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Relembrando a guerra da independência do Brasil na Bahia

Desfile de 2 de julho de 2009, em Salvador, Bahia [Alberto Coutinho / AGECOM]

O quê: Independência do Brasil na Bahia

Onde: Bahia, Brasil

Quando: 2 de Julho de 1823

Reprodução da obra de Pedro Américo, “Independência ou morte” de 1888 [Reprodução/Itamaraty]

A história da independência do Brasil é contada em diversos livros didáticos pela perspectiva da região sudeste; como pacífica, marcada pelo dia 7 de setembro 1888, com o grito de independência às margens do Ipiranga. O quadro de Pedro Américo, “Independência ou morte”, formou o imaginário brasileiro e retrata a independência como gloriosa e sem derramamento de sangue. Entretanto, o processo de independência foi marcado por vários conflitos no nordeste e por uma intensa guerra com grande protagonismo popular na Bahia . A verdadeira independência brasileira só aconteceu em 2 de julho de 1823, quando o povo conseguiu finalmente expulsar os portugueses de Salvador.

Em 1941, o escritor baiano Afrânio Peixoto escreveu em “A causa do ‘2 de Julho’ (Discurso à Bahia)”:

“Ao Sul, fizera-se uma evolução, nós tivemos de fazer uma revolução… No Rio, em S. Paulo, em Minas, fora um movimento do Governo, contra a Metrópole distante; o Norte era, então, o melhor do Brasil, o que os Portugueses mais guardavam: tivemos de fazer, combatendo-os, violência à nossa tradicional fidelidade. No Sul, proclamações e paradas, flores e fitas, aplausos e hinos… aquí, sítio e trincheiras, bloqueio, fome e peste, sangue e morticínio… Lá a adesão, aqui a guerra. Por isso, chegamos tarde, fora de hora, eles a 7 de setembro de 22, nós só a 2 de julho de 23… Mas, só depois de 2 de julho, foi o Brasil, realmente, independente…”

O que aconteceu?

Após a recusa do príncipe regente a voltar a Portugal, em janeiro de 1922, tropas portuguesas ocuparam Salvador com o interesse de garantir que a metrópole ainda tivesse controle da produção do açúcar e do norte do país.

Para submeter o povo baiano às normas de Portugal, o brigadeiro português Inácio Luís Madeira de Melo, leal à corte, foi nomeado para o cargo de Governador das Armas, substituindo o brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães.

Entretanto, os brasileiros não aceitaram o novo comandante e, após a chegada do português, Salvador teve uma batalha de três dias, com cerca de 300 mortos, até a conquista da cidade pelas tropas portuguesas.

Obra de Antônio Parreiras “O Primeiro Passo para a Independência da Bahia”, Palácio do Rio Branco, Salvador, Bahia [Reprodução]

A revolta da população contra os portugueses e as ações autoritárias de Madeira Melo fomentaram esses primeiros conflitos, iniciando o processo de independência da região em 19 de fevereiro de 1822. As tropas portuguesas tomaram o quartel, atacaram casas e invadiram o Convento da Lapa, sob a justificativa de buscarem os revoltosos.

A diretora do Convento, abadessa Joana Angélica, escutou os gritos dos soldados, ordenou que as internas fugissem pelo quintal, e se pôs à porta principal para tentar impedir a invasão. Segundo o Dicionário de Mulheres do Brasil, ela afirmou: “Detende-vos, bárbaros, aquelas portas caíram aos vaivéns de vossas alavancas, aos golpes de vossos machados, mas esta passagem está guardada pelo meu peito, e não passareis, senão por cima do cadáver de uma mulher!”. A abadessa de sessenta anos foi assassinada com golpes de baioneta, tornando-se a primeira mártir da guerra pela independência da Bahia no dia 20 de fevereiro.

Enquanto isso, os militares brasileiros se alojaram no Forte de São Pedro e aclamaram Freitas Guimarães como o comandante das Armas da Bahia. Madeira de Melo reagiu mandando bombardear o forte, os brasileiros estavam em minoria e com pouca munição, então se renderam e muitos foram para o interior.

