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Novo escândalo de spyware acende alerta: ‘democracia israelense mais perto de acabar’

Website da empresa israelense NSO, responsável por desenvolver o spyware Pegasus, em 21 de julho de 2021 [MARIO GOLDMAN/AFP via Getty Images]

Há décadas, analistas alertam que a autoproclamação de Israel como “única democracia no Oriente Médio” representa uma falácia, promovida para assegurar favores das potências ocidentais. Dentre os argumentos, estão a infindável ocupação e as diversas violações de direitos humanos, ao tentar subjugar politicamente milhões de palestinos.

Grupos de direitos humanos e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) concluíram que, longe de uma democracia, as práticas de Israel caracterizam um estado de apartheid.

Alguns autores insistem que Israel, ao menos dentro da chamada Linha Verde, configura uma democracia, mesmo que esteja sob ameaça. Novos indícios e anos de repressão contra liberdades civis, contudo, abalaram a postura dos críticos mais otimistas do regime israelense.

Em artigo publicado pela rede Ynet News, o jornalista Einav Schiff apontou que a democracia de Israel está “mais perto do que nunca de acabar”. Notório colaborador do jornal israelense Yedioth Ahronoth, Schiff mencionou o mais recente escândalo envolvendo o spyware Pegasus, desenvolvido pela empresa NSO, supostamente utilizado pela polícia para invadir celulares de opositores civis, críticos do governo de Benjamin Netanyahu e mesmo prefeitos.

Uma reportagem do jornal de negócios The Calcalist revelou que um ex-oficial do serviço de segurança interna Shin Bet foi o primeiro membro das autoridades a adotar o aplicativo espião contra cidadãos israelenses. Segundo as informações, a polícia adquiriu a ferramenta em 2013 para empregá-la contra ativistas, políticos e outros.

O Grupo NSO é assolado por sucessivos escândalos, acusado de fornecer tecnologia a governos estrangeiros, a fim de monitorar alvos públicos. Em julho, uma investigação global do The Washington Post, The Guardian, Le Monde, entre outras redes de imprensa, confirmou que o Pegasus invadiu aparelhos de eventuais dissidentes em todo o mundo.

Schiff constatou que o “uso do malware contra civis é um verdadeiro pesadelo” e descreveu o escândalo como exemplo de que “interesses corporativos irresponsáveis, junto de instituições corruptas, mostram que Israel é mais parecido com seus vizinhos do que faz parecer”.

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Debates sobre a morte da democracia, destacou Schiff, tornaram-se rotina: “Na última década, sobretudo ao longo do turbilhão político dos últimos anos, tanto em Israel quanto no restante do mundo, o medo pelo ‘fim da democracia’ converteu-se em um reflexo quase involuntário”.

Todos os cidadãos, segundo o articulista, passaram a receber então o tratamento conferido aos residentes palestinos, em franco detrimento do devido processo e do estado de direito.

“É realmente tão surpreendente saber que o ex-vice-diretor do Shin Bet não quis perder seu tempo em coletar evidências … quando poderia simplesmente exercer táticas tomadas da cartilha repressiva contra os palestinos?”, acrescentou.

Schiff advertiu que as ferramentas empregadas para subjugar os palestinos podem alvejar cidadãos israelenses. “É isso que dizem quando falam da ‘ocupação’; algo que desliza de um lado ao outro, não sem ser vista, mas sem chamar atenção, até invadir seu aparelho celular”.

O maior problema, de acordo com o autor, é a “cooperação” entre os setores público e privado para espionar indivíduos comuns. Quando deflagrou-se o escândalo, Israel desviou da responsabilidade ao sugerir algo que nos parece hoje absolutamente ficcional: que o grupo NSO por conta própria, isto é, clandestinamente.

“O verdadeiro drama nem é o inevitável confronto entre o estado e as corporações, mas sim a colaboração entre as partes”, concluiu Schiff. “Tudo isso tem potencial sem precedentes para efetivamente dar fim à democracia”.

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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