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China tem uma longa história de perseguição uigur, o mundo tem um papel a cumprir

Protesto contra as políticas do governo chinês contra a população uigur, em frente à embaixada chinesa em Berlim, Alemanha, 23 de janeiro de 2021 [Abdulhamid Hosbas/Agência Anadolu]
Protesto contra as políticas do governo chinês contra a população uigur, em frente à embaixada chinesa em Berlim, Alemanha, 23 de janeiro de 2021 [Abdulhamid Hosbas/Agência Anadolu]

A região autônoma de Xinjiang, na China, enfrenta um dos mais graves mecanismos de genocídio étnico e cultural, conduzido por Pequim. Há uma longa história de disputas entre a população nativa uigur e as autoridades chinesas. O governo recusa-se a reconhecer o povo uigur como nativo e os descreve apenas como minoria regional. Entre as 55 minorias que habitam a China, os uigures são um grupo étnico turcomano originário da Ásia central e oriental.

A China enfrenta repúdio global devido ao duro tratamento imposto aos muçulmanos uigures. As evidências se amontoam. Gulbahar Jelilova, cidadã cazaque-uigur, relatou ser espancada e estuprada quando estava em custódia. Stew Chao, jornalista da rede Al Jazeera, reportou que Abduveli Ayup, proeminente escritor e ativista uigur, conhecido por defender e preservar o idioma nativo, foi levado a um centro de detenção e então torturado. Evidências indicam ainda que Pequim tem como alvo sistemático muçulmanos uigures, conforme um plano estatal de controle de natalidade. Segundo Zumrat Dawut e Kalbinur Sidik, sobreviventes de campos de detenção chineses, mulheres uigures que dão a luz a mais de três crianças são esterilizadas à força. Mulheres sobreviventes de tais campos denunciam ainda métodos brutais adotados pelas autoridades chinesas para reduzir o número de nascimentos entre a comunidade uigur: testes pré-natais compulsórios, drogas para interromper a menstruação, abortos e esterelizações à força, inserção de DIUS (dispostivos intraulterinos) e “injeções misteriosas”.

Relatos sugerem que os prisioneiros mantidos nos “campos educacionais”, conforme a nomenclatura oficial, vivenciaram os piores tipos de brutalidade. Foram espancados sem parcimônia, torturados e interrogados. São acusados de crimes que não cometeram. Os muçulmanos em Xinjiang enfrentam abusos físicos e psicológicos. São forçados a criticar sua própria fé e seus valores básicos islâmicos, além de recitarem propaganda do partido único chinês, como parte de um processo de doutrinação.

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As autoridades chinesas alegam que tais campos beneficiaram milhões de trabalhadores através de treinamento educacional e vocacional. Contudo, segundo testemunhos de sobreviventes, trata-se de um mentira. De fato, são lugares onde direitos humanos são violados cotidianamente. Os muçulmanos uigures são detidos por trivialidades, como a publicação de uma história há dez anos atrás ou aulas sobre a história de seu povo ou sobre o Alcorão. Alguns revelaram que o motivo de sua prisão foi uma simples viagem ao exterior.

Analistas políticos acreditam que a situação em Xinjiang é hedionda, mas a resposta da comunidade internacional é bastante fraca. Os governos, em geral, não querem afetar seus laços econômicos com a China. Não obstante, um fato positivo é que alguns parlamentares britânicos denunciaram recentemente as violações humanitárias em Xinjiang e exortaram atletas e delegações esportivas a boicotar as Olimpíadas de Inverno de Pequim, em 2022.

Uma forte reação internacional é necessária para pressionar a China a reverter seus ataques contra a dignidade humana. O Presidente dos Estados Unidos Joe Biden reafirmou a agenda americana de reagir aos abusos chineses. Durante telefonema com sua contraparte em Pequim, Xi Jinping, Biden foi explícito em tratar de uma série de problemas concernentes aos supostos abusos de direitos humanos perpetrados pela China. Esta postura sugere alguma esperança ao movimento nacional uigur.

Tal apoio é de fato essencial e há muito esperado entre alguns dos governos ocidentais, além de grupos e ativistas da sociedade civil. Há muito trabalho a fazer, ao menos porque a China possui uma longa história de discriminação contra os uigures.

Desde 1949, a perseguição uigur é enquadrada no contexto de “segurança nacional”. Pequim faz uso político de investimentos e cooperação internacionais para conquistar seus objetivos. Desta forma, parece que a China efetivamente comprou o silêncio de muitos países, inclusive estados islâmicos e ditaduras. Mesmo Washington coloca seus interesses econômicos referentes ao mercado chinês acima dos direitos humanos.

Entretanto, o movimento uigur detém algum apoio nos Estados Unidos, Reino Unido e Turquia. Organizações humanitárias trabalham para organizar a solidariedade de grupos uigures e não-uigures. O que precisamos agora é cada vez mais do que ativistas pela causa uigur, acesso às plataformas internacionais e apoio em todo o mundo.

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Os governos precisam utilizar sua pressão diplomática sobre Pequim para desenvolver estruturas políticas que permitam ao povo uigur manter sua identidade e coexistir pacificamente com a comunidade supostamente majoritária. A China precisa repensar suas práticas e apresentar mudanças políticas que acomodam os direitos das minorias.

Enquanto isso, uigures que sobrevivem na diáspora são cada vez mais eloquentes e organizados em suas denúncias e campanha por direitos em Xinjiang. Mesmo assim, para influenciar parlamentos em todo o mundo a defender a população islâmica, apoiadores e ativistas individuais precisam de recursos financeiros. O movimento de independência precisa de orientação adequada da comunidade internacional. Porém, os estados-membros da Organização de Cooperação Islâmica (OCI) permanecem intimidados pela China e alguns são até mesmo acusados de cumplicidade, em alguma escala, com o genocídio do povo uigur, perpetrado por Pequim. A China claramente mantém grilhões econômicos no chamado mundo árabe. É preciso mudar este fato para dar fim à perseguição étnica do povo uigur.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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