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Entre democracia e mediocracia – como explicar a ascensão do Trumpismo e Bolsonarismo?

Donald Trump e Jair Bolsonaro [Foto Alan Santos/ PR]
Donald Trump e Jair Bolsonaro [Foto Alan Santos/ PR]

A última década da História Mundial tem sido caracterizada pela chegada ao poder, em grandes nações e estados, de líderes totalmente não convencionais que beiram à excentricidade bizarra. O que mais surpreende, neste fenômeno, é que ele ocorreu dentro de regimes democráticos considerados sólidos, através de processo eleitoral legítimo. Mas mesmo assim, destacados pensadores e teóricos vêm alertando para algo que eles consideram iminente e urgente: a ameaça real que a democracia sofre em todo o mundo. Se a forma do exercício democrático está mantida e respeitada, o espírito democrático vem sofrendo sérios abalos. Isso porque democracia vai muito além de constituições, legislações e práticas de escolha dos governantes pela população através de processo eleitoral, a democracia é, sobretudo, um espírito que envolve estado e sociedade num conjunto de tradições e regras não escritas que garantem o respeito de todos ao regime democrático. Partindo deste pressuposto, podemos afirmar que o vigor da democracia depende muito mais das almas e mentes estarem imbuídas do espírito democrático do que de parágrafos de leis e constituições.

Talvez os dois exemplos mais emblemáticos desta ameaça à democracia sejam a notável ascensão de Donald Trump e Jair Bolsonaro ao topo do poder nos Estados Unidos e Brasil, respectivamente. Nenhum dos dois presidentes usurpou o poder ilegalmente. Nenhum deles valeu-se de golpe de Estado ou algo do gênero para se tornar presidente. Em ambos os casos, temos exemplos de rigoroso respeito ao processo eleitoral, com vitória nas eleições pelo voto popular. Ao que consta, e pelo jeito que se deu o processo eleitoral em ambos os casos, estamos diante de processos lisos, sem manchas ou suspeitas de fraude. Os adversários, em ambos os casos, reconheceram a derrota. No entanto, e apesar de tudo isso, não há como negar que a democracia, nos dois países, sofreu sério revés ao se deparar com o domínio amplo do Trumpismo e do Bolsonarismo.

Os perfis dos dois presidentes do gigante da América do Norte e do seu colega do gigantes da América do Sul são bem parecidos, com a diferença de que o brasileiro aceitou submissamente (e até de uma forma humilhante) ser um mero vassalo e discípulo do Tio Sam. Tanto Trump quanto Bolsonaro têm idéias ultraliberais de apoio aos grandes capitalistas, com discurso populista caracterizado pelo racismo, xenofobia, machismo, misoginia, apelo à violência e desrespeito aos mais pobres e necessitados. Mestre e discípulo mostraram e mostram, sistematicamente, um desprezo pelas instituições do Estado e um desrespeito à Constituição, numa tendência evidente e patente ao autoritarismo. Em tempos de pandemia, os dois agiram de uma maneira a atentar aos ditames da Ciência e da Medicina. Em resumo, estamos diante de dois líderes com sérios déficits em sua formação cultural e moral, e em nada genuinamente comprometidos com o espírito democrático ou com as populações que eles governam. São dois políticos de alma tirana que foram alçados ao poder máximo através do voto popular. E aí entra  a óbvia e paradoxal questão: como isso foi possível? Como em duas das maiores democracias do mundo foi permitida a ascenção ao poder dos autoritários e broncos Donald Trump e Jair Bolsonaro?

