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Israel se arma ‘como não víamos há anos’ em campanhas contra Hamas e Irã

Atirador de elite [Pixabay]

A propaganda do medo ao Irã já é usada em Israel até para venda de assinaturas. Um anúncio tipo pop-up, de leitura única, do Jerusalem Post, alerta que hackers iranianos teriam invadido o site em janeiro e,  como uma espécie de profilaxia, propõe uma assinatura premium, mais cara, aos leitores.

O Irã é descrito pelo primeiro-ministro Naftali Bennet como  “cabeça de um polvo que envia constantemente rivais, representantes e seus tentáculos” e tornou-se estrela da vez para justificar elevados gastos em armamentos. Para enfrentá-lo, Israel está  “mudando para uma abordagem de ataque constante e não de defesa constante”, nas palavras do primeiro-ministro, o que requer mais dinheiro.

A narrativa israelense em favor do orçamento bélico contra inimigos é a de um Estado frágil e ameaçado. “Os sistemas de Israel ficaram em parafuso por vários anos”, alegou Bennet nesta segunda-feira, ao discursar na Comissão de Defesa e Assuntos Estrangeiros do Parlamento, o Knesset. “Estabilizamos o sistema e aprovamos um orçamento. A economia de Israel é forte, com crescimento de 7% … devido a esse crescimento, estamos pegando muito dinheiro e investindo no fortalecimento das FDI (Forças de Defesa de Israel) … de uma forma que não víamos há anos. Esse fortalecimento é importante para a nossa existência ”, argumentou.

No caso do Irã, o cerne do discurso é a possível retomada do acordo nuclear rompido unilateralmente pelo ex-presidente americano Donald Trump em maio de 2018, e que agora segue em negociação com os Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido. As tratativas derrapam nos senões de lado a lado. Os Estados Unidos querem um acordo provisório de dois anos, durante os quais o Irã mandaria tudo que enriqueceu em urânio para a Rússia para mostrar boa vontade. O Irã não confia no que virá depois de esvaziar seu estoque de urânio, e quer garantias: um acordo permanente. Israel, por sua vez, não aceita sequer a ideia de que seu principal aliado negocie com seu principal inimigo.  E faz negócios em cima disso.

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Apesar de algumas declarações de disposição em aceitar um “acordo bom” mas considerá-lo impossível, o primeiro ministro foi taxativo no Congresso: ” Israel não está obrigado ao que está escrito nesses acordos se eles forem assinados, e Israel continuará a manter plena liberdade de ação a qualquer momento e em qualquer lugar, sem limitações ”. As especulações sobre o que seria um “bom acordo”, caminham paralelas ao fluxo de investimentos americanos nas FDI.

O ano começou com um negócio de  US$ 3,1 bilhões, para a compra de uma nova frota de aviões F35, aeronaves de reabastecimento, helicópteros CH-53K, munições aéreas avançadas, sistemas de defesa aérea, plataformas marítimas e terrestres e sistemas cibernéticos.

A outra estrela dos investimentos militares Israelense está bem mais próxima de Israel: a resistência em Gaza. O Hamas, que governa a faixa que equivale em área à Zona Leste de São Paulo com um terço de sua população, é alvo permanente das campanhas antiterrorismo. Gaza tem sido o campo de provas e teste de eficácia de peças do arsenal de barreira, inteligência e ataques que Israel vende a uma clientela globalizada.

Em maio de 2021, quando ameaças à Al-Aqsa e tentativas de despejo no bairro Sheikh Jarrah, de Jerusalém, desencadearam reações a partir de Gaza e onze dias de ataques contra a faixa, o espetáculo acompanhado ao vivo pelo mundo foi desastroso. Israel demonstrou sua capacidade destrutiva derrubando casas, prédios, instalações essenciais, colocando abaixo escritórios de mídia, desalojando e destroçando famílias e matando crianças. Mas não venceu a resistência palestina que se espalhou por todos os territórios ocupados, nem deu conta de barrar os foguetes do Hamas.

Propaganda da arma smash, que elimina alvo no primeiro tiro com tecnologia incorporada pela empresa israelense Rafael,  [Publicidade da Smart Shoteer]

Contra da humilhação imposta às FDI, os Estados Unidos não hesitaram em assinar a venda de US$ 735 milhões em armas guiadas de precisão para Israel, além de recursos para fechar os buracos expostos do domo de ferro – sistema de proteção aérea contra mísseis.

O Reino Unido também fez sua parte. No dia 18 de maio, no calor dos ataques à Gaza, o governo britânico aprovou  US$ 125.000 em vendas de armas, um valor quase simbólico perto dos US$ 18 milhões em equipamentos militares destinados a Israel em 2018.

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Assim como o avanço do acordo com o Irã tem levado o primeiro ministro a se explicar no Congresso,  a resistência em Gaza tem sido assunto israelense nas abordagens e advertências sobre “coordenação de segurança” junto à Autoridade Palestina. Nos dois casos, Israel aumenta seus negócios de guerra exibindo força dentro de casa. Com tecnologia própria ou importada nesses acordos, empresas israelenses avançam no desenvolvimento de seus catálogos de armamentos onde eventualmente se lê que são “testados em campo”.  Qualquer anúncio de um drone armado de nova geração em Israel lembra o cerco à Gaza, sem precisar que se diga.

A nova arma leve para acoplar aos não tripulados que a empresa israelense Rafael Advanced Defense Systems está desenvolvendo, o SMASH Dragon, tem mais funcionalidades do que a anunciada, que é a de  proteger o domo de ferro contra os foguetes inimigos. O sniper remoto é uma das novidades 2022 da linha SMASH usada em 2021. Em lugar da câmera de rastreio, uma arma de precisão pode voar com os drones e fazer disparos teleguiados exatos.  Sua inteligência de rastreio e gatilho foi criada para permitir eliminar, com um único tiro, qualquer alvo escolhido, parado ou em movimento, a distâncias de  até 120 no solo, ou até 300 metros em vôo, conforme a velocidade e posição, e pode ser acoplado tanto a uma aeronave como a um veículo terrestre ou mesmo ao corpo de um soldado –  fazendo de qualquer fardado um atirador de elite, preparado ou não.

A tecnologia, de acordo com a empresa, já vem testada com fogo real, como outros armamentos exportados por Israel com eficácia comprovada.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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