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O premiado romance “Cadernos do livreiro” é inspirado no sofrimento do cidadão árabe

Entrevista com Jalal Barjas

O jordaniano Jalal Barjas ganhou o Prêmio Internacional de Ficção Árabe , considerado um dos mais prestigiosos prêmios literários do mundo árabe, pelo romance Notebooks of the Bookseller (Cadernos do livreiro).

Jalal Barjas é engenheiro aeronáutico, poeta e romancista, nascido em 1970. Ele tirou proveito do seu curso de voo para dar asas a suas ideias de escrita, agregando o planejamento de trabalhos ficcionais e o desenvolvimento de estratégias com resultados calculados e acurados. Além de receber o Prêmio Booker, ele recebeu o Prêmio Katara de Romance, o Prêmio Refkah Dudin de Criatividade Narrativa e o Prêmio Rokus Bin Zaid Al-Azizi de Criatividade.

O Prêmio Internacional de Ficção Árabe é uma das mais prestigiadas premiações relacionadas ao romance do mundo árabe e tem como principal intuito encorajar a tradução da literatura árabe para outras línguas. O escolhido é premiado com cinquenta mil dólares, além da tradução e publicação de sua obra para o inglês, portanto, o ganhador amplia o alcance de sua obra mundialmente. Essa maior difusão simboliza o crescimento do conhecimento cultural da literatura árabe. “Sempre digo que o leitor é o meu maior prêmio, e quanto mais leitores lerem [a minha obra], mais longe chegam as minhas ideias”, diz Barjas.

O Prêmio Booker é anual com grande concorrência para a classificação na longa lista, composta por 16 romances, meses após o anúncio da longa lista, os seis melhores romances vão para a lista curta que resultará na escolha do romance vencedor.

Segundo uma das juradas da premiação, Safa Jubran, tradutora e professora da Universidade de São Paulo, o romance conta a história de Ibrahim, “o livreiro que perde sua banca e, consequentemente, seu ganha-pão, tornando-se um sem-teto, sofrendo de esquizofrenia, e, que, escondendo-se atrás das máscaras dos protagonistas dos livros que ele lia e amava, acaba praticando uma série de crimes, desmascarando assim as realidades trágicas do mundo árabe”. Jubran diz que este romance vencedor “conseguiu tratar de toda essa temática por meio de uma linguagem rica, refinada e trama coesa e emocionante, trazendo um novo estilo, aplicando diferentes recursos narrativos, sem descuidar das técnicas tradicionais.”

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Quais são as características da personagem central do romance?

Ibrahim tem dentro de si duas personalidades, ele tem uma voz presa dentro de si, é uma personagem assustada e trêmula incapaz de elevar a própria voz. Então, essa voz sai em um momento crucial de sua vida, quando a sua livraria, que garantia a sua sobrevivência, foi demolida, ele se tornou preso político e foi expulso de sua casa por não poder pagar o aluguel. No mesmo período, sua mãe morre e seu irmão emigra para a Europa em busca de seus sonhos. A personagem é deixada sozinha e desse ponto surge o romance.

Ibrahim passa a sofrer de esquizofrenia; a sua outra voz interna o empurra ao extremismo, aos crimes e ao comportamento anormal. O conflito do romance se dá entre esses dois lados de Ibrahim, esse impulso negativo fruto da esquizofrenia e, ao mesmo tempo, sua identidade de livreiro, político e intelectual.

Ibrahim é o filho de Jadallah, que vai à União Soviética para estudar medicina. Jadallah é preso por sua atividade política e sai da prisão chocado com a descoberta de que foi denunciado pelas pessoas de seu vilarejo. Então, decide viver na cidade, deixando para trás o trabalho político e partidário.

Ibrahim foi influenciado pelo trauma de seu pai, adquirindo essa personalidade de extremo medo e cautela. Ele ama seu pai, mas odeia essas características que o tornam uma pessoa solitária, silenciosa e aflita com todos os reveses psicológicos e declínio moral.

Atualmente, a situação do homem árabe é muito ruim; o nível de pobreza aumentou muito e o nível de liberdade e democracia diminuiu. Então, o árabe não vive mais aquela estabilidade que deseja, o mundo árabe está retrocedendo e não avançando. E Ibrahim é um exemplo claro desse homem árabe.

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A narrativa de Os Cadernos de Ibrahim é ambientada em Amã e Moscou, no período de 1947 e 2019. Por que essa escolha temporal e geográfica?

O primeiro momento do romance se passa em dois lugares da Jordânia, Maadaba e Amã, e depois a ambientação é em Moscou. O romance se passa entre 1947-2019 e através dele eu voltei às raízes da crise que está incorporada na personalidade de Ibrahim , a raiz daquela família beduína que viveu na região leste da cidade de Maadaba, numa fase de extrema pobreza por um lado, e por outro, o que restou do feudalismo. Um dos personagens deste romance, Jadallah, passa da sociedade beduína para o vilarejo e depois para a cidade de Maadaba, onde ingressa na escola e adquire consciência política e cultural através da biblioteca e das relações que se desenvolveram entre ele e os seus colegas, tornando-se um político de esquerda.

