen, que reafirmam que o sionismo equivale ao colonialismo, as fronteiras são novamente desvirtuadas sob outra mentira: de que os judeus são “geneticamente” oriundos dessa terra. Trata-se de um argumento similar a pressupostos nazifascistas, como observam escritores judeus que denunciaram a apropriação flagrante de uma linguagem anticolonial para subverter a própria definição do sionismo. Longe de um movimento nacional judaico, como explicou Abe Silberstein, esses novos zelotas tentam retratar o sionismo como “um movimento de direitos nativos, cuja implicação é que virtualmente todos os judeus são nativos das terras de Israel [sic]”.

Ao passo que míngua o apoio entre judeus estadunidenses a Israel, sobretudo os mais jovens, parece que o sionismo perde exponencialmente seus status mitológico de ideologia benigna, enquanto movimentos de base pacíficos — como a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) — angariam popularidade. Em 2015, uma pesquisa do grupo Yachad-Ipsos Mori, conduzida entre as comunidades judaicas, revelou que, enquanto 90% dos judeus no Reino Unido acreditam no direito de existência de Israel, somente 59% identificam-se como sionistas — queda considerável em relação aos 72% de 2010. Não está mais claro se a expressão “sionista” refere-se a alguém que apoia o governo ou o estado israelense.

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Em 2018, o Partido Trabalhista no Reino Unido adotou a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). “Negar ao povo judeu seu direito a autodeterminação, ao alegar que a existência de Israel é um empreendimento racista”, afirma a entidade intergovernamental, é um exemplo de antissemitismo. Opositores deste pressuposto observam que a crítica legítima a qualquer governo certamente não corresponde ao racismo contra seu povo. De fato, mesmo um dos autores dessa definição — um documento ainda sem poder vinculativo, meramente uma proposta — confirmou que “grupos de lobby pró-Israel utilizam o pressuposto como arma para silenciar críticos do movimento sionista”.

O grupo Jewish Voice for Labour, do qual Neslen faz parte, observa que há ao menos 42 judeus filiados ao Partido Trabalhista enfrentam ou enfrentaram medidas disciplinares sob alegações de “antissemitismo”. Ironicamente, sob a liderança do autoproclamado sionista Keir Starmer, membros judeus do tradicional partido britânico são cinco vezes mais expostos a queixas de antissemitismo do que seus correligionários não-judeus. Prevalecem dúvidas sobre um eventual pedido de desculpas do partido à sua integrante veterana, ou mesmo se novas investigações internas serão executadas contra ela. Seus advogados, não obstante, não parecem dispostos a retirar o processo contra a liderança trabalhista.

Como afirmou Neslen ao jornal The Guardian: “O Partido Trabalhista não tem a menor ideia, na minha opinião, do que é o antissemitismo. Meu filho foi atacado por um membro do Partido Nacional Britânico [BNP], preso por três anos. Eu me lembro de atender o telefone e receber ameaças. Pessoas que jamais vivenciaram o antissemitismo não têm ideia do que significa isso, do que significa para um judeu ser acusado de antissemitismo”.

Como o Partido Trabalhista, outras proeminentes organizações políticas britânicas adotaram a controversa e equivocada definição da IHRA — com exceção da Escócia. No país, o Partido Verde detém dois ministérios no governo de Nicola Sturgeon. Seus líderes, Patrick Harvie e Lorna Slater, recusam-se a apoiar a definição. Os Verdes votaram previamente em favor de uma moção para designar Israel como “estado racista”, com base em seu projeto de “supremacia judaica”, além de descrever o próprio sionismo como um empreendimento racista. Trata-se de conclusões absolutamente consistentes com relatórios de proeminentes entidades de direitos humanos, como a ong israelense B’Tselem, radicada em Jerusalém ocupada.

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Segundo rumores, o governo de extrema-direita de Israel está cada vez mais preocupado com a queda do apoio internacional ao sionismo. Não seria surpresa se já tivesse repassado orientações a embaixadas e grupos de lobby para reordenar e mobilizar apoio à ideologia colonial no próximo ano. De fato, como reportado recentemente pelo MEMO, parece que lobistas pró-Israel já começaram o ataque. Sturgeon enfrenta críticas cada vez mais contundentes sobre sua coligação com o Partido Verde. A premiê também foi acusada de ódio antijudaico por desencorajar o comércio com assentamentos ilegais nos territórios palestinos.

Diante de tais táticas, não é surpresa, portanto, que o parlamentar britânico Robert Jenrick prometa criminalizar a campanha de BDS. Durante um evento sob o título inflamatório de “Por que tantas pessoas odeiam os judeus?”, no Instituto de Diálogo de Liderança (LDI) — think tank instaurado para ampliar relações culturais entre Austrália, Reino Unido e Israel —, o congressista conservador tentou associar críticas políticas legítimas a uma ideologia repugnante de discriminação contra os judeus. No entanto, como disse um proeminente ativistas pró-Palestina: “O antissionismo é um dever; o antissemitismo é um crime”.

Quando os sionistas desvirtuam novamente as fronteiras, na verdade, expõem a trama de mentiras sobre a qual se construiu o estado israelense. Os judeus europeus pré-Holocausto enxergavam o sionismo sob sua natureza colonialista. É hora de restaurarmos os fatos, antes que mais judeus como Diana Neslen sofram perseguição e assédio por opiniões absolutamente genuínas. Seu direito à liberdade de pensamento e expressão não deve ser suprimido, pois buscam nada mais que justiça para o povo palestino.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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