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 Para tentar responder a este inquietante e atordoante questionamento, recorremos à obra brilhante e contundentemente escrita e publicada em 2018 do filósofo canadense Alain Deneault, intitulada de: A mediocracia. Nesta obra, este pensador canadense do Quebec faz uma dissecação e descrição minuciosas do atual cenário de poder mundial sob o protagonismo das potências ocidentais (América do Norte e Europa Ocidental), cujo fulcro é o dinheiro como fim último e valor. Mas o que vem a ser a mediocracia? Segundo Deneault, a mediocracia nada mais é do que o governo dos medíocres. E os medíocres são aquelas pessoas caracterizadas pela mediocridade, que é o estado daquilo que é ordinário, comum, desprovido de mérito ou talento. A mediocracia é, então, um neologismo cunhado por Deneault para descrever o atual estado de coisas pelo qual o nosso mundo passa. Este filósofo canadenese, cuja obra ganhou destaque mundial nos últimos anos, é categórico em afirmar que os medíocres tomaram conta do mundo e que eles dominam todas as esferas do poder contemporâneo em todos os estados do globo. Portanto, nada de democracias, teocracias, ditaduras ou monarquias, para o filósofo candenese, estamos todos hoje sob o domínio absoluto de um regime poderoso global e único: a mediocracia, ou governo dos medíocres.

Na mediocracia, mérito, talento, genialidade, capacidade, e todos os outros atributos que caracterizam habilidades louváveis e que exigem refinamento e cultura acima da média, não tem valor. O que tem valor na mediocracia é” jogar o jogo”, mesmo que este “jogar” atente contra valores nobres e mesmo que seja contrário aos interesses de comunidades e coletividades. O senso crítico e a autonomia de pensamento, no regime mediocrático, têm que ser aposentados. A prevalência única e absoluta tem que ser da mediocridade. E nada melhor que um medíocre para reconhecer um outro medíocre e, assim, criar uma rede de relações para galgar as escadas do poder e domínio. Mas é possível a futilidade vencer a genialidade, a mediocridade sobrepujar o talento e os mais nobres e refinados valores humanos sejam relegados ao esquecimento e ostracismo? Isso tudo não é somente possível, como, de fato, tornou-se um robusto sistema de poder mundial que estende seus tentáculos a todas as esferas: acadêmica, governamental, administrativa, econômica, cultural, artística, social. É um emaranhado de redes e ligações que fazem a mediocracia ditar as regras do jogo mundial, mesmo que seja de uma forma latente e disfarçada. Jogo este que tem um único objetivo: alicerçar e perpetuar o poder da pequeníssima elite dos detentores de capital e fundos monetários.

A pedra fundamental da conquista do poder da mediocracia está em conseguir o domínio no campo que mais poderia e deveria oferecer-lhe resistência: a academia. As maiores e mais renomadas universidades mundiais estão, segundo Deneault, sob o domínio da mediocracia. As ligações entre mercado e academia deram-se de tal forma que o mercado sequestrou a autonomia do mundo acadêmico, ao ponto dos docentes universitários, pesquisadores e programas de pós-graduação curvarem-se às ordens e regras dos donos do capital (e consequentemente poder). Perdeu o seu eminente lugar o clássico “intelectual”, “pensador” e “sábio” para dar espaço ao “especialista”, “expert”, “consultor”. Enquanto o intelectual representa, da mais sublime forma, a consciência e a alma da sociedade, o especialista está desprovido de qualquer comprometimento ético ou moral perante a sociedade. O intelectual pensa de forma livre e autônoma e fala a verdade mesmo que esta venha a confrontar-se com interesses de grupos e oligarquias. O especialista atende aos interesses de elites restritas que possuem o monopólio do poder e do dinheiro; a verdade não faz parte dos compromissos do especialista, o único compromisso que esta categoria de especialistas e experts têm é com os próprios pequenos e medíocres interesses.

Algum caro leitor pode achar que haja um certo exagero em considerar a academia como a pedra fundamental na conquista do poder pelo regime mediocrático. Lamentamos dizer que não há exagero nenhum nesta afirmação. Estamos apenas constatando um fato doloroso e ominoso que oferece-nos uma explicação plausível e convincente sobre a chegada da mediocridade ao trono do mundo. Ao minar a academia, os medíocres das grandes fortunas subjugaram a última das fortalezas da razão humana e o último bastião do senso crítico e do pensamento livre. Deste modo, toda resistência consistente, nos campos moral e intelectual, tornou-se pó. Os intelectuais orgânicos perderam a sua voz e vez, hoje é a vez dos especialistas que, mesmo atendendo aos interesses de elites restritas em detrimento das grandes massas, têm a sua voz ouvida e difundida mundo afora.

