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O Capitólio brasileiro e o inimigo interno

Ataques às sedes dos Três Poderes por bolsonaristas, em Brasília, Distrito Federal, 8 de janeiro de 2023 [Marcelo Camargo/Agência Brasil]
Ataques às sedes dos Três Poderes por bolsonaristas, em Brasília, Distrito Federal, 8 de janeiro de 2023 [Marcelo Camargo/Agência Brasil]

Passada mais de uma semana dos eventos de 8 de janeiro de 2023, temos a estranha sensação de “cansaço por repetição”. Como uma enfermidade de LER (lesão por esforço repetitivo), nos deparamos com aquilo que todos já sabíamos que teria plena condição de ocorrer. Era visível, presumível, previsível. Uma ação de tipo “rebelião de extrema-direita” – com a sempre presente bandeira e simbologia sionista (conforme aqui mesmo relatado) – e uma evidente fragilidade e contaminação fascista dentro do aparelho de segurança do Distrito Federal.

As chances de ações desta envergadura ocorrerem eram muitas, incluindo manobra diversionista. O fato de haver tido um bom esquema de segurança no dia 1° de janeiro – quando Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse como presidente – não tem relação alguma com a lealdade das cadeias de comando da Secretaria de Segurança do Distrito Federal (SSPDF), da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) e tampouco do Comando Militar do Planalto (CMP).

Militares golpistas

Este comando do Exército – do Planalto – tem sob sua responsabilidade a defesa territorial de Brasília, Plano Piloto e cidades-satélites, além do eixo e entorno. Logo, defende o centro do poder político brasileiro. Uma de suas unidades regimentais é o Batalhão da Guarda Presidencial (BGP) –  “surpreendentemente”, no momento da escrita deste artigo, seu site estava fora do ar –, cujo dever é proteger o Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo. A infiltração é tamanha que o coronel comandante do BGP protegeu e orientou os fascistas que invadiam e promoviam quebra-quebra, tentando impedir sua prisão. Sete dias antes, o CMP participou da Operação Posse, cuja desmobilização se deu logo em 2 de janeiro.

Como se não bastasse, o que era evidência ficou explícito. Como é possível imaginar acampamentos golpistas diante de quarteis e unidades militares sem o aval de seus comandantes? Como é possível cogitar que o comandante de cada OM (no jargão, Organização Militar) não tivesse o aval direto do Alto Comando de cada uma das forças, com ênfase para a força terrestre, o Exército Brasileiro? É simplesmente impossível tamanha displicência, o que evidencia uma conspiração golpista contra o governo eleito.

Qual a hipótese mais provável? Que a provocação da baderna dos fascistas levasse ao ministro da Defesa José Múcio Monteiro a propor um decreto de Garantia de Lei e Ordem (GLO), colocando os militares – eles mesmos, os maiores responsáveis pela desestabilização – como novamente o esteio da república. Acertadamente o presidente se negou a avançar nesta proposta absurda de GLO, evitando se tornar refém do generalato.

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Mais conspiração explícita

Informações como essas citadas acima temos em abundância, incluindo o afastamento do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (PMDB), o pedido de prisão de seu Secretário de Segurança, Anderson Torres, exonerado na mesma tarde. Torres, por sinal, esteve nos Estados Unidos com o ex-presidente Jair Bolsonaro na véspera do atentado golpista. Em uma busca e apreensão em sua residência, foi encontrada a minuta de um decreto que na prática promovia um golpe de Estado e cancelava o resultado das eleições de 2022.

Temos todos os elementos explicitados. O bolsonarismo tenta criar uma base na Florida, tal e qual os gusanos da direita cubana, mescla de máfia e oposição de extrema-direita. Existem apoios transnacionais – como de Steve Bannon e do próprio Donald Trump –, redes de inteligência sionistas (como já denunciamos algumas vezes), lealdades paralelas em áreas sensíveis do Estado brasileiro, nos três níveis de governo, e uma parcela do empresariado disposta a tudo e dotada de comportamento agressivo e ilegal.

