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Escalada na fronteira entre Polônia e Belarus envolve OTAN e Rússia

Soldados poloneses por trás do arame farpado, na fronteira com Belarus, em meio à chegada de refugiados do lado bielorrusso, na região de Grodno, 10 de novembro de 2021 [RAMIL NASIBULIN/BELTA/AFP via Getty Images]
Soldados poloneses por trás do arame farpado, na fronteira com Belarus, em meio à chegada de refugiados do lado bielorrusso, na região de Grodno, 10 de novembro de 2021 [RAMIL NASIBULIN/BELTA/AFP via Getty Images]

Nesta quarta-feira (10), a União Europeia acusou Belarus de conduzir uma “guerra híbrida” ao empurrar refugiados à fronteira com a Polônia e ameaçou instituir novas sanções contra a ditadura de Alexander Lukashenko, instalada em Minsk.

A crise aproxima-se da Rússia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Moscou tomou a rara medida de despachar dois bombardeiros com capacidade nuclear para patrulhar o espaço aéreo bielorrusso, em demonstração de apoio ao regime aliado.

Durante reunião a portas fechadas, Varsóvia informou seus colegas da OTAN sobre a matéria e recebeu em troca promessas favoráveis, segundo um representante do bloco.

Refugiados do Oriente Médio, Afeganistão e África, presos no lado bielorrusso da fronteira, tentaram realizar diversas travessias durante a madrugada. O governo polonês alegou reforçar seu contingente de segurança na linha de fronteira.

Michelle Bachelet, chefe de direitos humanos das Nações Unidas, exortou os estados em questão a desescalar e solucionar a crise, ao descrevê-la como “intolerável”.

“Centenas de homens, mulheres e crianças não devem ser forçadas a passar outra noite sob o clima congelante, sem abrigo, comida, água ou cuidados médicos”, destacou Bachelet.

A União Europeia, responsável por diversas sanções de direitos humanos contra Lukashenko, acusa Minsk de atrair refugiados de nações assoladas por conflito e miséria, para então coagi-los a avançar à Polônia, com intuito de desestabilizar o flanco oriental.

“Enfrentamos um brutal ataque híbrido contra nossas fronteiras”, declarou Charles Michel, presidente do conselho executivo da União Europeia. “Belarus decidiu transformar em arma o sofrimento dos refugiados, de forma cínica e aterradora”.

Os 27 embaixadores do bloco concordaram que tais medidas constituem base legal para novas sanções, que podem entrar em vigor na próxima semana, contra 30 indivíduos e entidades, incluindo o chanceler bielorrusso e a companhia nacional de tráfego aéreo.

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“Muito rapidamente, no início da próxima semana, haverá maiores sanções contra Belarus”, confirmou à imprensa Ursula von der Leyen, chefe da Comissão Europeia, após reunir-se com o Presidente dos Estados Unidos Joe Biden, em Washington.

“Analisaremos a possibilidade de sancionar companhias aéreas que facilitem o tráfego humano em direção a Minsk e então à fronteira com a União Europeia”, acrescentou.

O presidente bielorruso, Alexander Lukashenko, e seu proeminente aliado russo, Vladimir Putin, não obstante, transferiram a culpa ao bloco europeu.

O Kremlin acusa a Europa de falhar com seus próprios ideais humanitários e tentar “estrangular” Belarus para interditar parte da fronteira. Putin e seus representantes insistem que novas sanções contra Minsk são inaceitáveis.

Ponto de pressão

A crise atinge a Europa em uma área vulnerável

Em 2015, o bloco europeu foi profundamente abalado pela chegada de mais de um milhão de refugiados da Síria, Iraque e Afeganistão, que levou a fortes divergências entre estados-membros, além de pressão social e ascensão de partidos da extrema-direita.

Dessa vez, a União Europeia parece mais unida, mas há sinais de atrito: alguns em Bruxelas já advertiram a Polônia que não deve recorrer a recursos do bloco para construir muros na fronteira; outros argumentam em favor da defesa do perímetro.

Ainda na quarta-feira, Michel precaveu a Europa sobre a necessidade de decidir-se finalmente.

Comparado a seis anos atrás, a crise em curso possui uma dimensão geopolítica adicional, pois transcorre agora na divisa entre OTAN-Ocidente e Rússia-Oriente.

Os bombardeiros Tupolev Tu-22M3 enviados pela Rússia para sobrevoar Belarus são capazes de carregar armas atômicas e equipamentos hipersônicos, projetados para desviar de sistemas sofisticados de defesa aérea das potências ocidentais.

O chanceler russo Sergei Lavrov afirmou ter esperanças de que governantes responsáveis da Europa “não permitam atrair-se a uma espiral por demais perigosa”.

Ao comentar um telefonema com Vladimir Putin, a governante alemã Angela Merkel, observou que os refugiados são utilizados como “vítimas de uma política desumana”.

Por sua parte, Moscou empurrou Berlim a contactar diretamente Lukashenko.

Famílias afetadas

Milhares de pessoas se aglomeraram na fronteira, nesta semana, onde soldados poloneses vigiam cercas improvisadas com arame farpado. Alguns refugiados tentaram atravessá-la com a ajuda de troncos de árvore, pás e outros utensílios.

“Não foi uma noite calma”, reiterou o Ministro da Defesa da Polônia Mariusz Blaszczak à imprensa local. “Houve muitas tentativas de violar a fronteira”.

Vídeos obtidos pela Reuters mostram crianças e bebês entre os refugiados.

“Há inúmeras famílias com bebês entre dois e quatro meses de idade”, afirmou o autor dos registros, em condição de anonimato. “Ninguém comeu nada nos últimos três dias”.

Os requerentes de asilo queixam-se de serem empurrados de um lado ao outro por guardas poloneses e bielorrussos, sob risco iminente de fome, sede e hipotermia.

Youssef Atallah, refugiado sírio, expressou medo de morrer no bosque de fronteira, após ter seu nariz quebrado por um soldado de Belarus. Nesta quarta-feira, chegou enfim a um centro de refugiados na Polônia, após dias impedido de viajar em qualquer direção.

“Dissemos aos guardas bielorrussos que queríamos voltar para Minsk, que não queríamos continuar a viagem”, relatou Atallah. “Eles disseram: não tem volta a você; vá para a Polônia!”

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