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 A academia foi tomada pela mercantilização de todo o ambiente universitário. O conhecimento acadêmico tornou-se um objeto de consumo. Para a mediocracia, não interessa quão relevante ou necessário é um trabalho acadêmico para a sociedade, o importante é produzir mais e mais artigos científicos, mesmo que sejam pífios ou, na melhor das hipóteses, de qualidade questionável. Mas tudo isso não interessa aos senhores da mediocracia e seus asseclas. O objetivo final deste sistema é propagar a mediocridade em todas as esferas, e impregnar todos os âmbitos da atividade humana pelo espírito medíocre. O assustador nisso tudo é que este objetivo não é elucubração ou devaneio; pelo contrário, é muito mais facilmente alcançável do que poderíamos imaginar.

É preciso que os fúteis, os vulgares, os desprovidos de talento assumam a dianteira e sejam a vanguarda da sociedade. Nada mais ameaçador à mediocracia do que exaltar e louvar o mérito; é preciso exaltar e louvar a futilidade, a vulgaridade e, até mesmo, o demérito. Colocar os verdadeiramente hábeis e talentosos nos lugares de destaque ameaça arruinar todo o sistema mediocrático. Assim, o próprio ambiente acadêmico torna-se um gerador e perpetuador da mediocridade. O mais interessante neste jogo é que nenhuma das suas principais regras está escrita. É um acordo não-escrito que tem um poder hermético e implacável e que automaticamente exclui todo aquele que pensa de forma autônoma e livre, recusando-se a curvar-se à mediocridade reinante.

Garantido o domínio no campo acadêmico, o domínio nos demais campos de atividade humana torna-se assustadoramente fácil. Assim, política, economia, comércio, cultura, arte e jornalismo tornam-se uma uma mera engrenagem na gigante locomotiva da mediocracia. Para encobrir todo este engodo, nada melhor do que cunhar neologismos e inventar conceitos que falam muito sem nada dizer. Que tal falar em “governança” ao invés de “constituição” ou “regime democrático”? Afinal, é necessário que o estado seja mínimo, que não intervenha em nada a não ser para assegurar os interesses das elites poderosas. E administrar o estado da mesma forma que uma empresa é o melhor jeito para garantir os interesses do todo-poderoso mercado, mesmo que sejam em detrimento de toda uma sociedade. Portanto, falemos muitos de governança e esqueçamos a palavra governo. Ela só é necessária para oprimir aqueles que vivem à margem de tudo se pensarem em clamar por um mínimo de dignidade. Nestas horas, é necessário que o governo esteja presente. Em todas as outras horas, brademos: viva a governança!

Este cenário sombrio que Denault tão habilmente descreve pode parecer aos olhos mais desavisados e céticos surreal demais. No entanto, se levarmos em conta outro cenário sombrio como as eleições de Trump e Bolsonaro, estaremos autorizados a concordar com as linhas gerais de sua descrição e a ratificar o seu diagnóstico sócio-político da realidade de hoje. Pessoas teoricamente instruídas e cultas votaram em massa em xucros como Trump e Bolsonaro. A academia elegeu líderes que carecem de valores humanos básicos, como empatia e misericórdia, e que têm um discurso assustador de ódio, com racismo, xenofobia e desprezo pelos mais fracos e necessitados. Um fato tão desastroso como este só pode ser explicado pela disseminação da mediocridade em todas as esferas.

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 Pessoas de talento existem. Indivíduos com pensamento crítico e livre existem. Pensadores, intelectuais e teóricos com comprometimento moral e cívicos também existem. No entanto, a inexorabilidade do sistema mediocrático vem marginalizando e excluindo estas pessoas que poderiam levantar uma voz de resistência contra a ascensão de aberrações políticas e humanas como o Trumpismo e Bolsonarismo. Ainda acreditamos na nobreza contida no ser humano. Ainda acreditamos que o mundo dará voz e vez ao mérito, ao refinamento e à verdadeira cultura humana, longe da vulgarização e futilização em massa.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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