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Israel está fracassando na agressão ao Hamas em Gaza

Fumaça e chamas aumentam após caças israelenses conduzirem ataques aéreos na Cidade de Gaza, Gaza, em 13 de maio de 2021 [Ashraf Amra/Agência Anadolu]
Fumaça e chamas aumentam após caças israelenses conduzirem ataques aéreos na Cidade de Gaza, Gaza, em 13 de maio de 2021 [Ashraf Amra/Agência Anadolu]

Enquanto a agressão israelense a Gaza continua pelo terceiro dia consecutivo, há uma convicção nas fileiras do exército da ocupação de que, a menos que fortaleça sua dissuasão contra o Hamas nesta rodada, o movimento poderá retomar os ataques a cada vez que a tensão aumentar em Jerusalém. Embora o exército tenha atacado centenas de alvos do movimento em Gaza desde o lançamento de foguetes no campo de ocupação, o Hamas nunca levantou a bandeira branca.

O exército de ocupação prometeu longas noites de intensos ataques à Faixa de Gaza, mas os israelenses acordaram para uma realidade inalterada, pois houve uma escalada nas rodadas anteriores de combate, com o Hamas intensificando seus ataques e o exército intensificando suas respostas. A julgar por experiências anteriores, essa estratégia não mudará o equilíbrio de poder contra o Hamas, mas permitirá que contenha as chamas.

O Hamas percebeu que, dessa vez, tinha uma oportunidade de liderar a situação em Jerusalém e Gaza no longo prazo. Se a dissuasão israelense não for recuperada, o movimento de resistência palestina não terá medo de intervir e ameaçar agravar a situação em campo sempre que houver tensão em Jerusalém, particularmente na Mesquita de Al-Aqsa.

O novo discurso do Hamas é distintamente ousado e reflete uma autoconfiança altíssima. Embora ninguém esteja interessado em outra Operação Limite de Proteção, há um objetivo claro que o Hamas busca, que é incorporar uma mensagem particular à consciência coletiva palestina.

Até mesmo os protestos em todas as cidades árabes e vilas dentro de Israel refletem a nova esperança do Hamas de uma frente de protesto popular palestina unida em todas as regiões. Assim, os habitantes de Jerusalém agradeceram a Mohammed Al-Deif e as Brigadas Izz ad-Din Al-Qassam que os apoiaram e, ao contrário de Mahmoud Abbas, o Hamas nunca os abandonou. Essas são as palavras dos habitantes de Jerusalém que contam a história da atual escalada.

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Essas palavras deverão incomodar muito as autoridades de ocupação quando as armas pararem de disparar e os israelenses começarem a avaliar o que aconteceu, porque o Hamas se envolveu quando a cena política em Jerusalém e Al-Aqsa estava deserta. Como tal, o Hamas está presente em Jerusalém como protetor da Mesquita de Al-Aqsa. Seus membros vieram de diferentes partes da Cisjordânia, ficando lá por longos dias, e seus gritos dentro da mesquita foram claramente ouvidos nos últimos dias.

Então, as Brigadas Al-Qassam emergiram de Gaza e emitiram um ultimato a Israel, em um sinal inequívoco do apoio da facção aos habitantes de Jerusalém. Não seria surpresa que a popularidade das brigadas disparasse entre a população da Cidade Santa, sabendo que ela batizou esta rodada de “Espada de Jerusalém”, como se quisesse dizer que Jerusalém e Gaza são uma só.

A atual rodada do conflito deu aos líderes do Hamas um senso maior de autoconfiança, mesmo excessiva, ao sentirem força em tudo que se relaciona à luta contra Israel. Eles se convenceram de que podem começar ou terminar a rodada quando quiserem. Gaza começou a emitir avisos que confirmaram a credibilidade do Hamas e irritaram o exército israelense. Mesmo assim, para o Hamas, a mensagem entregue a Israel com o bombardeio de Jerusalém é igualmente importante para os palestinos.

É verdade que o Hamas não quer se envolver em uma nova guerra violenta, mas quer marcar na consciência coletiva a ideia do Hamas como um movimento de resistência, que continua pronto para lutar pela Palestina. No mesmo contexto, há outro fator que incomoda Israel – o fato de os árabes terem apoiado esses protestos depois de testemunharmos uma presença crescente de elementos do movimento islâmico das cidades de Umm Al-Fahm, Iksal e Nazareth em Al-Aqsa durante a revolta recente.

