Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Poderia esta extremista religiosa ser a futura primeira-ministra de Israel?

Primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e então vice-ministra de Relações Exteriores Tzipi Hotovely posam para uma selfie na noite da eleição, na sede do partido Likud, em Tel Aviv, 10 de abril de 2019. [Thomas Coex/AFP/Getty Imagens]
Primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu e então vice-ministra de Relações Exteriores Tzipi Hotovely posam para uma selfie na noite da eleição, na sede do partido Likud, em Tel Aviv, 10 de abril de 2019. [Thomas Coex/AFP/Getty Imagens]

Recentemente, conduzi uma longa entrevista com o ex-prefeito de Londres Ken Livingstone para um projeto futuro. Ele me contou várias coisas interessantes.

O comentarista de direita Charles Moore certa vez descreveu Livingstone como: “O único político britânico de esquerda verdadeiramente bem-sucedido dos tempos modernos”. Ele certamente faz jus a essa reputação pessoalmente.

Ainda perspicaz, Livingstone estava certo e foi generoso com sua análise de como e por que Boris Johnson não conseguiu controlar a crise do coronavírus. Em suma, o primeiro-ministro não tem nenhum plano de longo prazo. Em vez disso, ele se concentra em dizer às pessoas o que acha que elas querem ouvir e em responder aos eventos à medida que ocorrem.

Margaret Thatcher, por outro lado, tinha um plano de longo prazo, argumentou Livingstone. Esse plano, é claro, era destruir os sindicatos, castrar o estado e vender seus ativos a empresas privadas. Nisso, ela teve grande sucesso. Por quê? Porque ela teve uma visão, junto com a vontade e os meios para realizá-la.

Políticos israelenses também podem ser acusados ​​com razão de tropeçar de crise em crise ao responder aos eventos. Mas o sucesso relativo de Israel na realização de seu projeto colonial de assentamentos dependeu, ao longo das décadas, de uma visão e ideologia coesas.

Essa ideologia é o sionismo – a ideia de que os judeus deveriam abandonar seus países nativos para fundar um estado colonial judeu na Palestina.

A Organização Sionista Mundial foi estabelecida no final do século 19, fundada por Theodor Herzl.

Em meio século, graças em grande parte ao Império Britânico, o movimento sionista alcançou seu objetivo de fundar um estado judeu. Assim fizeram por meio de violência extrema: a expulsão em massa de 800.000 nativos.

LEIA: A normalização pelos Estados do Golfo é diferente

É por esta razão que quase todos os palestinos são absolutamente antissionistas – opõem-se ao sionismo porque o sionismo se opõe à sua própria existência.

Desde que o movimento sionista atingiu seu objetivo principal, passou a expandir seus horizontes cada vez mais.

Uma figura política que não pode ser acusada de falta de visão é Tzipi Hotovely – nova embaixadora de Israel no Reino Unido.

Hotovely deve ser observada com atenção, em termos de política israelense. Com apenas 41 anos de idade, na minha opinião, é bem possível que possa tornar-se futura premiê israelense.

Popular entre os elementos mais extremistas do movimento de colonos na Cisjordânia, Hotovely tem sido uma estrela em ascensão no partido Likud, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu há alguns anos.

Vice-ministra das Relações Exteriores de Israel Tzipi Hotovely, em 1° de maio de 2017 [Tzipi Hotovely/Facebook]

Vice-ministra das Relações Exteriores de Israel Tzipi Hotovely, em 1° de maio de 2017 [Tzipi Hotovely/Facebook]

Hotovely foi pessoalmente recrutada por Netanyahu para o partido Likud durante seus anos de oposição. Em 2009, entrou no Knesset, onde prometia fazer as coisas de forma diferente do sistema secular de Israel.

Como sionista religiosa, Hotovely acredita em uma certa interpretação dos textos sagrados, a que os fundamentalistas geralmente descrevem como a verdade liberal das escrituras conforme revelada por Deus (de fato, muitas vezes irremediavelmente repleta de contradições internas).