O que afinal assusta essa gente toda propondo derrubar um governo eleito em base a uma coalizão amplíssima? Por que se voltam contra suas políticas mais básicas como: alguma distribuição de renda; certo grau de desenvolvimento semiautônomo; inserção regional e, através desta, no Sul Global; uma Política Externa Independente (PEI), altiva e soberana e muito distante do trumpismo e de outras sandices?

Parece pouco, e é, mas para a máquina de desinformação da extrema-direita aliada dos sionistas – e sua “infantaria” neopentecostal – operante no Brasil, esses itens acima listados já são “muito” e deveras “ameaçadores”. Não custa lembrar todo o sufoco e as distintas pressões que passou Juscelino Kubitschek, tanto para assumir como para governar, incluindo quatro rebeliões militares e um golpe preventivo. Repito: tivemos um golpe em curso, é possível – e provável! – que os conspiradores tenham planos B, C, D e E, até esgotar-se o alfabeto, além de alguma alternativa para a decadente liderança de Jair Bolsonaro e seu círculo mais direto.

Algumas análises positivas do momentum político 

Quais as condições para nova tentativa de desestabilização do governo através da mobilização da extrema-direita? Entendo que é necessário analisar por outros pontos de vista tamanha exposição e fragilidade. Alguns colegas tiveram leitura distinta – ao menos dos avanços políticos decorrentes do obtuso movimento bolsonarista – e como tal devo compartilhar.

O professor de história da Unisinos Hernán Ramírez, argentino cordobês radicado no Rio Grande do Sul, listou tais posições: “Mesmo com a depredação, vejo mais aspectos positivos do que negativos. O inimigo da democracia ficou exposto, com parte de seus mecanismos à mostra. Assim, parte desse mecanismo e de seus membros está sendo destruída e presa. Observa-se que a sinergia institucional agiu rapidamente, a dobradinha Lula/Dino e Moraes decepou a ramificação em Brasília do mecanismo sem grandes ônus para o governo entrante. Deste modo, o bolsonarismo sai enfraquecido, inclusive um dos seus governadores politicamente morto, Ibaneis. Do modo como agiu, o bolsonarismo perde legitimidade narrativa perante a sociedade e atravessará uma nova fase entrópica, afastando aderentes ocasionais e mais moderados. Na parte da resposta, a comoção provocada pela truculência do ato legitima socialmente a ação repressiva e de limpeza institucional. Tudo isso abrirá uma brecha para a desbolsonarização das estruturas estatais colonizadas por seus partidários. Assim sendo, a oportunidade, bem aproveitada, permitirá a emergência ou fortalecimento de muitos elementos novos.”

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Ato por democracia, em resposta, na Cinelândia, Rio de Janeiro, em 9 de janeiro de 2023 e ataques antidemocráticos a Brasília, em 8 de janeiro de 2023, respectivamente [Reprodução/MEMO/Redes sociais]

Já o colega Sérgio Souto, professor de jornalismo da UERJ aponta o momentum político para o contragolpe jurídico punitivo: “A chance de ‘cortar cabeças’ é agora – rápido e fundo. Porque não haverá outra oportunidade tão cedo. Há uma convergência mais ampla, com um governo não conservador, mídia hegemônica a favor e Estados Unidos no contragolpe. Obviamente nenhum milico vai dar golpe sem aval de poderes fáticos para além do Partido Militar. Logo, é hora de Lula fazer a limpa, até porque Bolsonaro perdeu a serventia para os donos do poder. Por isso, o momento é agora; mais adiante, não sabemos. É hora de uma cruzada – usemos a gramática do inimigo – pela retomada do espaço público de todos que prezem pelo campo democrático. Não há espaço para golpistas, seja por ação ou por omissão”.

Dando sequência à análise de Souto, vejo como fundamental esse avanço na “limpeza” da contaminação golpista no aparelho de Estado e na criação de uma hegemonia antifascista em todos os níveis. Vejo como muito difícil a lealdade dentro dos aparatos de segurança – em especial nos governos estaduais – e mais complicada ainda a subordinação do Alto Comando das Forças Armadas a suas definições constitucionais.

Mas é uma situação sine qua non; ou o movimento popular (e o partido de governo) empurra a coalizão governista para criar essas condições, ou simplesmente o presidente pode ficar cada vez mais refém de seus apoiadores circunstanciais.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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