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A luta de uma apátrida pelo direito de existir

Autor do livro(s) :Maha Mamo e Darcio Oliveira
Data de publicação :30/11/2020
Editora :Globo Livros
Número de páginas do Livro :272 páginas
ISBN-13 :9786586047424

Maha, Soued e Eddy Mamo cresceram no Líbano sem existirem oficialmente: eram apátridas. A condição dos irmãos Mamo reflete um problema humanitário pouco discutido e reconhecido, o de que hoje vivem no mundo cerca de 10 milhões de apátridas, segundo estimativa da Agência da ONU para Refugiados (Acnur).  As consequências são trágicas: uma vida sem registro e, portanto, sem os direitos básicos como educação, saúde e justiça.

O livro “Maha Mamo: a luta de uma apátrida pelo direito de existir” conta a trajetória emocionante da mulher que viveu assim por trinta anos até conquistar a nacionalidade brasileira. Filha de sírios e nascida em Beirute, ela não pôde ser registrada como libanesa porque o país concede a nacionalidade pelo sangue, e não pelo território. A solução seria o registro pela nacionalidade dos pais, mas a lei síria não permite o casamento inter-religioso, e não reconhece a união entre seu pai, cristão, e sua mãe, muçulmana.  Maha e seus irmãos cresceram sem qualquer documento até que em 2014 ela e seus irmãos vieram como refugiados ao Brasil, onde conseguiram a cidadania.

O livro, escrito em conjunto com o jornalista Darcio Oliveira, é dividido entre a infância e adolescência em Beirute, e a migração para Belo Horizonte.  A leitura é fluida, mas ainda assim detalha de forma didática toda a burocracia que foi necessária para a conquista da nacionalidade.  No prefácio da obra, a jornalista Sônia Bridi resume: “Maha e os irmãos cresceram invisíveis às leis e aos direitos, mas longe de serem invisíveis ao mundo. Maha se assegurou disso”.

Na primeira parte, ambientada no Líbano, é descrita a experiência nas sombras.  Uma vida inteira como ilegal no lugar em que nasceu: a dificuldade de encontrar uma escola que a matriculasse, a impossibilidade de participar de viagens e competições com os colegas, o medo constante de uma abordagem policial. E as diversas tentativas de resolver a situação, contando sua história a todas as embaixadas no Líbano. A brasileira foi a única que aceitou acolher os Mamo, concedendo um passaporte “laissez-passer”. Para viajarem, por não terem documentos libaneses, ainda precisaram pagar taxas; o Líbano considerou que os Mamo eram brasileiros e estavam de forma ilegal no país.

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No Brasil, o evento trágico do assassinato de seu irmão Eddy muda o tom do livro, que passa a descrever de forma muito sensivel o luto de Maha e toda a sua resiliência diante da tragédia. Ainda digerindo os acontecimentos, ela decide enterrar seu irmão no Líbano, mesmo estando na lista de banimento do país. A situação complexa tem a ajuda de dezenas de amigos e conhecidos que fizeram todo o possível para realizar e financiar a viagem e o enterro. O episódio evidencia a força de toda a rede de solidariedade construída ao redor dela.

A pertinência e excepcionalidade da história de Maha não se dá apenas por personalizar um problema humanitário pouco conhecido, mas também pela lição de solidariedade. Sua trajetória foi marcada e influenciada pela grande quantidade de pessoas que apareceram em seu caminho dispostas a ajudar: desde a primeira diretora que aceitou matricular os Mamo mesmo sem registros, até Bernardo Laferté, coordenador-geral do Comitê Nacional para os Refugiados, que garantiu e entregou a nova nacionalidade, surpreendendo-a na sede da ONU em Genebra.

A soma de pequenos e grandes gestos de altruísmo levou Maha e Soued a entrarem para a história do Brasil como as primeiras apátridas reconhecidas no país e naturalizadas brasileiras. A gratidão é evidente em cada uma das páginas e a retribuição se dá no seu trabalho como embaixadora da campanha I Belong (Eu Pertenço) do ACNUR, que luta para acabar com a apatridia no mundo até 2024. Com seu depoimento, ela influenciou diversos países na elaboração de leis em favor dos apátridas, como no Brasil, Uruguai e Equador.

O livro exemplifica o impacto de cada ato de solidariedade. Maha escreve que quer compartilhar sua história com “todos aqueles que sonham com uma vida mais justa e, por algum motivo, foram privados desse sonho” para que nunca percam a esperança, e para que os ajude a recuperar a energia.  Maha Mamo é a personificação da resiliência e seu livro é, de fato,  um sopro extremamente necessário de esperança.

ASSISTA: Memo conversa com Maha Mamo

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