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‘Morte aos judeus’ seria um escândalo internacional, mas Israel tem passe livre

Jovem palestino é detido por forças israelenses durante protesto contra manifestações racistas e islamofóbicas durante a chamada Marcha da Bandeira, organizada por extremistas coloniais judeus, no Portão de Damasco, Jerusalém ocupada, 17 de junho de 2021 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

Peço que me acompanhe nesta reflexão por alguns minutos.

Imagine que a polícia britânica permitisse a marcha de uma multidão de milhares de pessoas por áreas de grande população judaica em Londres entoando palavras de ordem como “Morte aos judeus” e outras obscenidades discriminatórias.

Imagine que um grupo de racistas caminhasse por bairros como Golders Green ou Stamford Hill aos gritos de “Que seu shtetl [aldeia] queimem”, sob ameaças reiteradas de impor um “segundo Holocausto” no futuro próximo.

Imagine que a polícia, longe de impedir tal evento hediondo, de fato marchasse ao lado dos racistas, ao escoltá-los em seu avanço. Imagine forças do governo atacando não os racistas, mas sim um pequeno grupo de manifestantes por direitos humanos e civis que tentassem objetar a incitação antissemita em curso. Imagine ainda que a polícia de fato agredisse os manifestantes contrários e destruísse suas bandeiras e cartazes.

Então, imagine agora que políticos de alto escalão do Reino Unido ou qualquer outro país enaltecessem a atitude policial e a manifestação racista em vigor, ao insistir de forma grotesca que um ato marcado por “Morte aos judeus” efetivamente passou pelo aval do governo, ao ponto de aplaudir a “excelente” gestão do evento.

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Imagine que um notório político da oposição estivesse presente na manifestação, pouco depois de surgir na imprensa elogiando a chacina contra a sinagoga de Pittsburgh em 2018, por exemplo, na qual onze judeus foram mortos em seu lugar de culto.

Imagine que este mesmo político não sofresse qualquer consequência negativa por demonstrar publicamente seu racismo antissemita de caráter genocida. Pelo contrário, imagine que seu discurso de ódio somente angariasse mais e mais votos; que seu partido obtivesse mais parlamentares, cada vez mais perto de participar do governo nas eleições subsequentes.

Imagine enfim que tamanho absurdo ocorresse não apenas uma vez, mas ano após ano.

Evidentemente, trata-se de um cenário impossível — isto é, em Londres, Paris, Berlim e Nova York. Contudo, não em Israel.

Com alguns ajustes, a mesma cena aterradora ocorreu há poucos dias em Jerusalém, cidade ocupada que Israel alega ser sua capital. Com uma diferença crucial: a turba flagrantemente racista conclamava “Morte aos árabes” e não “Morte aos judeus”; ao contrário, tratava-se justamente de colonos judeus.

Tudo isso só pôde acontecer porque Israel é um estado de natureza racista. Uma entidade colonial ilegal cuja instauração parte do pressuposto de expulsão violenta e expropriação sectária do povo nativo das terras da Palestina.

Um dos aspectos menos comentados do recente festival de racismo israelense em Jerusalém ocupada, encorajado pela polícia e governo israelense, é a pouca idade de muitos dos manifestantes. Vídeos mostram adolescentes e mesmo crianças entoando “Morte aos árabes”, enquanto invadiam furiosos Jerusalém Oriental — onde vive a maioria dos palestinos.

O político que juntou-se à multidão foi Itamar Ben-Gvir, líder do partido de extrema-direita Sionismo Religioso. Outro vídeo divulgado neste ano pela televisão israelense registrou Ben-Gvir vestido em homenagem a Baruch Goldstein, colono extremista oriundo de Nova York, que matou 29 palestinos que realizavam suas preces no Túmulo dos Patriarcas (Mesquita Abraâmica) em Hebron, Cisjordânia ocupada, em 1994.

Tamanho ato terrorista foi na prática recompensado pelo então governo trabalhista de Israel, que decidiu impor toques de recolher na cidade — não aos violentos grupos coloniais judaicos, mas sim aos nativos palestinos, a maioria local.

Ainda assim — como aludi no cenário acima —, Ben-Gvir não sofreu qualquer dano à sua carreira política e por pouco não tornou-se ministro de uma nova coalizão de governo com o ex-premiê israelense Benjamin Netanyahu.

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Trata-se do futuro de Israel e do futuro do projeto sionista — a pouca idade média dos manifestantes demonstra isso.

Ainda assim, cenas de incitação ao genocídio entre a sociedade israelense enfrentam pouco mais do que um aceno indiferente de políticos ocidentais, maculados por uma evidente hipocrisia. Felizmente, não podemos imaginar o mesmo silêncio se gritos de “Morte aos judeus” tomassem as ruas mundo afora.

Não obstante, o oposto é verdade, dado que apoiadores sionistas ativamente fabricam acusações de antissemitismo para caluniar e assediar ativistas palestinos e seus apoiadores. Como muitos destacam, o receio é maior na cultura política dos Estados Unidos, Canadá e Europa, para que sejam feitos apelos contundentes por liberdade, igualdade e justiça contra os gritos israelenses de “Morte aos árabes”.

“Do rio ao mar, a Palestina será livre” — trata-se de um chamado que precisamente pede por justiça e liberdade a toda a Palestina histórica. Ainda assim, aqueles que usam este respeitável slogan são sistematicamente difamados como “antissemitas”. Mesmo o apoio a uma “Intifada” — isto é, um levante popular da resistência legítima palestina — é descrito como “antissemita” por figuras antipalestinas do Reino Unido e além, como Dave Rich do Community Security Trust, infame lobby sionista no país europeu.

Em suma, é preciso enfrentar tamanha indiferença em uma cultura política imposta por demagogos efetivamente racistas — caso contrário, há pouca esperança de mudança ao povo palestino.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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