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Jornal dos EUA luta contra tentativas para render-se a Israel

Pilha de jornais e revistas, 14 de janeiro de 2015 [MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images]

Um jornal local no estado de Arkansas, no sul dos Estados Unidos, denunciou pressão para comprometer-se a jamais boicotar Israel, ao passo que mais e mais estados americanos aprovam legislações arbitrárias para criminalizar a prática.

Em artigo publicado no The New York Times, o fundador do Arkansas Times, Alan Leveritt, recordou um ultimato do Colégio Técnico Pulaski, enunciado em 2018.

“Para continuarmos a receber dólares de seus anúncios, teríamos de asseverar por escrito que nossa empresa não estaria engajada no boicote a Israel”, observou Leveritt.

O jornalista descreveu a demanda como “surpreendente” e questionou então “por que teríamos de assinar um termo de lealdade a um país no Oriente Médio?”, a despeito de sequer cogitar engajar-se em sanções contra a ocupação. “Nossa resposta foi não”.

“Não assumimos posições políticas em troca de anúncios”, acrescentou. “Caso assinássemos os termos em questão, teríamos renunciado de nossos direitos à liberdade de consciência”.

O compromisso teria prejudicado ainda o papel do periódico como entidade jornalística, insistiu Leveritt, de modo a torná-lo “indigno das proteções consagradas pela Primeira Emenda”.

A exigência, não obstante, não é um caso isolado. Ao contrário, faz parte de uma vasta campanha para proteger a ocupação israelense das denúncias difundidas pelo movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS).

Lançado em 2005, o BDS encoraja o boicote a bens israelenses fabricados em assentamentos ilegais nos territórios palestinos — isto é, Cisjordânia e Jerusalém Oriental —, além de sanções a empresas que conduzem negócios com a ocupação.

Senadores e congressistas trabalharam nos últimos anos para conter o BDS e dissuadir o potencial apoio à iniciativa civil. Como resultado, mais de 30 estados — a maioria nos Estados Unidos — aprovaram legislações para criminalizá-lo.

O Arkansas juntou-se à onda antiboicote em 2017.

A razão pela qual seu estado aderiu prontamente aos esforços sionistas, segundo Leveritt, é sua base conservadora evangélica, de modo que seu parlamento é dominado por um grupo que acredita que a existência de Israel antecede o Segundo Advento de Jesus Cristo.

Um dos principais defensores da lei antiboicote no Arkansas foi o ex-senador Bart Hester.

“Há certas coisas que acontecem em Israel antes do retorno de Cristo”, afirmou o político republicano, em certa ocasião. “Haverá fome e doenças e guerra; e o povo judeu retornará à sua terra. Então, neste momento, Jesus Cristo voltará para a terra”.

Hester crê também que “todos, judeus ou não, que não aceitem Cristo acabarão no Inferno”.

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Tais citações, junto de um ideário segundo o qual judeus não serão salvos do Apocalipse, causa há anos perplexidade em torno de uma aliança estranha entre o regime sionista e setores evangélicos ocidentais — com tendências notoriamente antissemitas.

Leveritt condenou a pressão para apoiar Israel como inconstitucional, ao reiterar que “estados estão trocando seus direitos consagrados pela Primeira Emenda por um aparente suporte incondicional a um governo estrangeiro”.

O jornalista contestou ainda o pretexto de que o boicote não representa discurso político, mas sim instrumento econômico — portanto, sujeito à regulação pública. “Este argumento é absurdo. Afinal, o mito fundador de nossa pátria inclui o boicote ao chá”.

Apesar de contradizer a constituição, estados como o Texas aprovaram leis similares nos últimos dois meses, ao proibir entes públicos de “conduzir negócios com empreiteiras que boicotam combustíveis fósseis … fabricantes de armas ou associações comerciais”.

O Arkansas Times registrou um processo para revogar a medida, com base em violações constitucionais, como entidade representada pela União Americana por Liberdades Civis (ACLU).

Seu caso chegou ao 8° Circuito da Corte de Recursos e uma decisão deve ser proferida em breve. Leveritt admite receios de uma derrota em âmbito estadual, em detrimento dos direitos constitucionais. Neste caso, o processo deverá prosseguir à Suprema Corte.

“Tais legislações antiboicote, que permitem ao governo utilizar recursos para punir a dissidência, poderão encorajar leis ainda mais repressivas, que arriscam estrangular a liberdade de expressão nos próximos anos”, advertiu seu relato no New York Times.

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