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As origens da atual crise do Líbano

Manifestantes libaneses se reúnem em frente ao prédio do banco central em Beirute em meio a uma crise econômica, em 23 de abril de 2020 [Anwar Amro/AFP/Getty Images]

Há cerca de dois anos, o Líbano vem atravessando uma das piores crises de toda a sua história como estado independente, criado em 1920 pela França, da qual conquistou a independência em 22 de novembro de 1943. De 1920 a 1943, o Líbano era um protetorado da potência imperial francesa. Neste pouco mais de um século de existência como entidade política, o Líbano tem passado por muitas turbulências, com guerras, conflitos e crises. No entanto, a atual crise, que já dura cerca de dois anos, é tida como a pior da história libanesa. Vale ressaltar que quando falamos em história libanesa, estamos nos referindo aos acontecimentos na República do Líbano desde o ano de 1920. Embora seja de história milenar, o Líbano antes de 1920 sempre fez parte da Grande Síria, composta pelos atuais territórios dos estados da Síria, Líbano, Jordânia, Palestina e Israel. A criação do estado de Israel em 1948 veio a trazer instabilidade e conflitos para a Grande Síria e demais estados árabes.

Embora esteja sem conflito armado no momento, o Líbano hoje está longe de ter paz. A atual crise é sobretudo política, econômica e social. As múltiplas faces da crise e os seus rápidos desdobramentos, com consequências nefastas para a população libanesa, principalmente as camadas menos favorecidas do estrato social, tem causado espanto e perplexidade. Cidadãos libaneses que testemunharam a Guerra Civil Libanesa (1975-1990), e que de alguma forma ou de outra foram por ela atingidos, dizem que o atual momento pelo qual o Líbano passa é pior que a própria guerra. Eles alegam que, mesmo em vigência do conflito armado, não havia os colapsos econômico, político e social pelos quais o país dos cedros está sendo assolado hoje. Embora a crise atual tenha a sua expressão mais grave na área econômica, a atuação política dos governantes e dirigentes libaneses tem sido decisiva para a ominosa situação vigente.

A começar, o Líbano, desde o término da Guerra Civil Libanesa, em 1990, selada com o Acordo de Taif, ocorrido na histórica cidade da Arábia Saudita, tem vivido um estado de exceção. Está longe de ser um estado normal, isto é, com instituições vigorosas e com um estado robusto. O que prevalece no Líbano, desde 1975, são os poderes paralelos, sejam eles internos ou externos, em detrimento do próprio estado. Não podemos deixar de citar, aqui, que a própria estrutura e o modelo concebido do estado libanês, desde a sua criação, estão eivados de contradições, favorecendo conflitos e predispondo à instabilidade. A divisão “sui generis”, quase única no mundo, das esferas do poder entre os diversos grupos religiosos muçulmanos e cristãos é o pano de fundo para todo o complexo e pouco compreendido cenário libanês.

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As forças externas que tem sequestrado a autonomia e real soberania do estado libanês são tanto as potências imperiais quanto as regionais. Tem havido inegável influência de potências globais como Estados Unidos e França. Mas, sobretudo, há influências de potências regionais como Irã, Arábia Saudita e Israel. Já as forças internas que constituem o estado paralelo são compostas por organizações paramilitares que desde 1975 tem atuado de uma forma mais incisiva no território libanês. Desde 1990, o único grupo paramilitar que prevaleceu foi o Hezbollah, sob o pretexto de empenhar atividades de resistência nacional contra Israel. Desde o ano 2000, com a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano, e mais ainda, desde o ano 2005, ocasião da retirada das tropas sírias do território libanês, o Hezbollah tornou-se o detentor do poder de fato no Líbano. É um estado paralelo com poderes maiores que o estado libanês oficial. É importante aqui lembrar que o Hezbollah é um braço político e militar do estado iraniano no Oriente Próximo.

O resultado de tudo isso é uma instabilidade constante, com crises cíclicas que exaurem os recursos e as perspectivas do estado libanês. A atual crise, que já dura cerca de dois anos, levou todo o sistema econômico e financeiro libanês ao colapso. A libra libanesa teve uma desvalorização grande, em mais de dez vezes, ultrapassando o valor de quinze mil libras libanesas para cada dólar americano. Houve confisco das contas bancárias dos cidadãos libanese. Faltam produtos básicos de consumo, como pão e remédios. A crise do combustível disparou o seu preço e inaugurou uma fase de escassez nos postos de abastecimentos, com as cenas humilhantes dos cidadãos libaneses aguardando por horas a fio para encher os tanques dos seus automóveis.

O Líbano é uma longa história de desastre e crise – Charge [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Enquanto isso, a classe política libanesa, composta pelos senhores da guerra civil libanesa (1975 a 1990), continua alheia e indiferente ao sofrimento da população. A corrupção política no Líbano é uma das piores do mundo. A falência econômica do estado libanês e o confisco das contas bancárias dos cidadãos (que é um verdadeiro golpe financeiro) são sinais da corrupção da classe política libanesa. Além disso, o luxuoso estilo de vida da maioria dos políticos libaneses levanta fortes suspeitas sobre a origem dos recursos financeiros que bancam este estilo de vida.

Os impactos desta grave crise no Líbano fazem-se sentir, sobretudo, sobre os ombros dos mais pobres e necessitados. Os preços dos produtos da cesta básica dispararam. Os salários dos militares, policiais e funcionários públicos despencaram com a desvalorização da moeda libanesa. Grandes contingentes da população libanesa e dos refugiados foram empurrados para abaixo da linha da pobreza. A preocupação básica do cidadão libanês comum passou a ser a obtenção dos itens de primeira necessidade para a sobrevivência. Hospitais sofrem com falta de insumos e medicamentos. Pacientes com câncer ficam sem tratamento pela escassez dos quimioterápicos. Os transportes e a atividade econômica como um todo são estorvados pela aguda escassez de combustíveis.

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O êxodo de libaneses torna-se, mais uma vez, uma alternativa mutias vezes únicas para os cidadãos residentes no país dos cedros. A indiferença, cinismo e absoluta falta de compaixão dos políticos libaneses fazem a crise crescer e a desesperança aumentar. Enquanto isso, a milícia do Hezbollah continua firme e forte na condução dos destinos do estado libanês, com controle quase absoluto de todas as esferas do poder no Líbano. A revolta de 17 de outubro de 2019, que levantou como palavras de ordem a rejeição de toda a classe política libanesa, foi derrotada pela repressão patrocinada pelo Hizbollah, que continua a defender e patrocinar o sistema que levou o Líbano ao caos jamais visto.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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