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Pelo bem da diplomacia, precisamos de um novo governo

Entrevista com o deputado federal Alencar Santana Braga, integrante da Frente Parlamentar Mista pelos Direitos do Povo Palestino
Deputado Alencar Santana. [Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados]

O advogado Alencar Santana, aos 45 anos, vem de uma bem sucedida atuação política no Estado de S.Paulo, tendo sido vereador duas vezes em Guarulhos, duas vezes deputado estadual, o mais votado do PT naquela reeleição e, em 2018, elegendo-se deputado federal. Em Brasília, entrou para a Comissão de Constituição e Justiça, tendência natural de sua formação como advogado constitucionalista. É também vice-líder da minoria, pelo seu partido. Mas Brasília o aproximou também de outra frente de ação conjunta que desafia integrantes do Congresso na política internacional: a Frente Parlamentar de Solidariedade com o Povo Palestino.

No mês de maio, quanto as bombas israelenses caiam sobre Gaza, a Frente articulou um posicionamento conjunto, condenando os ataques, denunciando o estado de apartheid imposto pela ocupação e repudiando os laços econômicos, políticos e militares do governo brasileiro com o Estado de Israel.

Santana e outros 58 deputados e senadores apontaram a responsabilidade e a provocação israelense “desde que colonos de extrema-direita praticaram invasões, saques, violência e apropriações ilegais de propriedades no bairro árabe de Sheikh Jarrah, além das violações inaceitáveis em todos os aspectos a Mesquita de Al-Aqsa e a Igreja do Santo Sepulcro, na cidade ocupada de Jerusalém”.

Nesta entrevista ao Monitor do Oriente Médio e ao Fórum Latino-Palestino, o deputado Alencar Santana diz que a esperança em mudanças radicais na política brasileira na área internacional depende da saída do atual governo. Para ele, é essa troca de comando que poderá salvar a diplomacia brasileira e retomar o apoio do país à causa palestina.

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Nós acompanhamos. no início de 2019, a montagem de uma frente parlamentar que pudesse dar apoio concreto ao povo palestino. Agora, durante os recentes massacres pelos bombardeios em Gaza, vimos a frente se manifestar de forma dura, responsabilizando Israel. O que levou o senhor a se integrar a essa frente?

Considero a causa Palestina, a luta do povo palestino em ter reconhecimento para um território próprio, uma luta justa, uma luta que, aliás, praticamente quase todos os países do mundo reconhecem. Mas infelizmente o povo palestino ainda não conseguiu ver sua busca concretizada. O povo palestino, ao longo do tempo, tem sido atacado, violentado. Sofre um conjunto de agressões desumanas, cruéis, e não há sentido em permitir que isso continue. A nossa identificação com essa luta por justiça é que fez com que, aqui, a gente se integrasse a essa frente parlamentar. Foi por reconhecer essa luta como muito importante, eu diria para o mundo inteiro. Todo mundo sabe que o que acontece é injusto, mas não cessa porque outros interesses acabam impedindo.

Todo mundo sabe que é injusto, mas uma grande parte considera que os palestinos são agressores, não é? Considera que quem está se defendendo, no caso, é o Estado de Israel. Qual a sua visão sobre o último conflito?

Quando você luta pela terra , não luta tão somente para ter uma casa enquanto indivíduo, Luta por uma casa enquanto um povo. Esse direito é muito mais amplo do que qualquer outro. Sem dúvida alguma, quem não compreende isso ou resiste em aceitar isso não está de fato seguindo princípios elementares, humanos e de justiça social. Quem vê de maneira diferente, com certeza está vendo errado.

Atualmente o governo brasileiro vê de maneira diferente, pois mudou totalmente a política externa com relação ao mundo árabe, especialmente com relação à política e os interesses do Estado de Israel. E como o senhor avalia essa política de Jair Bolsonaro e o que significa para o Brasil essa posição ?

O governo de Israel se alinha a todos os governos autoritários, desumanos do mundo. Então, quem tem o mínimo de civilidade discorda dessa posição do governo atual. Passados inúmeros governos ao longo da história do Brasil, todos tiveram a mesma posição política em relação a Palestina,. Agora nós temos um governo que é o inverso de qualquer governo civilizado do mundo. É um governo atroz que muda a orientação brasileira, o que é lamentável para o país como um todo. É uma vergonha para o Brasil.

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E o que o Congresso pode fazer com relação a isso?

Primeiro a Frente é algo importante, porque simboliza que há parlamentares de diferentes correntes políticas, ideológicos e que tem uma identidade com a causa palestina e que reconhece esse direito. É um espaço de articulação, de conversa, de posicionamento, em relação a isso. Lógico que a decisão formal do país, nesse caso, compete ao governo. A Câmara dos Deputados pode, eventualmente, se manifestar de maneira contrária, mas a posição formal brasileira acaba sendo do Executivo. Porém, acredito que o Congresso precisa ter esse polo de diferença e tem tido. É verdade que tem uma parte bem alinhada a ele politicamente, mesmo na causa palestina que não é um tema unânime no Congresso.

O senhor acredita que existe uma pressão da população evangélica alinhada com Israel nas posições do congresso brasileiro?

Com certeza ela influência muito.

Existe uma perspectiva de solidariedade internacional direta da frente? E como essa solidariedade internacional poderia contribuir pra solução do conflito?

Ninguém vive sozinho no mundo. Os países também se relacionam, portanto, essa frente solidária internacional é importante e é o que vai ajudar a formar a opinião internacional. As pessoas perceberem que não é algo isolado ou uma luta pontual. Ela é muito mais ampla.

Hoje há bastante pressão pelo impeachment do governo Bolsonaro, como movimento que pode também ter um impacto nas relações internacionais, especialmente, da relação com Israel e com a Palestina.

Esperamos a queda desse governo que está fazendo tanto mal ao Brasil, e que na sequência a gente tenha uma mudança radical, na postura política, tanto interna como externa. Com a mudança, creio e esperamos que a gente tenha um governo popular. E com certeza teremos uma mudança radical da postura em toda a relação internacional do país. Não só em relação à Palestina, mas que sem dúvida alguma o Brasil vai voltar a fazer uma diplomacia verdadeira, pautada nos princípios humanitários. .

Então senhor acredita na possibilidade do impeachment, da saída antes do fim do mandato?

Sim, eu acredito.

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