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O Hezbollah e o dilema de negociações com Israel

Apoiadores do Hezbollah no Líbano, 13 de agosto de 2017 [Ali Dia/Agência Anadolu]
Apoiadores do Hezbollah no Líbano, 13 de agosto de 2017 [Ali Dia/Agência Anadolu]

Como um país que não tem relações diplomáticas com Israel, devido à ocupação das terras do povo palestino, pode ainda assim mergulhar em negociações com o estado sionista para demarcar suas próprias fronteiras? Como pode beneficiar-se o Líbano de tais negociações, conduzidas por um governo impotente, do qual herdou uma economia em colapso e uma elite política imoral e corrupta, que sistematicamente pilha o país há décadas? De fato, este governo já não possui mais a confiança da maioria dos cidadãos libaneses e é incapaz de impor sua própria vontade, sobretudo porque as decisões são efetivamente tomadas por uma organização paramilitar – isto é, o Hezbollah – que recebe ordens de um estado estrangeiro e não-árabe.

Após ocupar o sul do Líbano por mais de vinte anos, Israel foi forçado a retirar-se na primavera do ano 2000. A chamada Linha Azul, ao longo da fronteira nominal, foi produzida pela ONU para determinar se uma retirada completa foi instituída ou não. Em julho de 2006, o Hezbollah envolveu-se em uma guerra com Israel, a qual naturalmente comprometeu todo o Líbano, a fim de aliviar a pressão doméstica sobre o movimento e permití-lo preencher o vazio político deixado pelo assassinato do Primeiro-Ministro Rafic Hariri, em 2005, além do vazio militar deixado pela retirada do exército sírio nas regiões centro e norte do território libanês.

Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah, manteve suas tentativas de controlar os processos internos de tomada de decisões mesmo após a Aliança 14 de Março varrer o tabuleiro, nas eleições parlamentares de 2005. Nasrallah ocupou o centro comercial de Beirute até o fim de 2006 e sitiou o palácio do governo por um ano e meio, contudo, incapaz de impor qualquer mudança efetiva na balança de poder. Então, recorreu às armas; em 7 de maio de 2008, invadiu Beirute e foi capaz de enfim impor uma nova realidade em campo. A investida de Nasrallah levou a Aliança 14 de Março a aceitar o acordo de Doha, que garantiu ao Hezbollah maioria de um terço no número de ministros – isto é, um terço mais um –, de modo que o líder do grupo libanês seria agora capaz de dissolver o governo sempre que quisesse.

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Tensões na fronteira entre Israel e Líbano [Carlos Latuff/Monitor do Oriente Médio]

Tensões na fronteira entre Israel e Líbano [Carlos Latuff/Monitor do Oriente Médio]

Entretanto, em 2009, o movimento foi de fato incapaz de angariar maioria parlamentar, pela segunda vez consecutiva e, consequentemente, a atmosfera permaneceu tensa sob pressão de Estados Unidos e Israel. Desta forma, o presidente do parlamento e líder do Movimento Amal, Nabih Berri, decidiu em 2010 – com aprovação do Hezbollah, é claro – abordar o arquivo de demarcação de fronteiras marítimas, ao acordar uma série de concessões com Washington, que exercia pressão constante a favor do vizinho sionista. Demarcação, porém, significava na prática o reconhecimento das fronteiras e da própria existência legítima do estado da ocupação. Contatos e negociações intermitentes e indiretos ocorreram durante e além do mandato do Presidente dos Estados Unidos Barack Obama, com base em desenvolvimentos internos e regionais. Nos últimos cinco anos, não obstante, incluíram um papel cada vez maior do Irã, em particular, no Iraque e na Síria, após a assinatura do Plano de Ação Conjunta, ou acordo nuclear, com Teerã. A questão da demarcação de fronteiras continuou como trunfo na manga de ambos os partidos xiitas – Hezbollah e Amal –, ao invés de favorecer de algum modo o estado com um todo. Sem alternativas, contudo, foi descartada.

Com Donald Trump na Casa Branca, os Estados Unidos intensificaram sua pressão ao Líbano, particularmente após o Hezbollah conseguir impor Michel Aoun como Presidente da República, uma semana antes da posse de Trump, o que tornou o chefe de estado libanês um alvo preferencial à nova gestão americana. Os Estados Unidos declararam que seu principal objetivo na região não era depor o Presidente da Síria Bashar al-Assad, mas sim subjugar o Irã e impedir suas milícias de expandir-se ao mundo árabe – com ênfase no Hezbollah. Trump revogou unilateralmente o acordo nuclear, apertou o bloqueio econômico sobre o Irã e impôs sanções ao movimento libanês.

