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Novos segredos sobre retirada israelense da Cisjordânia, que jamais se materializou

Então Primeiro-Ministro de Israel Ariel Sharon acolhe imigrantes judeus da França, ao chegarem no Aeroporto Ben Gurion, perto de Tel Aviv, em 28 de julho de 2004 [Uriel Sinai/Getty Images]
Então Primeiro-Ministro de Israel Ariel Sharon acolhe imigrantes judeus da França, ao chegarem no Aeroporto Ben Gurion, perto de Tel Aviv, em 28 de julho de 2004 [Uriel Sinai/Getty Images]

Enquanto Israel comemora o 15° aniversário de sua retirada unilateral da Faixa de Gaza, em 2005, diversos oficiais israelenses revelam neste momento a possibilidade de segredos que podem vir à luz pela primeira vez. Tais segredos são relacionados a um plano preparado pelo então premiê israelense Ariel Sharon para executar a segunda parte do desengajamento militar, na Cisjordânia ocupada, momentos antes da evacuação de Gush Katif, assentamento ilegal em Gaza, e poucos meses antes do primeiro-ministro entrar em coma.

Quinze anos atrás, 1.751 famílias, abrangendo 9.000 colonos israelenses, foram evacuadas da Faixa de Gaza e 22 assentamentos ilegais foram abandonados. Esta medida sem precedentes, cujo estopim foi uma manobra política de Sharon, ainda está gravada nos corações israelenses, por todo o espectro político, esquerda e direita, como grave choque emocional e evidente fracasso de segurança.

Ao longo dos anos, poucas notícias foram publicadas sobre a segunda fase do desengajamento planejado por Sharon, que ocorreria na Cisjordânia, nos últimos meses de seu governo. Entretanto, Ehud Olmert substituiu a manobra política de seu predecessor Sharon pelo que se tornou conhecido como “plano de reconciliação”.

Detalhes dos segredos israelenses divulgados de modo inédito incluem o pedido de Sharon para que uma equipe jurídica preparasse a conjuntura econômica, legal, política e de segurança para uma nova retirada, com base nas lições da evacuação de Gaza, sem especificar contudo o plano para tanto ou quais assentamentos seriam esvaziados. Entretanto, tornou-se notório que a discussão concentrou-se na evacuação de 15.000 famílias e 100.000 colonos, da Cisjordânia; dez vezes mais do que a presença colonial em Gaza.

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O diretor de gabinete de Sharon na época, o advogado Dov Weissglas, revelou que estas eram as ideias iniciais, devido à crença então prevalecente em Israel sobre a necessidade de reorganizar sua presença na Cisjordânia. Não há dúvida de que, caso Sharon estivesse presente hoje, a situação poderia ser distinta, com a possível retirada, ao menos em parte.

A ideia indica que uma retirada semelhante à que ocorreu em Gaza, com suporte do Muro do Apartheid, poderia ajudar a criar uma nova realidade, levando judeus que viviam do outro lado da barreira a retornar a Israel. Sharon pensava que as forças israelenses poderiam retirar-se gradualmente das cidades palestinas sem muito ruído.

Os poucos dados disponíveis sugerem que, em agosto de 2006, oito meses após Sharon entrar em coma, uma nova autoridade política composta por Ehud Olmert e Tzipi Livni, apresentou um enorme dossiê de centenas de páginas, revelando uma série de problemas em campo perante a eventual retirada da Cisjordânia. Também destacou uma série de distinções relevantes entre Cisjordânia e Gaza.

Dentre as mais notáveis diferenças, está o fato de que a Cisjordânia é geograficamente controlada, enquanto Gaza representa menos importância topográfica a Israel. Além disso, há fontes de água bastante eminentes para Israel no território da Cisjordânia, o que não é o caso em Gaza. Não obstante, as fronteiras da Cisjordânia podem ser fechadas e controladas com facilidade do exterior e, sobretudo, é difícil que haja respostas das montanhas a ameaças de mísseis israelenses.

Outra diferença crucial entre os territórios é o temor israelense de que o Hamas poderia obter controle de grandes centros residenciais na Cisjordânia. Portanto, a alternativa lógica de segurança para prevenir tal quadro seria a presença constante de Israel, em particular, nas áreas mais significativas da Cisjordânia ocupada.

Sharon planejava outro tipo de retirada para a Cisjordânia e, para tanto, criou o partido Kadima, supostamente centrista. Não foi uma decisão fácil para o veterano político sair do partido Likud, fundado por ele, e assim estabelecer um novo partido. Contudo, após a retirada em Gaza, Sharon pôde perceber a objeção crescente dentro do Likud diante da possibilidade de novos recuos. Desta forma, convenceu-se que a única maneira de preservar as necessidades de Israel a longo prazo na Cisjordânia e obstruir as chances da região tornar-se parte de um estado binacional seria implementar uma nova retirada.

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Em fevereiro de 2005, Sharon ofereceu três alternativas: recusar a pressão dos Estados Unidos para implementar a retirada de toda a Cisjordânia ocupada; evacuar quatro blocos de assentamentos no território palestino; ou evacuar dezessete áreas individuais. Sharon apoiava a segunda opção e, desde o momento em que decidiu, não pensou em qualquer outra coisa. Apenas seis meses depois, Olmert anunciou o “plano de reconciliação” como parte do programa do Kadima, ao adotá-lo como novo primeiro-ministro.

Sharon sabia bem que, mesmo caso a esquerda sionista não estivesse muito interessada na retirada, aqueles que discursavam pelo fim da ocupação não poderiam votar contra a retirada de Gaza. Portanto, o campo de esquerda lhe concedeu a maioria necessária no Knesset (Parlamento de Israel), mas advertiu para o fato de que, sem um suposto processo de paz, a retirada representaria uma grande vitória do Hamas e incitaria eventual violência contra Israel.

Sharon enxergava a retirada de Gaza como conquista política e de segurança para Israel, em todos os aspectos. Começou a considerar seriamente este plano após receios emergirem de que o “roteiro” proposto pelos Estados Unidos poderia mudar às custas de Israel, como resultado de inúmeras pressões. Em último caso, não foi o campo de esquerda, mas sim o veterano sionista Sharon quem implementou o recuo de suas tropas e da presença colonial na Faixa de Gaza, como manobra política. Pouco antes, ainda era visto como pai dos assentamentos israelenses.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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