A cidade virou uma praça de guerra, com diversos confrontos violentos, dominada pelas tropas portuguesas. Depois disso, dezenas de famílias e soldados brasileiros deixaram Salvador para refúgio na região do Recôncavo. No local, a resistência ganhou força, reunindo várias tropas de voluntários para compor o exército, formado, principalmente, por pessoas pobres e sem treinamento militar. Segundo o escritor Laurentino Gomes, “em poucos dias, as vilas e fazendas do Recôncavo se transformaram em imensos campos de refugiados brasileiros. O restante da Bahia aderiu em peso à Independência do Brasil, formando um cinturão de isolamento aos portugueses encastelados em Salvador”

Em Cachoeira, ocorreram as primeiras batalhas contra os colonizadores, após a cidade reconhecer oficialmente a sua lealdade a D. Pedro. As tropas portuguesas responderam atacando com uma canhoneira a comemoração dos baianos em praça pública. A população atacou a embarcação, conseguiu cercar a canhoneira com pequenos barcos, interditou as passagens nos rios e cortou as comunicações e abastecimentos dos portugueses. Após três dias de batalhas, os portugueses, que já estavam sem comida e sem munição, foram obrigados a se render. A cidade de Cachoeira se tornou uma espécie de quartel-general das forças rebeldes.

Para organizar e treinar os combatentes, o príncipe D. Pedro enviou o general francês Pedro Labatut com cerca de 750 soldados para pacificar a Bahia. A estratégia definida foi a de cercar as tropas portuguesas em Salvador, impedindo que recebessem provisões e reforços.

A maior batalha dessa guerra, a de Pirajá, aconteceu quando os portugueses tentaram romper o cerco pela primeira vez, em 8 de novembro de 1822. Nesta batalha, segundo Tobias Monteiro em “A elaboração da independência”, o corneteiro Luís Lopes teria, por conta própria, tocado “cavalaria, avançar e degolar”, após o Major Barros Falcão, que comandava as tropas revolucionárias, dar a ordem de retirada. Os colonizadores teriam se assustado com o movimento, entrado em pânico e recuado. O fato nunca foi comprovado, de acordo com Laurentino Gomes, e não havia cavalaria brasileira na batalha.

Representação de Maria Felipa de Oliveira [Filomena Modesto Orge]

Madeira de Melo também tentou romper o cerco atacando Itaparica. Na ilha, morava Maria Felipa de Oliveira, uma negra marisqueira que teria liderado um grupo de mulheres na luta contra os portugueses. Elas teriam incendiado várias embarcações lusitanas e surrado os portugueses que ousavam desembarcar na ilha. As lendas contam que as brasileiras usavam da sedução como tática de guerrilha; os portugueses as seguiam, elas os embebedavam, tiravam suas roupas e davam uma surra com cansanção (planta que provoca urtiga e sensação de queimadura) e peixeiras.

Após essas duas derrotas e a atuação do almirante Lord Cochrane, que comandou um bloqueio naval, os colonizadores ficaram completamente cercados em junho de 1823. Sem suprimentos, Madeira de Melo e as tropas portuguesas fugiram para Lisboa na madrugada de 2 de julho. Na manhã do mesmo dia, a libertação da Bahia e a verdadeira independência do Brasil foi oficializada após um ano de batalhas sangrentas.

Retrato póstumo de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, de Domenico Failutti
Na Foto: Maria QuitÈria de Jesus Medeiros
Foto: ReproduÁ„o.

Entre os integrantes da resistência baiana, destaca-se a história da heroína Maria Quitéria de Jesus, a “Mulan” brasileira. Filha de um fazendeiro, Maria Quitéria assim que soube dos primeiros confrontos em Cachoeira, cortou seus cabelos, pegou as roupas e identidade do cunhado e fugiu de casa para se alistar no Batalhão dos Periquitos. Com a alcunha de “soldado Medeiros”, ela lutou em diversas batalhas, ganhando respeito pela bravura e habilidade com as armas.

Sua verdadeira identidade só ficou conhecida alguns meses depois, quando seu pai a reconheceu. O comandante deixou que ela ficasse, tornando-a a primeira mulher soldado do Brasil. Maria Quitéria lutou até o fim da guerra da independência, quando recebeu o posto de alferes e a ordem do Cruzeiro do Imperador D. Pedro I.

O que aconteceu depois?

Imagem da Cabocla no desfile de 2 de julho de 2009, em Salvador, Bahia [Alberto Coutinho / AGECOM]

A vitória baiana foi essencial para a unidade e independência do Brasil, expulsando de vez os colonizadores.

A Bahia saiu da guerra extremamente afetada e pobre, principalmente nas cidades que foram palco das batalhas. Entretanto, a data de 2 de julho é lembrada com orgulho e desde 1824 o povo sai às ruas todos os anos em uma grande festa popular para celebrar a independência.

O trajeto do desfile é sempre acompanhado de duas grandes figuras simbólicas: o caboclo e a cabocla, que representam os povos indígenas, negros e mestiços que lutaram pela liberdade.

Neste ano e no anterior, as celebrações foram interrompidas devido às restrições do coronavírus e, segundo o jornal baiano Correio, essa foi a primeira vez na história que a tradição do desfile não aconteceu.

LEIA: Relembrando o golpe militar no Brasil

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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