“A geografia da Palestina é uma, do rio ao mar. O exército colonizador trabalha de diferentes maneiras para criar uma realidade fragmentada para os palestinos”, escreve Rana Barakat no prefácio de seu livro Retorno contínuo: Mapeando a memória e as histórias da Palestina (em tradução livre; University of North Carolina Press, 2026). Nos fragmentos que o colonialismo sionista impôs à Palestina, retorno é inseparável da continuidade da Nakba, com suas raízes em 1948.
Barakat observa que desvendar histórias é essencial para o retorno à terra. O livro centra-se nas histórias de Lifta, especialmente aquelas relacionadas à avó da autora, ‘Arifa. “Caminhar pelas histórias é o processo – através de paisagens, através do tempo e com as pessoas, enquanto continuamos a retornar a Lifta e à Palestina”, escreve Barakat. Ela contrasta mapas de memórias com a cartografia real, ao notar que as histórias e as lembranças não se vinculam, necessariamente, à hegemonia do colonizador, prevalente em muitas das narrativas sobre a Palestina. Não há nada linear na memória, nem no retorno. A autora observa que três gerações de mulheres – a avó nascida em Lifta, a mãe nascida na Cidade Velha de Jerusalém e a própria autora nascida em Chicago – carregam histórias que incorporam tanto uma ruptura quanto um retorno contínuos.
A centralidade da terra nas histórias é prevalente entre os povos indígenas. Barakat explica como a narrativa de histórias se torna central quando as comunidades originárias da terra enfrentam a apropriação e exploração colonial.
De um lado, há colonialismo, deslocamento e exploração. De outro, a cultura nativa enraizada no cuidado com a terra. Mantendo-se fiel às narrativas autóctones, o livro de Barakat explora como a Palestina existe em trajetórias paralelas. Uma é dominada pela narrativa do colonizador que informa as percepções globais. A outra, muito menos comentada, é a Palestina que os palestinos vivenciaram, conheceram ou aprenderam por meio da história oral. Barakat aponta tamanha discrepância por meio de mapas. Se a cartografia reflete o imperialismo e colonialismo, os mapas afetivos da Palestina histórica, seguem vivos para os nativos, seja em sua terra, seja na diáspora, muito embora “não apenas apagados dos mapas coloniais e dos arquivos do colonizador, mas que sequer nunca existiram dentro dessas estruturas”.
Percorrer a Palestina, portanto, navega pelo colonialismo de assentamento enquanto se recusa a se confinar por ele. No entanto, as histórias dos palestinos, neste caso a de ‘Arifa, também são vítimas das estruturas coloniais, incluindo mapas e arquivos. Ao longo do livro, Barakat questiona como os palestinos podem apresentar e articular suas narrativas sem se confinar às estruturas de colonização – tendo estas influenciado como os palestinos pensam e se relacionam com a terra em termos de pertencimento.
A Nakba é imperativa para a discussão e Barakat começa com uma compreensão da trajetória da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de movimento de libertação ao declínio gradual, à medida que abraçou a suposta diplomacia e negociação com os colonizadores. Da recusar em aceitar a derrota em 1967 a tornar-se o epítome da derrota nos anos 1990, Barakat escreve como a terra, no processo diplomático, se fragmentou em territórios negociados.
Ao discutir Lifta, Barakat observa que, como a “única vila árabe abandonada em Israel que não foi destruída nem repovoada desde 1948”, a narrativa do colonizador ainda permanece proeminente. Na preservação, a destruição ainda é distinta, e o desaparecimento dos palestinos continua central para seus esforços. A preservação, argumenta Barakat, não obstante, “serve ainda aos interesses do colonizador; a restauração serve aos interesses indígenas”.
O problema do patrimônio também reside em seus construtos imperialistas, como ilustra a autora ao discutir a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e a inclusão da Palestina em suas fileiras. Salvar Lifta, por exemplo, é construído em torno do conceito de patrimônio mundial. Entretanto, o patrimônio palestino também faz parte da resistência e resiliência de seu povo. A reescrita ou reformulação do patrimônio palestino por entidades internacionais “espelha, portanto, a política do Estado israelense como Estado colonizador, bem como da Autoridade Palestina como entidade governante presa dentro dessa matriz colonial”.
À medida que o livro avança para uma discussão sobre história oral, Barakat situa Lifta como um dos muitos “locais de retorno contínuo”, ao refutar um suposto excepcionalismo. O retorno, argumenta, precisaria ir além da preservação e, como conceito contínuo, deve ser vinculado a outros locais de luta contra o colonialismo de assentamento. O retorno, também, tem de lidar com as limitações impostas aos palestinos pelas estruturas coloniais – visitar Lifta, por exemplo, não implica continuidade. Como os palestinos que visitam seu lar lidam com o retorno em um espaço restrito pelo tempo e por estruturas coloniais?
Barakat reconhece as limitações: “Dado que a despossessão histórica também resultou na falta de acesso à terra, visitar pode ser uma oportunidade, ainda que com graves barreiras. Como tal, as linhas entre o pessoal, o intelectual e o político se confundem na turbulência emocional de buscar qualquer tipo de conexão física com uma terra, que há muito lhes foi negada.”
Em termos de história oral, Barakat sugere ainda que as estruturas coloniais encarceram a memória. Ao conectar-se com sua própria história familiar, a autora caminha pela memória, seguindo a história de Lifta, a começar com os relatos de sua avó: “É desta forma que aprendemos a ir além, sem ficar confinados pelo espaços e pelo tempo do colonizador”. Ter acesso a essas narrativas, ressalta Barakat, é uma questão sensível, dada a Nakba como uma ruptura ininterrupta.
O livro culmina em uma exploração da memória e da história oral, à medida que Barakat compila relatos de outras pessoas de Lifta, incluindo os de sua própria mãe. Geografia e indivíduos se entrelaçam, ao passo que os palestinos falam não apenas de sua conexão com suas aldeias, mas também do que simbolizam em termos da história do país. Conforme as narrativas mudam do íntimo à história da Nakba, e como ela começou, as memórias individuais gradualmente se fundem no coletivo, ainda que preservando a voz de cada sobrevivente.
A pesquisa de Barakat é multifacetada e leituras complementares do livro, ou de partes dele, certamente aumentarão tanto a compreensão das muitas das nuances e contradições inerentes à preservação da história oral palestina. “Recuso-me a escrever um final para uma história que não terminou”, diz a frase derradeira no livro, refletindo a ruptura contínua, bem como um senso contínuo de retorno e rememoração.








