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A perigosa decisão de ‘adiar’ as eleições e o acerto de contas na Palestina ocupada

Apoiadores do movimento Hamas participam de comício contra a decisão da Autoridade Palestina de adiar as eleições legislativas e presidenciais marcadas para 22 de maio e 31 de julho, respectivamente, na Cidade de Gaza, 30 de abril de 2021 [Mahmud Hams/AFP via Getty Images]
Apoiadores do movimento Hamas participam de comício contra a decisão da Autoridade Palestina de adiar as eleições legislativas e presidenciais marcadas para 22 de maio e 31 de julho, respectivamente, na Cidade de Gaza, 30 de abril de 2021 [Mahmud Hams/AFP via Getty Images]

A decisão do Presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas, promulgada em 30 de abril, de “adiar” as eleições legislativas deste mês, que seriam as primeiras em quinze anos, de fato aprofunda a divisão política na Palestina ocupada e potencialmente sinaliza para o colapso de seu partido Fatah, ao menos em sua forma atual.

Diferente das eleições parlamentares de 2006, o foco desta vez não é a rivalidade entre Fatah e Hamas. Diversas rodadas de negociações nos últimos meses, entre representantes das dois maiores partidos palestinos, já solucionaram uma série de detalhes concernentes ao processo eleitoral previsto para 22 de maio, agora cancelado provisoriamente.

Israel recusa-se a realizar eleições palestinas em Jerusalém [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Israel recusa-se a realizar eleições palestinas em Jerusalém [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Tanto Fatah quanto Hamas têm muito a ganhar com a eleição. O primeiro desfruta da oportunidade de restaurar sua legitimidade há muito dilapidada, à medida que governa os territórios ocupados via Autoridade Palestina, sem qualquer mandato democrático de fato. O segundo, por outro lado, está desesperado para romper seu longo e doloroso isolamento, materializado pelo cerco israelense contra a Faixa de Gaza, que ironicamente decorreu de sua vitória no pleito legislativo de 2006.

Não foi a pressão israelense ou americana que fez Abbas trair os anseios coletivos de toda uma nação. Tamanha pressão de Tel Aviv e Washington é real e, segundo relatos, bastante contundente; porém, também esperada. Além disso, Abbas poderia facilmente contorná-la dado que seu decreto presidencial de janeiro, para conduzir as eleições, foi acolhido com entusiasmo pelos palestinos e pela maior parte da comunidade internacional.

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A decisão infeliz de Abbas — embora previsível, francamente — foi justificada pelo líder de 86 anos sob pretexto da recusa israelense em permitir que os palestinos de Jerusalém participassem do processo eleitoral. A explicação, contudo, é meramente um artifício para encobrir seus temores de que perderá seu trono. A obstinação rotineira de Israel também era previsível, mas desde quando a população ocupada implora a seus colonizadores para exercer seus direitos democráticos? Desde quando os palestinos rogam por permissão de Israel para garantir qualquer traço de soberania política em Jerusalém ocupada?

De fato, a batalha pelos direitos palestinos em Jerusalém é uma luta diária, conduzida nas ruas e vielas na cidade cativa. Os palestinos da cidade ocupada são agredidos em cada aspecto de sua existência pelas restrições israelenses, que tornam quase impossível uma vida normal, seja na forma como constroem suas casas, trabalham, estudam e viajam, ou mesmo em seus direitos culturais e religiosos. Portanto, seria aterrador se Abbas realmente esperasse que Israel permitiria aos palestinos locais o livre acesso às urnas para exercer seu direito democrático, à medida que as mesmas autoridades trabalham incansavelmente para apagar qualquer vestígio da vida política palestina, e mesmo sua presença física, em Jerusalém.

