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O lobby árabe na América Latina entre a realidade e a esperança

Protesto contra os ataques em Gaza, em Santiago, capital do Chile, em julho de 2014. O cartaz diz: “Humanidade, somos Palestina!” [Eliseo Fernandez/Scenearabia]

Os primeiros imigrantes árabes na América Latina – aproximadamente em 1850 com a chegada da família Zacharia de Belém, Palestina, seguida por Basil Hajjar em 1877 – se adaptaram e contribuíram para o desenvolvimento da comunidade na região. Segundo estudos e pesquisas do Centro de Cooperação Estratégica AICIK, estima-se em 40 milhões o número de árabes ou descendentes de árabes na América Latina, dos quais cerca de milhões estão no Brasil. A região já teve onze presidentes descendentes desta comunidade nos seguintes países: Brasil, Argentina, El Salvador, Equador (três presidentes), Venezuela, Colômbia e Honduras (duas vezes).

Segundo a pesquisa de Ayman Samir, publicada no Al Bayan, a representação no Senado é de cerca de quinze por cento e na Câmara dos Deputados é de vinte por cento.

Centenas de vocabulário árabe que se tornou parte da linguagem cotidiana em alguns países da América Latina.

Os imigrantes árabes não sofreram tanto com o racismo na região, o que os ajudou a se integrarem plenamente na sua nova comunidade. Eles se adaptaram com sucesso e se tornaram figuras ricas e proeminentes da região, inclusive criando conexões para proteger seus interesses.

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Apesar disso, imigrantes árabes ainda enfrentam uma série de obstáculos como comunidade, principalmente:

  1. Ausência de um projeto pan-árabe em torno do qual eles poderiam se mobilizar e apoiar;
  2. A distância geográfica entre a América Latina e a região árabe;
  3. Dificuldades linguísticas;
  4. A expansão da região latina, que limita e dificulta a comunicação e o transporte;
  5. Os primeiros imigrantes buscavam crescimento financeiro e pessoal, considerando os outros árabes como concorrentes, levando a uma falta de união da comunidade árabe para construir suas instituições, centros de pesquisa e preservar sua identidade. Há algumas excessões como o Clube Palestino no Chile e o Club Homs no Brasil. Com isso, as comunidades árabes na América Latina perderam grande parte da sua identidade e do conhecimento da língua árabe.

O reflexo no conflito árabe-israelense:

Essa integração da comunidade árabe na região latino-americana deveria refletir em maior preocupação com questões do Oriente Médio nas relações internacionais. Quanto ao conflito árabe-israelense, é preciso considerar que a comunidade árabe nem sempre é consistente em suas orientações políticas quanto a defesa do povo palestino.

Quando comparamos os interesses comerciais da América Latina com os países árabes e com Israel, vemos que a diferença na importação é significativa. Segundo dados do Centro de Comércio Internacional , Israel representa apenas 6,11% das exportações da América Latina e Caribe para a região do Oriente Médio e Norte da África (MENA); foram cerca de 1,6 bilhões de dólares em produtos exportados para Israel em 2020, e 26 bilhões de dólares referentes a todos os produtos exportados para a região do MENA em geral. Apenas a Turquia, Árabia Saudita, Emirados Árabes e Egito foram responsáveis por 19,5 bilhões de dólares desse total (72,97%).

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Apesar do comércio árabe-latino-americano ser mais vantajoso do que o comércio com Israel, os interesses árabes, e, especialmente, os direitos palestinos, não são defendidos. Pelo contrário, a América Latina continua a defender os interesses do estado sionista, validando a ocupação e o estado de Apartheid. Caso os árabes pressionassem a região para que os interesses dos palestinos fossem garantidos, a resposta mais pragmática da região deveria ser o rompimento com Israel.

Charge [Rafael Costa]

Em suma, caso a região receba a atenção que merece, a integração da comunidade árabe – com os seus sucessos políticos, econômicos, sociais e de mídia alcançados na América Latina poderia beneficiar os países do MENA e, principalmente, refletir em reais avanços para a causa palestina a nível internacional.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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