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Brasil, o bloco dos BRICS e o paradigma dos EUA

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Bandeiras dos países integrantes do BRICS [@EVILSAGAGemini]

No atual momento do capitalismo global, qualquer defesa de abandono do BRICS, o bloco que emerge das relações intra-asiáticas e traz consigo o Sul Global, é uma mescla de estupidez com subordinação. Pois bem, foi exatamente isso que Guga Chacra defendeu abertamente ainda na primeira semana do terceiro governo de coalizão liderado pelo presidente Lula.

Raramente escrevo respostas públicas, ou dou sequência a polêmicas com colegas – sejam jornalistas e acadêmicos – e menos ainda se os contrários têm mais exposição do que este analista (o que não é nenhum pouco raro de acontecer). Escrevendo prioritariamente através deste portal especializado em Oriente Médio (e contando com a reprodução posterior), ficamos sobre o fio da lâmina da cimitarra ao criticar os “brimos”. Desta vez, no entanto, não temos alternativa.

Dois profissionais de mídia com origem árabe dividem o posto de maior visibilidade no Brasil quando se trata da cobertura internacional, editoria de “mundo”. Ambos são paulistanos nascidos no mesmo ano. Um deles é Jamil Cezar Chade (Jamil Chade) e o outro é Gustavo Cerello Chacra. O primeiro é um orgulho da colônia e autêntico representante de nossa orgulhosa linhagem de letras e coragem, como José Carlos Amaral Kfouri (Juca Kfouri), Georges Bourdokan e Radua Nassar.

Infelizmente, como venho repetindo o bordão, nem tudo são flores e menos ainda, sequer as “flores” exalam perfumes como na letra do Seu Angenor de Oliveira, o mestre Cartola, em As rosas não falam. Dentre os milhões de mulheres e homens de origem árabe, temos de tudo. Da estirpe dos acima citados, até expoentes do quilate de David Nasser, cuja trajetória causa tamanha perplexidade que se eu fosse adjetivar, certamente o texto ficaria preenchido com termos inapropriados.

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Já no século XXI, Guga Chacra é um dos expoentes desta diáspora que insiste em se subordinar ao Ocidente. O ex-atleta de polo aquático e nadador convicto, tem mestrado em relações internacionais pela Universidade Columbia, proeminente instituição de ensino de Nova York. Não é difícil associar o capital cultural adquirido na adolescência e juventude paulistanas com a perspectiva de classe para rotular sua pregação normativa. Lamento, mas desta vez a sociologia política acertou em cheio, sendo válidas todas as rotulações mais presumíveis.

Guga Chacra e o paradigma dos EUA

Na página 17 da edição impressa de O Globo (5ª, 5.1.2023) o citado jornalista assina uma coluna intitulada O que Lula fará com o Brics? O libelo de seis parágrafos e um olho destacado em negrito reforça a tese de que o bloco não tem mais “sentido”, considerando as controvérsias da guerra russo-ucraniana. Vale observar que não havia nenhuma palavra quanto a quebra dos Acordos de Minsk, cuja primeira versão foi assinada em setembro de 2014 e rasgada pelos presidentes da Ucrânia, o ex Petro Poroshenko e o atual Volodymyr Zelensky. Na sequência, Guga ressalta a queda do crescimento da China, o reforço do poder no entorno de Xi Jinping e, obviamente, as tensões com Taiwan.

A tese está sintetizada nesta pergunta: “Qual o interesse de Brasil, Índia e África do Sul de integrarem um bloco junto com a Rússia, vista como inimiga no mundo ocidental?” O mestre em RI por uma universidade da Ivy League insiste em só falar de comércio internacional e na venda de petróleo russo para uma Europa, de fato desesperada com as sanções impostas pelos Estados Unidos, aceitas de forma subalterna pelo governo supranacional liderado por Alemanha e França. Logo, diz que os valores dessas três democracias não poderiam estar coligados com regimes autocráticos em seus sistemas políticos domésticos.

