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Chega de barbárie do Estado racista, na Palestina e no Brasil

Forças israelenses prendem um manifestante palestino em frente ao Portão de Damasco, na Cidade Velha de Jerusalém ocupada, 29 de abril de 2021 [Ahmad Gharabli/AFP via Getty Images]

Em meio a violações de direitos e detenção de mais de 40 moradores durante mais de 24h de operação policial nas favelas do Parque União e Nova Holanda, no conjunto da Maré, zona norte do Rio de Janeiro, a Articulação Internacional Julho Negro e suas organizações fizeram a denúncia e expressaram um sentimento comum entre os palestinos. O de abandono, com silêncio quanto ao que ocorria de fato nos dias 17 e 18 de julho, ante poucas organizações e movimentos se posicionando contra a violência. E questionaram: “Iremos esperar acontecer uma chacina para nos movimentar?” É o que se perguntam também os que enfrentam a ocupação sionista: “Vamos esperar outro massacre massivo em Gaza?”

Enquanto casas eram arrombadas, a população vivenciava tiroteio e era obrigada a ver caveirões pelas ruas sem parar, além de helicópteros que sobrevoavam as favelas no Rio de Janeiro, do outro lado do mundo, na Palestina ocupada, mais de 1.300 colonos racistas invadiam mais uma vez a Mesquita de Al-Aqsa, amparados pelos militares sionistas, agredindo violentamente e prendendo palestinos em seu local de oração.

A limpeza étnica e expansão colonial concentradas em Jerusalém seguem, agora sem os holofotes da mídia hegemônica, distanciadas da vista de muitos que se indignaram contra esse processo e o massacre que durou 11 dias em Gaza no mês de maio. Na estreita faixa, em que cerca de 250 pessoas foram assassinadas no período em função dos bombardeios israelenses, incluindo mais de 60 crianças, as quase 1.500 famílias que tiveram suas casas destruídas e outras 13 mil que tiveram as estruturas domiciliares seriamente danificadas ainda não conseguiram reconstruí-las. O bloqueio sionista desumano que já dura 14 anos impede até mesmo a chegada de material de construção. Além do trauma, muitos moradores perambulam pelas ruas, e a miséria aumenta. A crise humanitária é dramática. E os palestinos convivem com essa situação sem saber quando o próximo drone vai jogar bombas mais uma vez sobre suas cabeças.

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Guardadas as diferenças, essa insegurança é sentida nas favelas do Rio de Janeiro. Não se sabe quando será a próxima operação policial ou mesmo chacina, como ocorreu também no mês de maio último na comunidade de Jacarezinho, no mesmo Estado, em que foram assassinadas 29 pessoas e inúmeras ficaram feridas, numa operação que durou também 24h e foi a mais letal da história da cidade fluminense. O mesmo modus operandi da operação que se deu na Maré nos dias 17 e 18. Casas invadidas e toda sorte de abusos contra moradores.

Isso tudo acontece, como denuncia a Articulação Internacional do Julho Negro e suas organizações, “como uma afronta e total descumprimento da medida cautelar que suspende as operações policiais no contexto da Covid-19 expedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”. Assim como ocorre aqui em relação à medida legal, afronta ao mínimo direito internacional é velha conhecida também dos palestinos. O “nós por nós”, que ecoa das comunidades fluminenses, é a realidade percebida ainda pelos que resistem à ocupação.

A solidariedade internacional efetiva e permanente é urgente. Além de denunciar e se mobilizar, urge levantar a bandeira do BDS (boicote, desinvestimento e sanções) a Israel e seu regime institucionalizado de apartheid.

Mesmas armas

Somar-se a esse movimento chamado pelos palestinos é também lutar contra o racismo e a militarização aqui. Afinal, as tecnologias testadas sobre as cobaias palestinas estão nas mãos dessas polícias que promovem o genocídio do povo pobre e negro nas favelas brasileiras. Caveirões israelenses, comprados pelo governo estadual, circulam por essas comunidades, levando a morte e repressão constantemente. São também as mesmas técnicas e treinamentos. E a exportação da morte sustenta a ocupação sionista nesse ciclo perverso.

O Julho Negro, articulação internacional de luta contra o racismo, a militarização e o apartheid, organizado pelos movimentos de favelas e de mães e familiares de vítimas do Estado, tem apontado essa cumplicidade para o derramamento de sangue palestino por Israel e negro, pobre e indígena pelo Estado brasileiro. Em sua sexta edição, que se realiza virtualmente em função da pandemia entre 26 de 31 de julho, mais uma vez trará essa denúncia e o chamado por solidariedade efetiva. No primeiro dia, às 19h, o tema “Guerra pra Quem?”, com lançamento do vídeo da Rio on Watch com David Amen, conectará essas lutas (confira a programação aqui).

Em artigo intitulado “O que há em comum entre as favelas do Jacarezinho, da Maré e a Palestina?”, escrito para o blog Terra em Transe, Gizele Martins, comunicadora comunitária e integrante do movimento de favelas do Rio, aponta que são muitas as semelhanças entre as realidades que serão abordadas no dia 26. Ela, que participará da atividade, relata no texto: “No dia 15 de maio, logo pela manhã, deparei-me com uma postagem compartilhada no Facebook de um palestino: era a imagem de uma criança palestina morta por causa dos bombardeios israelenses em Gaza. A criança segurava uma moedinha na mão. Logo lembrei de um caso que ocorreu em 2008, no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, quando o menino Matheus Rodrigues, de apenas oito anos, ao sair de casa para comprar pão, levou um tiro da Polícia Militar e morreu na porta de sua casa. Ele também segurava em uma de suas mãos uma moedinha de um real.”

Charge Carlos Latuff

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Gizele continua: “Nesse dia, na Maré, lembro que para reprimir a população que protestava contra o assassinato, a mesma polícia que matou Matheus voltou ao local com o carro blindado para afastar os manifestantes. São infâncias perdidas dentro de dois territórios que sobrevivem ao massacre cotidiano ocasionados pelo racismo, pela militarização e o apartheid.” E enfatiza: “Lutemos contra as políticas militares e das mortes, lutemos juntos, da Palestina às favelas do Rio, pelo direito à vida! É pela vida!”

Ouvir as vozes que resistem e se recusam a silenciar diante da barbárie e unir a luta dos oprimidos e explorados é condição sine qua non para que todos e todas sejamos livres. Parte dessa luta é se mobilizar para botar para fora o genocida e corrupto Bolsonaro, aliado de primeira ordem do sionismo que mata na Palestina e lucra com a morte nas favelas brasileiras, no próximo dia 24 de julho. As bandeiras contra o racismo, a militarização nas favelas, o apartheid e a ocupação israelense certamente marcarão presença.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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