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O fator Lula no destino de Bolsonaro

Lula fala ao Brasil: entrevista coletiva. [ Ricardo Stuckert]
Lula fala ao Brasil: entrevista coletiva. [ Ricardo Stuckert]

A ideia de uma frente ampla eleitoral, para além dos partidos de esquerda e o PT, para vencer Bolsonaro 2022, deu água antes de começar a formar-se. Quem nutriu esperança, por causa do encontro de cavalheiros de Lula e FHC, logo se deu conta do engano ao ver  FHC aconselhando Lula a não candidatar-se, na esperança de uma terceira via que salve  o “centro político” esfacelado. A conjuntura e a liderança inquestionável de Lula também não permitem ao PT sonhar em arriscar outro nome ou legenda para a candidatura majoritária.  As últimas pesquisas, com 43% para Lula e 29% para Bolsonaro e 6% para outros nomes, demonstram desinteresse do eleitorado na tal terceira via. Mas sendo a política no Brasil uma montanha russa, a luta continua para Lula e para todos.

O PSDB já foi a terceira via anti-Lula em 1994, jogando com uma fobia de esquerda  inoculada na vida nacional durante a ditadura militar, mas de presença então ainda fresca.

Passou o tempo –  dois mandatos de FHC – e a esquerda chegou à presidência denunciando  o “medo”  como real inimigo da transformação. Na época, Regina Duarte  emprestava sua figura de heroína de telenovela para pintar Lula como o terror dos seus pesadelos. “Eu tenho medo” – declarou a atriz. A esperança vai vencer o medo, prometeu o slogan da campanha de Lula em 2001.

Após quatro eleições vitoriosas do Partido dos Trabalhadores, a maquinaria da produção de fantasmas sofisticou-se para interromper o ciclo. A Lava Jato, um combo de judiciário e mídia instalado em março de 2014, logo após a reeleição de Dilma Roussef,  fez melhor do que Regina Duarte em caracterizar o partido de Lula como bicho papão.

Capa de Veja, de 5 de maio de 2017, mostra Moro não como juiz, mas como acusador

Capa de Veja, de 5 de maio de 2017, mostra Moro não como juiz, mas como acusador

O  inferno da rejeição ou do linchamento público ameaçado pela turba de justiceiros também pesou para calar políticos e juizes que se viram no centro das decisões durante os anos de caçada moral e extermínio da lucidez.

O governo de Lula e Dilma enfrentaram críticas de parte da esquerda pelas concessões às elites e ao capital privado, e o sentimento de frustração desses setores até se misturou ao processo de desconstrução da aura petista em nome do combate à corrupção. Mas não foi isso que impulsionou o golpe institucional de 2016 seguido do desvio eleitoral de 2018 no Brasil.

Desta vez, não o medo, mas o ódio puro e simples foi transformado em arma política contra o bom senso, levando ao impeachment injustificado da presidenta, à prisão e remoção de Lula da corrida eleitoral, e a uma massa de eleitores a eleger um exterminador do futuro para a presidência.

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Bolsonaro é assumidamente o apelo ao passado autoritário somado à loucura  de fechar os olhos ao avanço do coronavírus. As forças democráticas travam  uma intensa batalha para lembrar, pelo menos, que a ciência ainda é o antídoto ao obscurantismo e que não é possível dar tantos passos para trás, à custa de tantas vidas.  Esse mergulho do país no abismo fundamentalista explica que nomes de centro-direita como FHC já admitam que, afinal, se for para escolher entre Lula e Bolsonaro no fim de tudo, está bem, pode não haver alternativa senão votar em Lula Lá.  Os arrependidos do golpe não querem se envolver com a reeleição de um presidente que é chamado de genocida nas redes sociais.

Mas isso é bem diferente de esperar a rendição desse campo a uma frente eleitoral com Lula dentro e à frente. É mais fácil ver surgir uma frente de esquerda  tentando fazer Bolsonaro despencar antes da eleição polarizada.

A derrocada do ‘’mito” pode vir pelo avanço da CPI da pandemia, que já está expondo as vísceras do governo nas negociações fraudulentas de vacinas envolvendo funcionários e falsos intermediários. Ou pode vir por uma eventual abertura para o  super impeachment – a somatória das mais de cem denúncias em pedidos de impeachment guardados na gaveta do presidente da Câmara Federal, esperando por um empurrão. Este sim tem potencial de unificar uma grande frente. Talvez não entusiasmando o próprio Lula, já que um processo de impeachment pode arrastar-se até o último ano do mandato do presidente e competir com o processo eleitoral em que seu time está ganhando.

O super impeachment reúne representantes de 11 partidos de oposição: o Cidadania; Partido Comunista Brasileiro (PCB); Partido Comunista do Brasil (PCdoB); Partido da Causa Operária (PCO); Partido Democrático Trabalhista (PDT); Partido dos Trabalhadores (PT); Partido Socialismo e Liberdade (PSOL); Partido Socialista Brasileiro (PSB); Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU); Rede Sustentabilidade; e Unidade Popular (UP), além de lideranças de organizações sociais.

As pressões de Lula nas pesquisas, CPI no Congresso e da esquerda na Câmara estão estão levando as forças bolsonaristas a preparar uma artilharia pesada de guerra para manter-se no poder.

Não vamos esquecer as fakenews que jogaram fermento nos preconceitos vomitados em família e as igrejas que empurraram fiéis à militância política nas redes sociais de arminha na mão, “em nome de Jesus”.  Não vamos esquecer que a propagação do lixo foi aceita em troca da entrega do patrimônio brasileiro a interesses privados, que continua sendo cumprida com a entrega da Eletrobras.

O que está em jogo sequer é a vitória ou não de Lula, ao final e ao cabo, em 2022, mas todo significado que a resiliência de sua candidatura implica em uma luta mais profunda que precisará ser ganha. A Justiça não é brinquedo de linchadores e justiceiros.  A esperança, desta vez, terá de vencer o ódio que tomou conta de nossa política, de nossa convivência e de nossas instituições.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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