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Guerra na Ucrânia: o fim do diálogo e o início da tragédia

Biden e Putin: só a negociação poderá dar fim à guerra na Ucrânia [Montagem Jornalistas Livres]

Em 2001, o presidente dos Estados Unidos George W. Bush e o presidente russo Vladimir Putin se encontraram duas vezes, uma na Cúpula da Eslovênia, em junho e novamente no rancho do presidente americano no Texas em novembro. Entre os dois encontros, o 11 de setembro, acontecimento que chacoalhou os EUA, não mudou os rumos da relação pragmática e responsável Washington-Moscou. Nos encontros, os americanos buscavam negociar a entrada dos países bálticos na OTAN, além de buscar um acordo sobre o projeto de escudo de mísseis prometido por Bush. Na época, a posição de Moscou foi favorável à expansão da aliança, provavelmente barganhando o cancelamento do projeto do escudo e a não interferência dos EUA no conflito que se desenrolava na Chechênia.

Se naquele momento os termos eram outros, a grande história internacional sendo contada é a mesma de hoje. Então, como agora, assistíamos a expansão da OTAN para o leste, em direção à fronteira russa. A grande diferença é que, diferentemente da crise atual, então havia diálogo e responsabilidade entre as duas potências.

Em dezembro de 2021, quando Moscou já concentrava tropas nas fronteiras com a Ucrânia, o sentido da movimentação militar ainda era a busca por negociação. Putin queria melhorar sua mão para sentar-se com Biden. Posteriormente tornaram-se públicas as exigências russas, muito ousadas, uma pedida alta para fechar negócio por menos. Entre as exigências estava a central, a garantia de que a Ucrânia não se juntaria à aliança militar. As conversas entre Rússia e EUA em dezembro foram mais em tom de avisos e ameaças do que em direção a uma negociação. A tensão conduziu para um encontro frio e sem resultados em Genebra, em janeiro passado. Desde então, as duas partes substituíram o diálogo por acusações e ação armada, uma tragédia de alcance global, mas particularmente trágica para o povo ucraniano.

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Assessores de Biden eram contra o encontro de janeiro, temendo que Biden parecesse amigável a Putin da mesma forma que Trump. Aí está uma das origens da crise atual. A escalada retórica dos democratas contra Putin foi uma peça eleitoral, voltada à tentativa de derrotar o republicano. Ela começou na crise das denúncias de interferência russa nas eleições de 2016 e culminou com o encontro entre Putin e Trump em 2018, quando o então presidente americano disse que confiava na palavra do russo sobre os relatórios da inteligência americana. Isso abriu uma brecha para que os opositores de Trump colassem sua imagem ao líder russo. A partir daí, Biden não foi mais capaz de desacelerar o sentimento anti-Rússia dentro do partido democrata sem trair o discurso que o levou à Casa Branca.

A crise atual não se resolverá sem diálogo e negociação entre as potências, os dois protagonistas do conflito. Bush, Obama e Trump, os demais presidentes que conviveram com o mandatário russo deveriam servir de parâmetro. Muito diferentes, cada um com o histórico de erros e violações em suas políticas externas, mas cautelosos em sua relação com Moscou. O histórico demonstra que Putin é aberto ao diálogo, e sempre optou por perseguir seus objetivos de forma negociada. Também já havia demonstrado que a guerra está na sua caixa de ferramentas, como é comum no caso de grandes potências, como os próprios EUA. Se foi a Rússia que iniciou a guerra, foi a irresponsabilidade de Biden que conduziu suas ações até aqui, e que agora impedem seu encerramento. A guerra é um duelo e um diálogo. Num dos lados estão as demandas da Rússia, por outro lado, a chave para abrir a porta para a paz não está apenas na mão da Ucrânia, mas também de seu sócio majoritário neste conflito.

Publicado originalmente em Jornalistas Livres

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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