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Fogo no porto de Beirute reacende traumas à margem de aniversário do desastre

Parentes das vítimas da explosão no porto de Beirute – em 4 de agosto de 2020 – protestam em frente ao Palácio da Justiça do Líbano, na capital do país, em 17 de janeiro de 2022 [Houssam Shbaro/Agência Anadolu]

Um incêndio que dura dias no porto de Beirute reacendeu memórias dolorosas da explosão que devastou a capital libanesa em 4 de agosto de 2020, à medida que o governo luta para extinguí-lo junto da indignação que se avizinha pelo segundo aniversário da catástrofe.

As informações são da agência de notícias Reuters.

O fogo queima devagar nas ruínas dos enormes depósitos de grãos da zona portuária. A noite adquiriu um tom alaranjado, sobretudo nos bairros mais atingidos pela explosão química que destruiu a cidade, desabrigou milhares e matou ao menos 215 pessoas.

Autoridades insistem que o incêndio foi resultado do mero calor do verão, que culminou na combustão de grãos que fermentavam a esmo nos silos devastados pelo desastre – uma das maiores explosões não-nucleares da história humana.

O incidente é visto no Líbano como marco da corrupção e da má gestão da elite política que compeliu o país a seu pior colapso econômico desde a guerra civil.

“Meu coração queima junto com o porto … nos fizeram voltar ao dia do crime”, afirmou Mona Jawish, cuja filha morreu no desastre. Mona participou de um protesto nesta quarta-feira (13), convocado por familiares das vítimas que exigem que os silos sejam preservados em memória de seus entes queridos.

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O porto ainda se assemelha a uma zona de guerra ou desastre natural – símbolo dos fracassos veementes da elite nacional, responsável por três anos de crise fiscal que mergulhou o país na miséria, na escassez de insumos básicos e na carência de serviços públicos.

Nenhum oficial de destaque foi responsabilizado pelo desastre.

Inquérito paralisado

O Ministro da Economia Amin Salam afirmou a jornalistas reunidos no porto, nesta quinta-feira (14), que não é a primeira vez que um incêndio se deflagra nos armazéns abandonados.

Com fios de fumaça às suas costas, Salam alegou que profissionais tentam resolver o problema, mas insistiu tratar-se de algo complexo, dado que a pressão do ar gerada pelos helicópteros do exército instiga novo risco de que o fogo se propague.

“A equipe técnica está estudando a melhor alternativa”, reiterou Salam. “Não estamos dizendo que não há solução, mas estamos tentando encontrar soluções cujas consequências não sejam maiores do que aquelas que tentamos evitar”.

Além disso, remover os grãos das torres portuárias impõe risco de desmoronamento.

O Serviço de Defesa Civil afirmou que o incêndio foi causado pela fermentação de “materiais nos arredores dos silos” – que podem reaver sua combustão dentro de dias, caso o fogo seja enfim extinto. A agência pública anunciou ainda que é proibido aproximar-se da área.

O inquérito sobre a explosão de 2020 permanece paralisado devido à obstrução de indivíduos e grupos políticos de influência.

Parentes das vítimas refletem a desconfiança nas autoridades, ao apontarem razões para crer que o incêndio fora deflagrado deliberadamente, com intuito de destruir os silos e a memória material da explosão decorrente do armazenamento indevido de nitrato de amônio.

Questionado sobre os rumores, Salam aludiu à tese da fermentação.

“Eles dizem que estão preocupados com a segurança pública”, alertou Ilham al-Bikai, cujo filho faleceu na explosão. “Mas este incêndio já queima há mais de uma semana”.

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