A verdade é que Abbas cancelou as eleições porque todas as pesquisas confiáveis de opinião demonstraram que o resultado do voto popular teria dizimado seu círculo hegemônico e resultado em uma nova configuração política nacional, na qual rivais internos em seu partido Fatah, sobretudo Marwan Barghouti e Nasser al-Qudwa, ascenderiam como novos líderes. Caso assim acontecesse, uma classe inteiramente nova de milionários palestinos que converteram a luta nacional em uma indústria lucrativa financiada generosamente por “países doadores” estaria sob risco de perder tudo para um futuro político desconhecido, administrado por Barghouti, um prisioneiro palestino, de dentro das cadeias de Israel.

Pior ainda para Abbas, Marwan Barghouti poderia avançar um passo além e tornar-se o novo presidente palestino, conforme esperada sua candidatura nas eleições executivas marcadas para julho. Seria então um prospecto péssimo para Abbas, mas potencialmente favorável aos palestinos, à medida que um governo Barghouti seria decisivo para implementar a união nacional e mobilizar até mesmo a solidariedade internacional. Um presidente palestino aprisionado — porém, democraticamente eleito — seria um verdadeiro desastre de relações públicas para Israel. Além disso, traria um desafio sem precedentes à diplomacia de bastidores instituída pelo atual Secretário de Estado dos Estados Unidos Antony Blinken — isto é, como Washington poderia manter sua retórica de “processo de paz” à medida que o presidente palestino permanece, desde 2002, em confinamento solitário nas cadeias da ocupação?

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Ao efetivamente cancelar todas as eleições palestinas, não apenas o pleito legislativo deste mês, Abbas, seus aliados e apoiadores esperam postergar o momento de acerto de contas dentro do próprio partido Fatah e, de fato, concernente à vida política palestina como um todo. Entretanto, a decisão provavelmente terá repercussões ainda mais graves sobre o Fatah e a política palestina do que se as eleições fossem conduzidas como previsto.

Desde a emissão do decreto eleitoral de Abbas no início do ano, a Comissão Eleitoral Central da Palestina recebeu o registro de 36 listas de candidatos ao pleito. Enquanto partidos socialistas e islâmicos se preparavam para concorrer de forma unificada, o Fatah desintegrou-se. Além da lista oficial, próxima a Abbas, outras duas coligações denominadas “Liberdade” e “Futuro” surgiram para encaminhar candidatos. Diversas pesquisas demonstraram que a coalizão “Liberdade”, liderada por Nasser al-Qudwa, sobrinho do falecido líder palestino Yasser Arafat, e por Fadwa Barghouti, esposa de Marwan, causaria um provável transtorno no establishment político, em direção à queda de Abbas e seu círculo influente, embora diminuto.

Israel recusa-se a realizar eleições palestinas em Jerusalém [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Não obstante, nenhum traço dessa convulsão interna no Fatah deverá desaparecer somente pela negativa de Abbas sobre seu próprio compromisso em restaurar um semblante de democracia na Palestina ocupada. Toda uma nova classe política define-se agora através de alianças com diversos grupos e líderes nacionais. A massa dos apoiadores do Fatah, já dispostos a romper com Abbas, não desistirá apenas pelo recuo de seu líder idoso. De fato, em toda a Palestina ocupada, uma discussão sem precedentes sobre democracia, representação e necessidade de avançar para além do atual presidente e sua política arbitrária e oportunista toma as ruas hoje. É impossível contê-la. Pela primeira vez em muitos e muitos anos, a conversa não é mais confinada à dualidade Hamas versus Fatah, Ramallah versus Gaza, ou qualquer outra arapuca retórica e desmoralizante. Trata-se de um grande passo adiante na direção correta.

Não há nada que Abbas possa dizer ou fazer a essa altura do jogo para restaurar a confiança popular em sua autoridade, seja individual ou institucionalmente. É ainda contestável dizer que, em algum ponto da história, ele de fato angariou tal confiança. Ao cancelar as eleições legislativas e, possivelmente, suas sucessoras imediatas — à presidência e ao Conselho Nacional Palestino (CNP) —, Abbas ultrapassou um limite implícito. Ao fazê-lo, colocou a si mesmo e alguns outros ao seu redor como verdadeiros adversários do povo palestino, seus anseios por democracia e suas esperanças de um futuro melhor.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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