Se esta fosse a norma, o mundo seria governado ainda por “democracias parlamentares”, cujos Estados e classes dominantes exercem poderio militar direto em quase todo o planeta. É mais que correta a crítica aos modelos e regimes políticos não-democráticos, mas em escala mundo, as maiores ameaças a estabilidade, progresso e bem-estar material vêm justamente das “democracias ocidentais”. Através da projeção de poder dos Estados Unidos e aliados da OTAN, populações inteiras são alvos constantes de ataques por aeronaves não-tripuladas, o apartheid sionista pode exercer sua tirania invasora em todo o Bilad al-Sham, o povo palestino segue sob ocupação e bases militares são mantidas em todo o planeta.

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Deste modo, podemos supor que o BRICS já seria importante caso fosse uma aliança militar, bloqueando os intentos de intervenção imperial de quem promove golpes de Estado na América Latina desde o século XIX. Mas não é essa a virtude do bloco e obviamente Guga não fala nada de economia política internacional e o privilégio exorbitante do dólar como moeda corrente das transações em escala mundo. Por que será?

Guga Chacra ignora as sanções e o acesso ao Sistema Swift?

Um mínimo de correção é necessário até mesmo para defender posições absurdas. Afirmar que o Brasil deve abandonar o bloco do BRICS é simplesmente ignorar o poder das sanções impostas pelos Estados Unidos, através do sistema internacional de pagamentos e mensagens comutadas (ver sanções do Swift). Excluir um país do Sistema Swift e rebaixar a nota de classificação de suas instituições financeiras é um ataque mais perigoso do que um bombardeio aéreo.

Não é por acaso que o Novo Banco de Desenvolvimento, também conhecido como NDB (o Banco dos BRICS), tem uma composição mais transparente e com menor prepotência. O suposto multilateralismo de 2000, com instituições financeiras conectadas ao Swift, é tão multilateral como a entidade sionista é “democrática”. Se a projeção do NDB conduzisse uma parte do mundo rumo a uma “nova arquitetura mundial”, já justificaria a existência e a participação plena. Ou seja, a composição do banco e do bloco pode vir a tornar nulo o efeito de sanções econômicas e de acesso ao sistema financeiro.

É preciso somar essas possibilidades com o incremento industrial – tanto de indústrias consolidadas como nascentes –, incluindo a necessária reconversão verde e de economia sustentável. Assim, o BRICS pode de fato ser o derradeiro pêndulo da balança na hegemonia dos Estados Unidos, aliados e asseclas. Obviamente, esta é a preocupação de fundo do citado jornalista.

Só nos resta a perplexidade além da indignação. Como é possível alguém ter mestrado em relações internacionais por uma prestigiada instituição e ser incapaz de falar o óbvio?

Que valores são esses?

Nos indignamos com os “valores” defendidos por Guga Chacra. Sejamos francos. Caso os países impusessem demandas aos demais membros do sistema internacional para estabelecerem relações econômicas, o planeta viveria em conflito declarado permanente. Não podemos aceitar um argumento “jornalístico” com dois pesos e duas medidas (double standards journalism). Assim como a desejada democracia ampliada não pode ser sinônimo de neoliberalismo e pobreza para a maioria; o desenvolvimento intra-asiático e Sul-Sul nem de longe implica em apoiar autocracias.

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Cobertura da crise de refugiados na Ucrânia é ‘racista’ – Charge [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

No tipo ideal, podemos defender o avanço democrático com a plena soberania e desenvolvimento. O que não podemos aceitar é a indignação seletiva. Porque ao invés de defender absurdos, esse descendente de árabes não se alinha na defesa da libertação da Palestina e a condenação do apartheid sionista? Será que o grau de alienação é tamanho que supera a boa formação intelectual? Ou simplesmente o jornalista citado está reproduzindo a linha dos Estados Unidos?

Todas as resultantes são sofríveis.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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