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Caso Ben & Jerry’s expõe estratégia anti-BDS de Israel

Bandeira israelense em um caminhão em frente à fábrica de sorvetes Ben & Jerry’s, em Be’er Tuvia, 21 de julho de 2021 [Emmanuel Dunand/AFP via Getty Images]
Bandeira israelense em um caminhão em frente à fábrica de sorvetes Ben & Jerry’s, em Be’er Tuvia, 21 de julho de 2021 [Emmanuel Dunand/AFP via Getty Images]

A decisão da Ben & Jerry’s de suspender operações na Cisjordânia ocupada tornou-se um evento crítico aos esforços palestinos para responsabilizar o estado sionista pela ocupação militar, apartheid e crimes de guerra perpetrados contra os palestinos.

Ao responder positivamente aos apelos palestinos contra o apartheid israelense, a gigante dos sorvetes concedeu um verdadeiro golpe aos esforços para criminalizar a iniciativa e derrotar assim a campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS).

O que difere a decisão da Ben & Jerry’s de abandonar o promissor mercado de assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada de ações anteriores, conduzidas por outras corporações estrangeiras, é o fato de que a marca de sorvetes deixou bastante clara a motivação ética de sua nova postura. De fato, a Ben & Jerry’s não tentou de modo algum mascarar ou diluir o impacto de suas declarações. “Acreditamos ser inconsistente com nossos valores que sorvetes Ben & Jerry’s sejam vendidos nos territórios palestinos ocupados”, reiterou a companhia sediada em Vermont, Estados Unidos, em 19 de julho.

Como esperado, o governo israelense ostentou sua fúria sobre a decisão, sobretudo após anos e anos de investimentos fartos e uma campanha global para desacreditar, demonizar e criminalizar o movimento do BDS, além de outros esforços semelhantes para boicotar Israel.

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Há anos, o governo israelense considera a campanha como ameaça real. Alguns oficiais sionistas chegaram ao ponto de descrever a “deslegitimação” resultante do boicote como risco central enfrentado por Israel na atualidade. Conferências lotadas foram realizadas em Las Vegas, Bruxelas, Jerusalém e outros lugares; centenas e milhões de dólares foram angariados; discursos inflamados foram proferidos; políticos e “filantropos” foram convocados para jurar aliança a Israel e acusar de “antissemitismo” qualquer um que ouse criticar o “estado judeu”.

Contudo, o maior desafio israelense era e continua sendo sua quase absoluta dependência do apoio de políticos demagogos e oportunistas. Verdade seja dita, os “amigos de Israel” podem ser muito úteis ao formular leis que associem falsamente, por exemplo, críticas ao regime sionista com antissemitismo ou que criminalizem os atos de boicote, e assim por diante. De fato, muitos estados americanos e parlamentos europeus se curvaram à pressão israelense para banir o BDS e seus apoiadores, seja no âmbito de negócios, sociedade civil ou mesmo na esfera individual. Tudo isso, porém, pouco teve sucesso.

Israel dobrou seus esforços para controlar a narrativa na grande imprensa, nas universidades e onde quer que o debate contra a ocupação pudesse tomar forma. Por meio de uma lógica kafkaesca, muitas vezes bizarra, o estado ocupante e seus apoiadores adotaram a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Memória do Holocausto (IHRA), ao aplicá-la em toda e qualquer plataforma onde se encontre críticas à ideologia sionista ou à ocupação. A dialética absurda, contudo, infelizmente — embora previsível — foi abraçada por muitos de seus benfeitores ocidentais, incluindo Estados Unidos, Canadá e Itália, entre outros.

Ben & Jerry's congela vendas nos assentamentos na Cisjordânia [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Ben & Jerry’s congela vendas nos assentamentos na Cisjordânia [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Ainda assim, nenhum desses esforços encerrou ou mesmo desacelerou as conquistas da campanha palestina por boicote e sanções — de modo pouco surpreendente, pois movimentos do tipo são essencialmente projetados para driblar o controle estatal e impor pressão a políticos, estados e corporações, para convencê-los a acatar aos chamados da sociedade civil. Portanto, quanto mais Israel tenta mobilizar aliados para criminalizar e suprimir a dissidência, mas de fato a alimenta.

Este é o segredo do sucesso das ações de BDS e o próprio calcanhar de Aquiles do estado de apartheid. Ao ignorar o boicote, o movimento cresce exponencialmente; mas ao combatê-lo, por meios tradicionais e pretextos previsíveis, avança ainda mais rápido.

A fim de apreciar o insolúvel dilema de Tel Aviv, podemos constatar a resposta estabanada de alguns de seus líderes ao caso Ben & Jerry’s. O premiê israelense Naftali Bennett alertou a corporação britânica que adquiriu a marca no ano 2000 de “graves consequências” por suas ações, ao sugerir ameaças de cunho legal. Mas verdadeiramente grotesca foi a linguagem utilizada pelo presidente Isaac Herzog, que acusou a Ben & Jerry’s de conciliar-se com uma “nova forma de terrorismo” — um suposto “terrorismo econômico”. Em 21 de julho, Herzog prometeu combater “o boicote e o terrorismo não importa como”.

Vale observar que a resposta israelense ao êxito contínuo do boicote palestino permanece confinada a termos de linguagem, com poucas opções. Ainda assim, no fronte legal, a maior parte das tentativas de indiciar ativistas fracassou reiteradamente, como visto nas decisões recentes de uma corte em Washington. Por outro lado, o ato de acusar a fabricante de sorvetes de “terrorismo” demanda uma análise maior.

Historicamente, Israel situou sua guerra de propaganda antipalestina em torno de uma terminologia redundante, baseada na falácia de que representa um estado judeu e democrático e que sua segurança e mesmo existência está sempre sob risco de ataques terroristas. O mantra supracitado obteve algum sucesso em proteger a ocupação israelense de críticas e difamar opositores e vítimas, sobretudo os palestinos. Contudo, já não garante mais a simpatia ou solidariedade internacional. Não apenas a luta palestina por liberdade ganhou tração global, como o discurso pró-sionista enfim enfrenta suas limitações.

Ao descrever uma marca de sorvetes como “terrorista” por meramente aderir à lei internacional, Herzog evidenciou a falta de credibilidade crescente na retórica oficial israelense.

Não obstante, não acabam aí os problemas de Israel. Não importa se forem consideradas exitosas ou não, todas as campanhas de BDS são igualmente benéficas à ideia de que dão início a todo um diálogo, frequentemente global, como vimos no passado. Os casos das corporações Airbnb, G4S e SodaStream são alguns dos exemplos. Qualquer debate amplo sobre a ocupação militar de Israel e seu regime de apartheid é uma história de sucesso para a causa palestina.

Dito isso, há somente uma ação que certamente dará fim à campanha por boicote: encerrar a ocupação israelense, desmantelar seu sistema de discriminação racial e conceder aos palestinos sua liberdade e justiça, como consagrado pela lei internacional. Não há alternativa — é o único caminho que oficiais israelenses ainda não contemplaram.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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