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O Líbano é uma longa história de desastre e crise - Charge [Sabaaneh / Monitor do Oriente Mèdio]

O Líbano é uma longa história de desastre e crise – Charge [Sabaaneh / Monitor do Oriente Mèdio]

Dois bancos libaneses foram dissolvidos após serem acusados de financiar e conceder instalações bancárias ao Hezbollah. Diversos empresários libaneses, que financiaram ou tiveram relações com o grupo, foram indiciados e presos em todo o mundo. Qassem Taj al-Din, por exemplo, foi preso no Marrocos há três anos e transferido aos Estados Unidos. Em julho último, foi libertado.

Enquanto isso, Berri decidiu agir sobre as negociações de demarcação de fronteiras, ao conduzir reuniões com uma série de representantes americanos. Os encontros supostamente pretendiam debater a situação doméstica no Líbano, incluindo economia e sucessivas crises no governo. Seu foco, no entanto, era decidir como e quando sentar-se à mesa de negociações com Israel, a fim de atenuar as pressões sobre o Hezbollah. Neste meio tempo, Berri preferiu também mobilizar forças internas e acusar adversários de corrupção, a fim de defender-se de qualquer crítica ou agressão sobre a questão das fronteiras.

Manifestantes exibem um boneco do presidente americano Donald Trump e uma imagem do comandante iraniano Qasem Soleimani, durante protesto em frente ao Consulado dos Estados Unidos em Istambul, Turquia, 5 de janeiro de 2020 [Yasin Akgul/AFP/Getty Images]

Manifestantes exibem um boneco do presidente americano Donald Trump e uma imagem do comandante iraniano Qasem Soleimani, durante protesto em frente ao Consulado dos Estados Unidos em Istambul, Turquia, 5 de janeiro de 2020 [Yasin Akgul/AFP/Getty Images]

As sanções de Washington contra os líderes do Hezbollah, incluindo o próprio Nasrallah, pretendiam impor pressão ao Líbano como um todo. Então, ocorreu o assassinato do major-general Qasem Soleimani, comandante das Forças al-Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã, em solo iraquiano. O incidente permitiu a Berri anunciar que um acordo fora alcançado com os Estados Unidos sobre um mecanismo de negociação. O trunfo das negociações entre Líbano e Israel supostamente deveria permanecer nas mãos de Teerã – via Hezbollah e Amal – até a hora certa de sentar-se com Washington. Entretanto, as decisões de Trump efetivamente limitaram o espaço de manobra às partes libanesas, à medida que Teerã temia uma reeleição do presidente americano.

Em 14 de outubro, o Parlamento do Líbano estabeleceu um quadro de prerrogativas para as negociações com Israel, sob auspício da ONU e com participação dos Estados Unidos, apenas três semanas antes da notória vitória eleitoral de Joe Biden, adversário de Trump. Os movimentos xiitas Hezbollah e Amal tiveram então de dar algumas explicações, para justificar suas decisões prévias, ao menos pelo fato de que as negociações sobre a fronteira libanesa recaem à função do Presidente da República, e não do Parlamento.

O fato do Presidente Aoun ter preparado uma equipe de negociação sob orientação de Washington criou maiores problemas ao Hezbollah e Amal, além de uma crise em sua própria equipe de governo. O chefe do movimento aounista e genro do presidente, Gebran Bassil, queria tranquilizar Washington e Tel Aviv e preservar suas ambições presidenciais, em 2022.

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Berri foi forçado a recuar; Aoun teve de compor uma delegação para salvar a imagem entre os fiéis aliados. O mais grave paradoxo, contudo, reside no fato do Hezbollah e Amal terem se esforçado tanto para convencer os libaneses, incluindo seus próprios seguidores, de que conduzir negociações com Israel é meramente um processo geográfico para demarcar fronteiras, absolutamente apartado de qualquer reconhecimento ou de intenções de normalizar laços com o estado sionista.

Sobretudo, Nasrallah insiste em enfatizar que trata-se de um processo indireto de negociações, apesar do jantar amistoso entre ambas as delegações – Israel e Líbano –, sentadas cara a cara, após o fim da segunda rodada de conversas, sob convite da ONU. O Hezbollah descobriu a si mesmo em uma situação desesperadora e bastante atribulada, sob a necessidade de convencer seus seguidores de que substituir a palavra “Israel” pelo termo “entidade inimiga” torna as negociações de algum modo aceitáveis, sobretudo àqueles que sempre se opuseram ao vizinho instalado ao sul do território libanês.

Traduzido da rede Al-Araby Al-Jadeed, 16 de novembro de 2020

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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