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A ‘conturbada ruptura’ de judeus americanos com Israel torna-se ainda mais conturbada

Itamar Ben Gvir (à direita) — chefe do partido de extrema-direita Poder Judeu (Otzma Yehudit) e candidato ao parlamento pela coligação Sionismo Judaico — em campanha eleitoral no mercado de Mahane Yehuda, em Jerusalém, 19 de março de 2021 [Emmanuel Dunand/AFP via Getty Images]
Itamar Ben Gvir (à direita) — chefe do partido de extrema-direita Poder Judeu (Otzma Yehudit) e candidato ao parlamento pela coligação Sionismo Judaico — em campanha eleitoral no mercado de Mahane Yehuda, em Jerusalém, 19 de março de 2021 [Emmanuel Dunand/AFP via Getty Images]

Uma aliança de facções de extrema-direita, incluindo o partido Poder Judeu (Otzma Yehudit) — tão extremo que mesmo apoiadores resolutos do lobby sionista nos Estados Unidos não conseguem apoiar — prepara-se para entrar pelas portas da frente no parlamento israelense, caso pesquisas de boca de urna estejam corretas. Herdeiros ideológicos do Meir Kahane, que defendia abertamente a expulsão de todos os palestinos da Palestina histórica, do Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo, o que chamavam de “Terra de Israel”, tais grupos extremistas provavelmente terão um assento no gabinete ministerial de uma potencial coalizão de governo liderada pelo Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu.

O influente Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano (AIPAC) descreveu o partido Poder Judeu, composto por radicais ultranacionalistas, como “racista e repreensível”. O líder da aliança, Bezalel Smotrich, certa vez sugeriu segregar alas de maternidade para que mulheres judias jamais dessem à luz perto de mulheres palestinas.

Caso as eleições resultem no previsto, haverá uma distância ainda maior entre uma sociedade israelense local que prioriza a ideologia supremacista judaica do “kahanismo” e judeus americanos inclinados a perspectivas progressistas, cada vez mais desiludidos com o estado sionista e o apoio incondicional a Israel. Este atrito crescente é o que o editor-assistente do New York Times descreveu como “ruptura conturbada”, em curso entre judeus americanos e judeus israelenses. O rompimento parece tornar-se cada vez mais tenso.

Os sinais de cisma são evidentes a todos. Por exemplo, os índices de aprovação do ex-Presidente dos Estados Unidos Donald Trump. Os israelenses adoravam Trump mais do que ninguém — com apoio de 70%. “Veja Trump e você verá Israel”, argumentou Gideon Levy, colunista do jornal israelense Haaretz, ao destacar que o restante do mundo estava farto do magnata de 74 anos de idade, duas vezes condenado por processo de impeachment.

“A explicação para a popularidade crescente de Trump em Israel vai muito além”, explicou Levy, ao dispensar a noção de que judeus israelenses amam o presidente republicano somente por suas muitas dádivas ao estado sionista. “As raízes são muito mais aterradoras. Israel admira Trump não apesar de seus muitos defeitos, mas por causa deles. Trump personifica tudo que é mau e feio sobre Israel, ao normalizar e contemporizar tais deformidades a nós. Veja ele e enxergará nós mesmos. É isso que somos, ou quem queremos ser”.

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Setenta por cento também aplica-se, em média, ao índice de judeus americanos que votaram contra o infame ex-presidente. O nível de oposição ou apoio a Trump não representa, por óbvio, a principal maneira pela qual tal “conturbada ruptura” de fato começou. O cisma é muito mais profundo e ainda anterior, dado que judeus americanos de tendências liberais começaram a pesar seus valores progressistas contra políticas e práticas do estado sionista. Tamanha reflexão impôs organizações integrantes do establishment judaico-americano contra pensadores judeus que, certa vez, foram orgulho de toda a comunidade.

Não muito tempo atrás, Peter Beinart discursava em uma universidade sem sequer uma palavra de protesto de membros da comunidade judaica, a qual integra. O proeminente colunista e autor de 50 anos de idade descreve a si mesmo como sionista e jamais foi alguém que defensores resolutos de Israel sentiam necessidade de impedir de falar em plataformas públicas. Seus pontos de vista sobre o sionismo e Israel, em geral, são parte uma longeva tradição judaica de priorizar valores universais ao interesse próprio de qualquer tribo que porventura pertença. Recentemente, porém, parece que a gravidade do racha sobre Israel é tamanho que nichos da comunidade judaica mostram-se muito pouco dispostos em tolerar qualquer crítica ao estado da ocupação dentro de suas próprias fileiras.

Ao menos, é o que parece ocorrer na última tentativa de reprimir a liberdade de expressão sobre Israel na Universidade da Comunidade das Nações da Virgínia (VCU), nos Estados Unidos. Beinart estava previsto para palestrar na instituição na última terça-feira (23), sobre seu livro de 2013, The Crisis of Zionism (A Crise do Sionismo). O evento era parte da 35a Conferência Brown-Lyons, uma colaboração anual entre o Centro de Estudos Judaicos da universidade e suas bibliotecas. A palestra, habitualmente sem controvérsias, tornou-se mais outro campo de batalha sobre a liberdade de expressão nos campi, nascente das gradativas divergências de judeus americanos à política israelense imposta aos palestinos.

Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu e então Presidente dos Estados Unidos Donald Trump em coletiva de imprensa na Casa Branca, Washington DC, 28 de janeiro de 2020 [Sarah Silbiger/Getty Images]

Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu e então Presidente dos Estados Unidos Donald Trump em coletiva de imprensa na Casa Branca, Washington DC, 28 de janeiro de 2020 [Sarah Silbiger/Getty Images]

Segundo o jornal The Washington Post, a Federação da Comunidade Judaica de Richmond — ramo de captação de recursos, planejamento comunitário, desenvolvimento de lideranças e lobby político do sionismo local — sugeriu receios sobre Beinart e convocou a pressão de doadores. O “crime” de Beinart foi escrever um artigo em julho para a revista Jewish Currents, na qual defendeu “a igualdade em Israel e Palestina”, sob uma perspectiva judaica, além de um segundo texto ao New York Times, no qual declarou “não acreditar mais no Estado Judaico”. Em favor de um estado único na Palestina histórica, que deveria tratar todos os seus cidadãos com igualdade, Beinart explicou que, por décadas, manteve a posição de que era possível separar israelenses e palestinos em dois estados distintos, no entanto, “agora imagina um lar judaico somente em um estado igualitário”.

Para alguns judeus sionistas, Beinart cruzou o limite e sua recém descoberta opinião política despertou uma onda de denúncias histriônicas. Foi descrito como “desleal” e “fundamentalmente imoral”. Detratores alegaram que seus pontos de vista eram nada mais que “traição contra o povo judeu”.

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Além disso, seus convites como conferencista de diversas organizações judaicas foram revogados e passou a enfrentar críticas de líderes comunitários e comentaristas políticos sobre Israel, quando declarou apoio ao boicote aos assentamentos ilegais. Tal posição de Beinart remete a propostas suas de 2012, quando escreveu no New York Times: “Para salvar Israel, boicote os assentamentos”.

Ao comentar os esforços para silenciá-lo, Beinart argumentou: “Temos uma liderança comunitária organizada que frequentemente deseja limitar os termos aceitáveis do debate em espaços judaicos, de forma que um número cada vez maior de judeus americanos, e sobretudo jovens judeus americanos, demonstram desconforto com isso, pois restringe sua habilidade de questionar o que querem questionar e suprime sua liberdade para seguir sua consciência individual e propor uma outra compreensão da tradição judaica”.

Apesar da hostilidade, a posição de Beinart parece ganhar tração. O periódico The Washington Post citou pesquisas nacionais que comprovam que a oposição judaica ao atual governo israelense, seus assentamentos ilegais e a inviabilidade da solução de dois estados tornam-se exponencialmente populares tanto entre judeus americanos quanto outros cidadãos dos Estados Unidos, sobretudo jovens adultos. Por exemplo, uma pesquisa nacional de março de 2020, conduzida pela Universidade de Maryland, revelou que 63% dos entrevistados descrevem a solução de dois estados como não mais possível, de modo que apoiam em seu lugar um estado democrático único, onde judeus e árabes são iguais perante a lei, mesmo que signifique que Israel já não mais exista como estado judaico. A estimativa equivalente de 2018 foi mensurada em 42%.

Beinart também guarda sua própria opinião sobre a polêmica despertada por sua palestra em Richmond, no estado da Virgínia. “Lamento, embora não surpreenda”, declarou na segunda-feira (22) em sua página do Twitter. “Isso se deve ao fato de que o establishment judaico-americano é uma oligarquia conduzida vastamente por seus doadores — frequentemente, de direita. Contudo, tenho esperanças de que aqueles que discordam de mim venham conversar comigo amanhã na Universidade de Virgínia. Perguntem-me questões difíceis”.

Lila Corwin Berman, diretora do Centro Feinstein de História Judaico-Ameircana da Universidade do Templo, parece concordar com Beinart. A consternação com seu discurso, destacou Berman, “não necessariamente significa que toda a comunidade judaica de Richmond está indignada”. Ao argumentar que tais críticas reduzem-se a “poucos indivíduos abastados”, Berman enfatizou: “Os doadores ricos da comunidade judaica tendem mais à direita do que a maioria dos judeus americanos e tendem a priorizar atividades de captação de recursos concernentes ao ativismo pró-Israel, particularmente ao vigirar o que consideram como ativismo anti-Israel nos campi universitários”.

O problema parece ser justamente a anuência absoluta de Israel à crença de supremacia judaica. Em resposta, a comunidade judaica americana parece enxergar Beinart não como pária, mas sim uma espécie de visionário com coragem o bastante para o pensamento judaico de décadas de ocupação, limpeza étnica e assentamentos coloniais.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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