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Jornalista israelense: ‘O acordo do século é a piada do século’

Gideon Levy, jornalista do periódico israelense Haaretz, posa em sua casa, na cidade costeira de Tel Aviv, Israel, 12 de agosto de 2014 [Gil Cohen Magen/AFP/Getty Images]

A voz é clara, um leve sotaque hebraico pode ser detectado quando Gideon Levy fala em inglês. Ele é preciso e conciso, demonstra talvez alguma “chutzpah” (audácia), mas seu modo de dizer as coisas é direto. Isso pode fazer de Gideon Levy um homem irritante? Certamente não. Ao contrário, gentil e pacientemente ele explica o que está em jogo aqui.

Alguns apelam à consciência de Gideon Levy, outros preferem insultá-lo. Levy é um delator. Provavelmente, detestaria ser descrito dessa forma. É um jornalista e agora colunista do diário israelense Haaretz, publicado em inglês. Também é membro do conselho do jornal. Toda semana, sua coluna contradiz a ideologia religiosa e nacionalista daqueles que estão no poder.

O homem mais odiado de Israel

Levy possui a distinta honra de ser considerado pelas autoridades como uma “ameaça” à segurança nacional. O que ele fez para provocar tamanho ódio? Quase toda semana, por três décadas, ele visitou os territórios ocupados e descreveu o que viu. Mesmo impossibilitado de visitar Gaza desde 2006 (leis de Israel proíbem qualquer israelense de entrar na Faixa), Levy foi capaz de dar ênfase ao assassinato dos palestinos. Seu livro, “The punishment of Gaza” (“O castigo de Gaza”, em tradução livre), concedeu-lhe o apelido de “propagandista do Hamas” por nacionalistas de extrema-direita. Seu trabalho levou o renomado jornalista Robert Fisk a questionar: “Será ele o homem mais odiado de Israel ou o mais heroico?”

Seu objetivo é simples: reumanizar os palestinos quando tudo é feito para desumanizá-los, ele explica. Desde a ocupação até o arrastado sufocamento de sua cultura, usurpação, demolição, o apagamento de seus nomes, de suas aldeias, de sua sociedade… a coluna de Levy expõe suas lutas diárias, apresenta detalhes das histórias populares, dá nome a elas e lhes devolve os rostos, as idades e a histórias de vida e morte. Entre elas, a história da mulher beduína que, em 1986, foi obrigada a dar luz em um posto de controle israelense. Seu bebê recém-nascido morreu por não chegar a um hospital a tempo; ela teve de caminhar dois quilômetros sozinha com o bebê nos braços.

Levy permanece surpreso, afirma, pela ignorância média do cidadão israelense sobre a realidade vigente há poucos minutos de distância. A sociedade israelense “vive em negação, uma série de mentiras. Contudo, é totalmente consciente. As pessoas escolhem viver dessa forma,” ele declaro ao MEMO.

“A sociedade israelense é uma sociedade bastante agressiva. Mas não podemos generalizar. Há tempos fáceis e tempos difíceis, quando há guerra, por exemplo. Porém, eu continuo a escrever sobre Gaza e seu levante. Escrevi que o que ocorreu em Gaza foi o levante do gueto de Gaza. As pessoas tornaram-se agressivas.” Essa referência ao levante do gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial traz à mente uma parte simbólica da “historiografia” de Israel. “Isso pode aborrecer as pessoas, mas eu continuo a ter plena liberdade de expressão; em meu jornal, mas não somente ali. Também na TV. Não é sempre agradável, mas não posso afirmar que estão tentando me calar.”

Teatro de sombras

Seus anos de experiência na imprensa o permitiram compreender a sociedade israelense e os políticos que a governam. As últimas eleições israelenses, nas quais o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu foi reeleito, são apenas o último episódio controverso, não somente devido aos inúmeros casos de corrupção nos quais Netanyahu está envolvido.

Apesar disso tudo, sua vitória não surpreendeu Levy. “Ele criou essa situação na qual as pessoas acreditam não haver alternativa senão ele. Ele governa principalmente ao espalhar o medo. Mas ele espalha o medo e apresenta a si mesmo como o único que pode proteger seu povo. É um político bastante talentoso com excelente retórica.”

“Ele também criou a situação na qual muitas pessoas acreditam que tais acusações de corrupção são falsas e que ele é simplesmente inocente, uma vítima, e as pessoas se identificam com ele.”

“Gantz jamais foi um verdadeiro desafio e desaparecerá rapidamente do palco político, eu suponho. Mas muitas pessoas votaram nele. De fato, não votaram em Gantz, votaram contra Netanyahu. Há quem realmente deseje destituir Netanyahu,” ele acrescenta.

No entanto, ambos os homens são iguais, ele prossegue. “Após a operação em Gaza, Gantz disse as mesmas coisas que Netanyahu. Quando se fala em assuntos fundamentais, como a ocupação, não há muita diferença entre eles.”