O Hamas lançou em sua batalha atual uma guerra contra a narrativa do status quo e foi bem-sucedido. Tudo correu de acordo com o plano traçado desde o início dos eventos. Partiu da consideração de que Jerusalém é a essência de todo o confronto com os sionistas, ao definir uma meta e buscar incutir na consciência palestina a imagem do movimento como “o defensor de Jerusalém”, narrativa pela qual luta.

O Hamas também buscou provar aos palestinos que a luta armada não é apenas um slogan e que ainda está pronto para sacrificar e pagar o preço, mesmo em Gaza, que é cara e o coração do movimento. O Hamas está levando em consideração o que os palestinos sabem sobre seu adversário político, o Fatah, líder da Autoridade Palestina (AP), que não considera Jerusalém como parte de sua agenda e mantém coordenação de segurança contínua com o aparato de segurança de ocupação.

A polícia israelense intervém nos palestinos, que estavam de guarda para impedir que judeus fanáticos invadissem o Complexo Masjid al-Aqsa, em Jerusalém Oriental, em 10 de maio de 2021 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

A polícia israelense intervém nos palestinos, que estavam de guarda para impedir que judeus fanáticos invadissem o Complexo Masjid al-Aqsa, em Jerusalém Oriental, em 10 de maio de 2021 [Mostafa Alkharouf/Agência Anadolu]

Essa rodada de confrontos não começou por causa de Gaza, como relata a mídia, mas pelo que aconteceu em um lugar de Jerusalém. Isso é o que o Hamas quer gravar na consciência palestina e israelense – que não há mais separação entre Gaza e Jerusalém.

O lançamento de foguetes do Hamas em direção a Jerusalém constitui um novo desafio para Israel, que pode ficar com duas opções: exercer contenção ou responder com força desproporcional, embora saiba exatamente o que o espera. Desde o início do mês do Ramadã, o Hamas construiu sistematicamente sua caixa em torno de Jerusalém, começou a disparar mísseis de Gaza e continuou a emitir avisos por meio de Al-Deif. No entanto, o aviso que emitiu para evacuar todas as forças policiais do bairro de Monte do Templo e Sheikh Jarrah foi o mais forte.

O Hamas tentou incitar uma tempestade em Jerusalém e fazer Israel e a região saberem que a Cidade Santa é o seu território e que qualquer dano causado a Jerusalém terá resposta de Gaza. Isso significa que o movimento continua seus esforços para se tornar o patrocinador da causa palestina e de Jerusalém, de uma forma que representa um perigo real para Israel. Se o Hamas não se intimidar, pode acabar acelerando suas tentativas de obter o controle da Cisjordânia.

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O lançamento de foguetes em direção a Israel é uma conquista consumada, que foi marcada como um ponto adicional para o Hamas, já que o movimento ficará feliz em celebrar posições em Gaza. Por outro lado, o exército israelense será solicitado a tentar atingir alvos importantes, apesar da suposição de que a maioria dos líderes do movimento estão fora de vista. A maioria dos oficiais de segurança israelenses considerou que a marcha dos colonos na Mesquita de Al-Aqsa foi uma receita para explodir e provocar os palestinos. No entanto, a polícia israelense insistiu em autorizá-la sob o comando da liderança política, e o resultado não foi bom.

A agressão israelense a Gaza causou a suspensão das manobras do Estado-maior, que acabavam de começar, e essa é mais uma conquista a ser atribuída ao Hamas. Em vez de se preparar para a guerra em sua frente centro-norte contra o Hezbollah, o exército israelense foi arrastado para o conflito com Gaza, apesar do fato de que a cena palestina era uma parte secundária dessa manobra. No entanto, é uma boa oportunidade para o exército sionista avaliar sua prontidão para lutar em várias frentes e por quanto tempo.

O resultado final é que o exército de ocupação deve examinar as avaliações que a inteligência emitiu nas últimas semanas, ao considerar que o Hamas seria dissuadido e tentaria agravar a situação em Jerusalém, enquanto preservaria a calma na Faixa de Gaza. Essas avaliações provaram estar erradas e podem ter levado à má conduta militar de Israel no confronto, que precisa ser revisada, mas que terá um custo muito maior para restaurar o status quo.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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