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Milhares tomam as ruas no segundo aniversário da explosão em Beirute

Parentes das vítimas da explosão no porto de Beirute – 4 de agosto de 2020 – realizam ato em frente ao Palácio da Justiça, na capital libanesa, em 7 de fevereiro de 2022 [Houssam Shbaro/Agência Anadolu]

Milhares de manifestantes marcharam emocionados pela capital libanesa Beirute nesta quinta-feira (4), para recordar dois anos desde a calamitosa explosão na zona portuária, que devastou a cidade, matou ao menos 220 pessoas e deixou dezenas de milhares de desabrigados.

Os manifestantes denunciaram o fracasso do governo em desvelar a verdade por trás da explosão e asseverar justiça às vítimas e seus familiares.

As informações são da agência de notícias Reuters.

Como uma lembrança lúgubre do desastre, partes do enorme silo de grãos da região portuária – em ruínas devido desde a explosão, em chamas há semanas – desabaram na tarde de ontem, a poucos metros do local da manifestação, convocada para a orla de Beirute.

O silo de concreto rachou e tombou, emitindo uma nuvem de fumaça aos céus da capital. Manifestantes cobriram suas bocas em sinal de choque.

“Ver essa fumaça – ainda mais eu, que estava presente na cidade quando ocorreu a explosão – me traz uma memória terrível”, relatou Samer al-Khoury de 31 anos. “Foi essa mesma fumaça da torre que, naquele dia, cobriu os céus”.

Os manifestantes vestiam camisetas com marcas de mãos em vermelho, em memória das vítimas. O protesto seguiu da sede do Ministério da Justiça à orla da capital mediterrânea; então, ao parlamento, no centro da cidade.

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A catástrofe de 4 de agosto de 2020 devastou grande parte de Beirute, considerada uma das maiores explosões não-nucleares da história humana. O desastre decorreu da combustão de toneladas de nitrato de amônio armazenados indevidamente desde 2013.

“É importante estarmos aqui hoje porque é preciso pedir justiça sobre o incidente”, insistiu Stephanie Moukheiber de 27 anos, libanesa radicada no Canadá, que está em seu país para visitar familiares. “O que aconteceu não foi um erro, foi um massacre. Destruiu uma cidade inteira”.

Diversas figuras de autoridade no Líbano foram acusadas de responsabilidade pela catástrofe. Contudo, até então, ninguém foi indiciado. Críticos reafirmam que a impunidade e demora no processo são sintomas da corrupção sistêmica dentre a elite governante, cujas ações também culminaram no colapso sociopolítico que assola o país.

O Líbano se levantará das cinzas [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Dias após a explosão, o Presidente do Líbano Michel Aoun confirmou que fora alertado sobre o acúmulo de produtos químicos na zona portuária e alegou ter instruído agentes de segurança a agir adequadamente. O premiê na ocasião, Hassan Diab, também corroborou ciência.

Não obstante, a população permaneceu no escuro, diante da surpresa e do pânico de uma explosão iminente.

A investigação sobre o caso está paralisada há mais de seis meses.

Em uma missa realizada em memória das vítimas, também nesta quinta-feira, o patriarca Beshara al-Rai – principal autoridade cristã no país levantino e chefe da Igreja Maronita – alegou que Deus “condena” aqueles que obstruem o processo e reafirmou apelos por um inquérito internacional.

“O que mais vocês querem para agir?”, questionou o sacerdote, bastante influente no Líbano sob o sistema sectário de compartilhamento de poder. “O que mais vocês querem para além deste crime do século que nos ocorreu?”

Familiares das vítimas recorreram ainda ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos para estabelecer um inquérito internacional, ao protestar em frente à embaixada da França em Beirute. Após o cataclisma e desde o colapso financeiro, o regime em Paris – antiga metrópole – se tornou principal contato entre o Líbano e a comunidade internacional.

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Ao lado dos manifestantes, Aya Majzoub – pesquisadora da ong Human Rights Watch (HRW) – contestou, no entanto, a colaboração francesa, ao denunciar o governo de Emmanuel Macron por obstruir uma investigação abrangente por razões políticas.

A embaixada francesa não respondeu as acusações, até então.

No Twitter, o Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres recordou “dois anos sem justiça” e fez um novo chamado por uma “investigação imparcial, vasta e transparente”. Seu apelo foi ecoado pela delegação da União Europeia em Beirute.

Na quarta-feira (3), o Papa Francisco manifestou esperanças de que o povo libanês encontre justiça e conforto. “A verdade não pode ser encoberta”, afirmou o pontífice.

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Os restos do silo de grãos começaram a ruir nesta semana. Pedaços desabaram no último domingo – 31 de julho – e blocos de cimento tombaram nesta quinta-feira.

Um incêndio tomou a torre nas últimas semanas. Autoridades libanesas insistem resultar das altas temperaturas do verão mediterrâneo, que deflagraram chamas nos grãos abandonados sob processo químico de fermentação.

Rumores dentre a população comum, todavia, advertem para ações do governo cujo intuito é derrubar a estrutura e encobrir a memória material da catástrofe.

“As cicatrizes ainda estão aqui … marcas internas e externas”, destacou Omar Jheir de 42 anos, dono de um café em Beirute, também atingido pela explosão. “Ainda não vimos justiça”.

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