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Startups israelenses de cibersegurança e seu cartão de visita: as forças de ocupação

Brasil tornou-se destino preferencial dos negocios israelenses de cybersegurança [Ilustração/ xyzies.com]

Não é de hoje que o Brasil tem lamentavelmente se tornado o paraíso das startups israelenses, sobretudo do setor de cibersegurança, que trazem suas tecnologias desenvolvidas sobre os corpos palestinos. Favorecidas por memorando de entendimento na área assinado por Bolsonaro quando de sua visita ao seu aliado sionista em 31 de março de 2019, têm enxergado no Brasil um destino preferencial para seu lucrativo negócio.

Esta semana uma delas, a Cy Source, resolveu apresentar uma novidade: uma plataforma de cursos em língua portuguesa para capacitação na área de segurança e defesa da informação abertos ao público em geral, a “preços acessíveis”.

O fundador e CEO, Amir Bar-EI, atuou na liderança de unidades de inteligência do Mossad, serviço secreto israelense. Em sua apresentação no site da empresa, consta que é especialista em “cibersegurança ofensiva”, com mais de dez anos de experiência e passagem pela israelense NSO – a qual desenvolveu o software Pegasus, que ocupou manchetes após vir à tona escândalo de espionagem em 50 países com sua utilização. A denúncia é de que milhares de ativistas de direitos humanos, grupos de oposição e jornalistas tiveram seus aparelhos celulares invadidos e dados enviados a governos. Além dele, a equipe é formada por outros veteranos da inteligência militar sionista.

Como propaganda, segundo divulgado no portal Baguete, a Cy Source apresenta a aposta na tecnologia “que tem como base a experiência do exército israelense”. Um dos seus clientes é nada menos que o próprio gabinete do primeiro-ministro Naftali Bennett. Seu serviço de inteligência culminou no assassinato nos últimos dias, em apenas 48 horas, seis palestinos.

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Estes são os testes em campo. As tecnologias de ponta ao monitoramento, controle e vigilância sob regime institucionalizado de apartheid, como não poderia ser diferente em face de um projeto colonial, cumprem seu papel à violação de direitos humanos fundamentais, às contínuas usurpação de terras e limpeza étnica.

Mas o sangue derramado cotidianamente está longe das manchetes dos meios de comunicação de massa brasileiros. Em seu lugar, aparece o marketing frequentemente usado por tais startups: a expertise alcançada junto às forças de ocupação.

“O domínio de Israel no campo da segurança cibernética não ocorreu no vácuo. As divisões de inteligência e operações secretas do país, especialmente sua força de segurança do Mossad, há muito têm uma reputação de se envolver em espionagem astuta, ousada e implacável, polida por representações de Hollywood”, escreveu Hadas Gold, do CNN Business.

Big Brother em Jerusalém

À expansão colonial em Jerusalém, está instalado o Mabat 2000, um circuito fechado de câmeras que giram 360 graus, que inclui softwares de reconhecimento facial e mapeamento do perfil completo das pessoas que circulam pelas suas ruas. Através desse controle e vigilância, Israel busca impedir qualquer forma de resistência legítima à limpeza étnica contínua e avançar na anexação de terras. Nesse sentido, têm usado informações pessoais para mapear aqueles que poderiam ampliar a rede de colaboradores, ao que tem adotado inclusive extorsão, constrangimento e chantagem de palestinos.

Como disse um morador palestino de Jerusalém, “a Cidade Velha, as ruas e becos costumavam ser nossos espaços sociais coletivos, nossas salas de estar. Agora, não são apenas nossas salas de estar vigiadas, mas eles podem até ver por baixo de nossas roupas. Nossa privacidade e liberdade são sistematicamente violados ”. Os relatos constam de relatório elaborado pela organização palestina de direitos humanos Al Haq, intitulado “A indústria de vigilância e os direitos humanos: o mercado de Israel de ocupação da Palestina”.

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Datado de 13 de fevereiro de 2019 e feito em parceria com o Conselho Social e Econômico das Nações Unidas, este destaca “que as empresas israelenses e internacionais facilitam esse abrangente sistema de vigilância, que é apresentado como parte dos programas de treinamento de Israel da polícia e outras forças de segurança em todo o mundo”.

Mercado lucrativo

Israel converteu as tecnologias de informação em nicho de mercado depois dos desastrosos acordos de Oslo assinados em 1993 com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), processo que ganhou força ao início do século XXI, segundo escreve a jornalista Naomi Klein em “A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre”: “Jovens soldados israelenses, que ganharam experiência em sistemas de rede e equipamentos de vigilância enquanto cumpriam serviço militar obrigatório, transformaram suas descobertas em planos de empreendimento, quando voltaram à vida civil.”

O resultado é que, como atesta a Al-Haq, “ao lado das armas, Israel tem se estabelecido como um líder na indústria de vigilância e cibersegurança”, cujas exportações somaram US$ 6,5 bilhões somente em 2016”.

Em um mundo cada vez mais conectado, negócio lucrativo a sustentar o apartheid. Amparadas por expertise que falsamente é apresentada como construída à “defesa de Israel”, as startups da área de cibersegurança encobrem que na verdade seu know how é construído sobre muita dor, sangue e lágrimas.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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