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“Cristofobia” ou a simples subserviência: o discurso de Bolsonaro na ONU

Jair Bolsonaro, discursa durante a abertura da 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), em 22 de setembro de 2020 [Creative Commons, Alan Santos/PR]
Jair Bolsonaro, discursa durante a abertura da 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), em 22 de setembro de 2020 [Creative Commons, Alan Santos/PR]

Mais uma vez, infelizmente, o Brasil fez, na figura do presidente Jair Bolsonaro, um papel ridículo, colonizado e subalterno. Não contente com isso, ainda flertou com a apostasia. Neste artigo abordamos o tenebroso pronunciamento daquele que governa o país, mas se submete, até psicologicamente, aos desígnios do empresário picareta e presidente dos EUA, Donald Trump.

Vejamos. Na terça-feira, 22 de setembro, em discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (em formato virtual), o chefe do Poder Executivo nacional pronunciou um discurso recheado de mentiras  e potencialmente perigoso, no que diz respeito ao Oriente Médio. Especificamente vamos nos ater a este aspecto, exemplificando com trechos do discurso e comentários.

“Faço um apelo a toda a comunidade internacional pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia. Também quero reafirmar minha solidariedade e apoio ao povo do Líbano pelas recentes adversidades sofridas.”

O presidente mentiroso, Jair Bolsonaro, citou a tragédia (acidente e negligência, eu diria) do Líbano em seu discurso e o fez logo na sequência da absurda alusão de que o planeta viveria uma onda de “cristofobia”. Ao não se referir à terra dos cedros como um país árabe, a alusão é evidente. A defesa das comunidades “cristãs” libanesas – maronitas, ortodoxas, melquitas e antioquinas como sendo um “bastião do Ocidente”, obviamente ao lado de Israel, fiel representante dos cruzados, mas agindo com seus próprios interesses. Como é de se esperar, trata-se de mais desinformação e propaganda chauvinista.

Indo nas raízes no Movimento Nacional Árabe é central o papel de jovens militantes oriundos de famílias de credo e organização social cristã do oriente. Ao contrário da disputa por adeptos, como nos países ocidentalizados, as comunidades são autocentradas e a ausência de uma sociedade civil “clássica” não permite facilmente a conversão. Logo, não se trata de defesa de sistemas de crenças, operando o pertencimento mais como identidade do que religiosidade.

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Já a defesa da cristandade é uma blasfêmia profanadora da herança do Jesus histórico, e do papel fundamental que a Teologia da Libertação e a Teologia da Missão Integral, o movimento de Fé e Política e do ecumenismo radical têm para as lutas populares da América Latina. No Mundo Árabe, a afirmação é absurda, considerando também o elevado grau de perseguição que Israel promove contra a população palestina cristã (mais de 13% dos que residem nos Territórios Ocupados de 1948 e de 1967).

Em termos de alinhamento, ao afirmar que “é preciso combater a cristofobia”, automaticamente Bolsonaro se perfila com a direita pentecostal do cinturão bíblico dos EUA. Não bastasse se referenciar a Donald Trump em pleno discurso, o presidente do Brasil se coloca como defensor dos maiores financiadores dos assentamentos ilegais. Considerando que os Estados Unidos estão em plena corrida eleitoral e que o mandatário da Casa Branca pode perder o pleito, trata-se de, no mínimo, uma temeridade por parte da diplomacia brasileira.

O problema da alegação de “combater a cristofobia” no planeta coloca a luta dos povos em escala de cruzada reacionária, excrescência do pacto neoconservador e entre os tele evangelistas (pacto neocon-telecon de início dos anos ’90, reeditando as duas cruzadas conservadoras de Nixon e Reagan), e coloca o Brasil na periferia de um conflito que, definitivamente, não nos diz respeito. Ao citar no discurso “O Brasil está preocupado e repudia o terrorismo em todo o mundo” ao que necessariamente ele se refere? Ao terrorismo de Estado e apartheid israelense? Estaria denunciando as redes de inteligência dos Emirados e sauditas financiando células salafistas, muitas delas compostas por presidiários que permutam suas penas por engajamento no estrangeiro? Evidente que não.

Ou o discurso de “combate ao terrorismo” é apenas um prolongamento da chamada “Guerra ao terror” (GWOT na sigla em inglês), dando autorização tácita aos Estados Unidos para promoverem operações em todo o planeta? Se for isso então, na prática, Bolsonaro e seus assessores diretos apoiam a realização de ataques com aeronaves não tripuladas assassinando centenas de pessoas? Para quem estuda a política doméstica dos Estados Unidos, fica óbvia a correlação. A extrema direita do Partido Republicano, entre maluquices manipuladoras e o cinturão bíblico, tende a apoiar incondicionalmente as guerras dos EUA, incluindo as duas invasões ao Iraque e a do Afeganistão.

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Na guerra narrativa tudo estaria justificado em termos de mentiras massificadas, alegando que se trata de “combater a cristofobia” em todos os níveis. Na prática é uma posição pró-EUA, alimentando a direita bíblica apoiadora do sionismo e a anexação da Cisjordânia e o cerco à Gaza, que resulta na versão mais recente de posições anti-árabes e islamofóbicas. Deste modo, o protofascista aliado de fariseus sonegadores repete conspirações “globalistas” e se posiciona em controversas posições “conspirativas”, sem base analítica alguma.

Ao contrário do que afirmou, “O Brasil é um país cristão e conservador”, nosso país é pluriétnico (sendo mais de 16 de milhões de pessoas árabe-brasileiras), com diversidade de gênero, de maioria afro-brasileira e pertence à América Latina e ao Sul Global. Não é a primeira vez que ouvimos uma estupidez neocolonial da boca do presidente e, pelo visto, está longe de ser a última.

Além da subserviência e o elogio da apostasia (islamofóbica), a fala de Jair Messias atende a um público interno – composto de fariseus sonegadores à frente de empresas de exploração da fé alheia –, bem como se coloca de forma igualmente subalterna ao gabinete do premiê israelense, Bejamin Netanyahu e seus comparsas criminosos da “guerra de 2012 e 2014”, incluindo o famigerado general Benny Gantz. O argumento da “cristofobia” é a ausência de política externa soberana, apenas copiando a justificativa doméstica de Donald Trump para promover sua política agressiva e beligerante.

É evidente que, se fosse ler um texto como esse, Bolsonaro entenderia pouco ou nada, ainda que, com petulância, discordasse de tudo. Como o Itamaraty tem excelentes quadros de carreira, suponho que existam boas almas para explicar ao presidente que o mundo é mais complexo do que a varanda de sua casa no condomínio. Também deveriam se esforçar para que o país cometa menos vexames internacionais e juras de obediência colonial a cada vez que o presidente ou seu chanceler se pronunciam.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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