No centro de sua fé, está uma crença infalível: toda a Palestina histórica (o que ela, em comum com a tradição sionista, chama de “Terra de Israel”) pertence aos judeus – e apenas aos judeus. Para ela, o povo nativo da Palestina está reduzido a “minorias”. Na realidade, porém, os palestinos na Palestina histórica, há algum tempo, superam os judeus.

Em um discurso de 2010 para um grupo de colonos na colônia ilegal israelense de Revava (perto da cidade palestina de Salfit), Hotovely afirmou que “a principal luta é contra a criação de um estado palestino” – denominador comum ao partido Likud.

Mas não parou por aí. Mesmo uma década atrás, Hotovely teve uma visão. “Precisamos de soberania e jurisdição israelenses em todos os territórios que ocupamos … A resposta é impor a jurisdição israelense sobre as áreas onde nossas cidades estão hoje, na Judeia e Samaria [Cisjordânia]”.

Seu discurso avançou cada vez mais com um tom claramente religioso sionista. Hotovely afirmou que quando os judeus “olham para o céu através do telhado”, lembram-se de quem é o verdadeiro dono da terra. “Olhamos para Deus e lembramos que somos uma nação que acredita e quem acredita não tem medo. Nem de Obama, nem dos palestinos, nem de ninguém”.

A ideia de “soberania” israelense sobre a Cisjordânia deveria ser denominada com mais precisão: anexação de um território invadido e ocupado ilegalmente – crime de guerra segundo o direito internacional.

Mas Hotovely não deve ser descartada como um extremista selvagem relegada às margens da vida política israelense. Ao longo da última década, foi ganhando força e é uma verdadeira jogadora política.

Servindo em vários cargos ministeriais menores e, posteriormente, em maior escalão, a última nomeação de Hotovely como embaixadora no Reino Unido não deve de forma alguma ser interpretada como rebaixamento. Na verdade, é bem provável que esteja sendo enviada a solo britânico com uma missão muito específica determinada por Netanyahu, que despachou sua leal protegida a Londres. É notório que a capital britânica, devido ao seu forte movimento de solidariedade à Palestina ocupada, representa um dos principais “centros de deslegitimação”, de acordo com estrategistas israelenses.

A última função ministerial de Hotovely, antes das recentes eleições israelenses, foi como vice-ministra de Relações Exteriores, na qual serviu por quatro anos. Na maior parte desse período, Netanyahu acumulou o cargo de Ministro de Relações Exteriores, de modo que Hotovely, na verdade, exerceu posto de ministra interina.

LEIA: Financiamento coletivo de assassinos israelenses expõe racismo antipalestino enraizado

Durante esse tempo, Hotovely liderou o que alardeava ser uma “revolução” no ministério.

Em coletiva do Jerusalem Post, em 2019, Hotovely explicou: “Foram os quatro anos mais incríveis do Ministério das Relações Exteriores. Foram anos em que Israel conquistou o time dos sonhos”, alegou, em elogio entusiasmado ao Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, por seu apoio aos assentamentos israelenses e pela transferência da embaixada americana a Jerusalém.

“Quando entrei no Ministério das Relações Exteriores, disse: ‘Quero ter um plano de transferir todas as embaixadas de Tel Aviv para Jerusalém’ e todos olharam para mim e disseram: ‘Não vai acontecer’. Eu disse: ‘ Por que não?… Jerusalém foi apenas o primeiro passo… Acho que as próximas são a Judéia e Samaria”.

Contudo, um vídeo de um antigo discurso de Hotovely mostra que sua visão não termina aí. Em 2012, ela até defendeu a “expansão” das fronteiras de Israel em ambas as “margens do Jordão” – em comum com a velha reivindicação do sionismo “revisionista” de direita.

“Não devemos nos contentar em preservar o que existe”, demandou. “Devemos sempre olhar para frente … devemos apresentar uma visão.”

O futuro de Israel repousa no declarado extremismo religioso de direita? De fato, parece ser a rota adotada pelo país.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ArtigoEleições israelensesEuropa & RússiaInquéritoIsraelOpiniãoOriente MédioPalestinaReino Unido
Show Comments
Show Comments