A obra fala de 1947 a 1948, da fase da Nakba na Palestina, em que esta família beduína teve dois de seus filhos martirizados na guerra de 1948 e outro mais tarde na derrota de 1967. Moscou é referido na história porque Jadallah se mudou do ambiente beduíno para o aldeão da cidade, e então recebeu uma bolsa de estudos na então União Soviética para se formar em medicina, mas lá suas tendências culturais mudaram para se tornar um político ativo e crítico. (…) Esse foi um choque para a comunidade do vilarejo, que contava com o retorno desse jovem como médico.

A família que você mencionou é camponesa ou uma família aristocrática da Jordânia?

É uma família beduína jordaniana, através dela eu monitorei o movimento da comunidade beduína em busca de terra e água até se estabelecer em vilarejo e se beneficiar da estabilidade com o estudo e conhecimento.

O autor Jalal Barjas está refletido de alguma forma no romance? Você pessoalmente sofreu com o exílio e tirania política ou descreveu a sua percepção da realidade?

Eu pessoalmente não sofri com a tirania, mas acompanho as mudanças na sociedade e revelo o sofrimento das pessoas. Se olharmos para as transformações na região árabe, e no mundo em geral, vemos que a humanidade está em declínio; as taxas de desemprego aumentam e a pobreza e o crime crescem. A classe média, infelizmente, está desaparecendo, estamos caminhando para uma divisão entre a riqueza obscena e a pobreza extrema. Essa desigualdade certamente aumentará os índices de violência, crime, extremismo e todas as questões negativas.

A tirania institucional e a falta de democracia são um caminho para o crime em uma sociedade educada e culta?

Ibrahim foi submetido a essa tirania, transformando Ibrahim de um homem culto e consciente a um bandido. Vemos o surgimento de algumas tendências negativas em Ibrahim geradas pela tirania, violência e opressão a que foi submetido.

Hoje, o fator psicológico do cidadão árabe está avançando ou retrocedendo?

Infelizmente, está em declínio acentuado. Quando falamos do fator psicológico, falamos da esquizofrenia sofrida por Ibrahim, e me refiro aqui à esquizofrenia coletiva, não à esquizofrenia individual.

Falamos sobre a vida, mas, como seres humanos, matamos. Falamos de amor, mas praticamos o ódio. Então o que levou a humanidade a esta fase de contradições? Essa é uma forma de esquizofrenia coletiva.

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O Presidente do júri do Prêmio, Shawki Bazie, disse que o romance tirou as máscaras. De quais máscaras ele se refere?

Ele quer dizer que expôs as máscaras das sociedades árabes, revelou corrupção, desemprego, pobreza, nepotismo, favoritismo e o declínio do nível cultural no mundo árabe. Revelou questões que mostram o declínio no estado de progresso árabe.

Por que Ibrahim se passa por personagens ficcionais dos livros que lê e comete roubos e crimes com suas identidades?

A razão para a presença desses personagens é o segredo e o coração do romance. Ibrahim personifica muitos dos personagens de ficção de épocas diferentes, o resultado que o romance quer transmitir é que a era árabe, infelizmente, não mudou, ou talvez tenha mudado muito superficialmente. Assim, eu queria dizer que a crise destas personagens do passado são iguais à crise de Ibrahim em 2019. A crise é única, seu desenvolvimento e mudança nunca ocorreu com o tempo.

Por que você adotou a pluralidade de vozes no romance?

O romance é narrado através de uma série de cadernos, por meio de cada um conta uma história específica, e todas elas se interligam e servem no romance. A razão da multiplicidade de vozes é dar a esses personagens a liberdade de narrar e revelar. Como autor, eu queria ser um democrata nos meus romances e não um ditador, ou seja, não quero impor aos meus personagens aquilo que os faria seguir um caminho.

Qual é o papel dos personagens de ascendência desconhecida, especificamente a Laila?

Se olharmos para a personagem de Laila, Ela não tem família e quer pertencer a uma, quer ter um documento de identidade civil como o resto da população. Enquanto Ibrahim busca uma casa que o abrigue, ambos buscam obter os sentidos mais simples da vida.

Todos os membros do romance buscam estabilidade, o valor principal do romance fala da casa. E nele há uma casa abandonada, o abrigo, onde Ibrahim vai morar com Laila após ficar sem-teto e conhecê-la. Nesse abrigo moram as pessoas que não têm famílias e que procuram por uma família ou comunidade que as ajude e não as rejeite. O lar é importante e necessário para protegê-los de todas as circunstâncias que os rodeiam.

O romance tem uma visão reveladora e mostra a expectativa para o futuro. Se esses elementos negativos permanecerem ao nosso redor, como corrupção, nepotismo, pobreza, ignorância, alto desemprego, diminuição da consciência intelectual e o aumento da insignificância em todos os níveis, a sociedade entrará em declínio e, portanto, metaforicamente, a casa será demolida. Devemos olhar para o futuro exigindo mais liberdades públicas, estabelecendo o princípio da democracia e da justiça social.

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