As conexões internacionais de Netanyahu preocupam Levy, assim como sua amizade com governos de extrema-direita no Brasil, Estados Unidos e Hungria.

“Netanyahu pode ser amigo somente de gente assim. Porque nacionalistas e neofascistas encontram uma linguagem em comum com outros fascistas… De fato, ele não pode se preocupar sobre quem é antissemita ou não, porque, no fim do dia, o que importa é manter a ocupação. Isso justifica tudo para ele.”

Palestinos protestam contra o “Acordo do Século”, planejado pelo presidente americano Donald Trump
como suposta solução ao conflito Israel-Palestina, em Ramallah, Cisjordânia, 2 de julho de 2018
[Shadi Hatem/Apaimages]

O acordo do século: uma piada

São estes “amigos” que apoiam Israel nos acordos de paz e na anulação de acordos prévios, incluindo aqueles que discutem a solução de dois estados para o conflito Israel-Palestina. Netanyahu, segundo Levy, “não fala mais sobre isso”. “Mesmo quando tocava no assunto, era algo fácil para ele porque sabia que não teria resultado algum. Era a melhor forma de manter a conjuntura sem fazer absolutamente nada.”

“A solução de dois estados está morta. Está morta devido à enorme quantidade de colonos e isso criou uma situação irreversível. Temos agora quase 700.000 colonos e ninguém poderá evacuá-los e ninguém sequer pretende evacuá-los. Sem isso, não há estado palestino; é uma piada.”

O último plano de paz americano – intitulado “acordo do século” – está previsto para ser revelado em junho, após o fim do Ramadã, mês sagrado de jejum para os muçulmanos. Este, afirma Levy, é a “piada do século”.

“Somente dará a Israel mais alguns anos para manter a ocupação e continuar com seus crimes. Ninguém pode levá-lo a sério. É produto de Trump e [seu genro e conselheiro] Kushner, quem pode levar isso a sério?… Não pode ser sério porque não é justo. Estas pessoas são completamente enviesadas. Como você pode sequer considerar ouví-las quando é tão evidente que estão de um único lado e quando são tão agressivas com o lado oposto? Que tipo de mediadores são eles?”, conclui Levy.

O acordo de Trump – cartum [Sabaneeh/Monitor do Oriente Médio]

Mesmo a declaração da ONU de que a Faixa de Gaza sitiada se tornará “inabitável” por volta de 2020 não pôde salvar os palestinos de Gaza, explica Levy. “Isso não é uma guerra. É uma terrível prisão. De tempos em tempos, os prisioneiros tentam resistir, tentam protestar. Mas os guardas logo respondem severamente. Então ficam quietos por alguns meses, mas voltam a se rebelar contra as grades de sua prisão. Será assim para sempre.”

“Não há plano para Gaza porque ninguém se importa. Mesmo a Europa não se importa muito. Sequer menciono os Estados Unidos. Todos ficam quietos e inertes. Até que vem a catástrofe. Porém, enquanto não estiver em suas portas, ninguém se importa.”

Israel contra os judeus

A ocupação convenceu Levy a votar pelos partidos árabes-israelenses na última eleição. Ele justifica isso “porque, para mim, é difícil votar para qualquer partido sionista. Não posso mais me identificar com qualquer ideia sionista.”

“Não sou antissionista,” reitera. “Pós-sionismo é a definição apropriada. Simplesmente percebi que o sionismo alcançou seu propósito; agora se trata de criar uma democracia, somente uma democracia. Todos os direitos iguais. Não vejo outra solução senão a solução de estado único.”

O debate sobre a ocupação de Israel e as soluções ao problema trouxe acusações de “antissemitismo” ao jornalista.

“Isso paralisa a Europa, porque ninguém quer ser rotulado como antissemita. Portanto, eles não falam sobre as leis internacionais e sobre como elas são violadas pela ocupação ilegal. Eles continuam a se desculpar por serem antissemitas, ignorando completamente os crimes perpetrados pelas forças de ocupação.”

“Há antissemitismo no mundo, mas não tanto quanto aponta Israel,” ele explica. “As pessoas na Europa, pessoas conscientes poderiam dizer que temos o pleno direito, ou melhor, o pleno dever de criticar a ocupação, de ser antissionista.”

Há esperança por mudanças a partir dos judeus na diáspora, em particular na América? “Há mudanças, com certeza, mas não exageremos. Ainda assim, o establishment judaico apoia Israel cegamente, em apoio automático à ocupação e a Netanyahu. Sim, há uma nova geração e um novo ambiente ali, o que é bastante promissor porque é bastante liberal. Mas há um longo caminho pela frente, porque, para muitos deles, opor-se a Israel ainda é algo que não podem fazer. Contudo, este movimento caminha de mãos dadas com as mudanças no partido Democrata [dos Estados Unidos]. Isso é ainda mais promissor porque é a primeira vez na história em que Netanyahu é chamado de racista. Jamais ouvimos isso antes.”

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