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Israel deflagra situação em Gaza para desviar atenção de Sheikh Jarrah

Ataques aéreos israelenses contra Gaza, 10 de maio de 2021 [Mustafa Hassona/Agência Anadolu]

Parece hoje que o destino dos palestinos é enfrentar as piores políticas de apartheid imagináveis impostas pela ocupação militar de Israel.

Negação de direitos, expropriação de terras, expulsão forçada, despejos arbitrários, apreensão de documentos, demolição de casas, bombardeios aéreos, invasões de tanques de guerra, assassinatos deliberados, ataques a refugiados, imposição do exílio e ocupação militar — são todos termos, entre muitos outros, tão cotidianos aos povo palestino.

Os eventos na Mesquita de Al-Aqsa e no bairro de Sheikh Jarrah, nos últimos dias, na cidade ocupada de Jerusalém, servem para recordar que o processo de limpeza étnica jamais foi interrompido desde a Nakba — em árabe, “catástrofe” —, em 1948.

Mais de trezentos civis palestinos foram feridos por balas de borracha, gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral disparados por Israel. A indignação tomou conta à medida que a ocupação israelense intensificou seus ataques e violações durante o mês sagrado do Ramadã, em meio às orações da comunidade islâmica.

A incitação tornou-se evidente com uma nova onda de invasões a Al-Aqsa — terceiro lugar mais sagrado para o Islã —, nas quais fiéis foram isolados, baleados e presos dentro do santuário. As imagens não apenas causaram indignação entre os palestinos como em todo o mundo islâmico, com protestos em diversas capitais.

A natureza agressiva da ocupação militar israelense também é uma lembrança de que os palestinos sob ocupação há 73 anos têm direito legítimo à autodefesa.

A resistência de Gaza

A resistência de Gaza emitiu alertas de resposta à agressão israelense contra residentes palestinos de Jerusalém e Al-Aqsa. O Hamas, que governa o território sitiado desde 2007, reiterou uma fórmula de fato presente para tratar dos lugares sagrados, sobretudo a Mesquita de Al-Aqsa, que os descreve como linha vermelha a não ser ultrapassada.

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Um ultimato foi dado a Israel para deixar o complexo islâmico e libertar os detidos. À medida que os ataques continuaram, a resistência palestina começou a disparar foguetes de Gaza a cidades e assentamentos israelenses em um raio de 45 quilômetros da fronteira.

A ação, porém, despertou o apetite do premiê israelense Benjamin Netanyahu por vingança, após o constrangimento causado pela interrupção de uma sessão do Knesset (parlamento) e de um comício de colonos ilegais em Jerusalém. Ataques aéreos contra Gaza, além de disparos de tanques e navios de guerra, prosseguiram em todo o território. Dentre os alvos, muitas propriedades residenciais, uma escola, uma sociedade beneficente, locais de recreação, fábricas, campos agrários etc.

Até o momento da escrita, ao menos trinta palestinos foram mortos, incluindo dez crianças, pelos últimos ataques. Gaza é uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, com quase dois milhões de pessoas em um pequeno território isolado de 360 metros quadrados.

Oficiais de saúde palestinos temem os efeitos do aumento nas baixas civis em meio a cortes de energia causados pelos frequentes bombardeios israelenses. Israel alega ter como alvo membros da resistência palestina, mas a grande maioria das vítimas é composta por civis. Alguns analistas observam que o intuito de atacar civis é causar perdas dolorosas às famílias para transpor a culpa à própria resistência. Em ofensivas e guerras deflagradas antes contra Gaza, o exército israelense bombardeou com precisão e destruiu edifícios residenciais inteiros.

Segundo ativistas palestinos, Israel desfruta de uma cultura de impunidade no que concerne ao uso excessivo da força contra os palestinos sob pretexto de autodefesa. O estado sionista, desta forma, sempre considerou-se acima da lei internacional. Não obstante, é mais do que hora de responsabilizá-lo.

Imprensa ocidental

Algumas proeminentes emissoras de televisão e agências internacionais começaram seus noticiários ao reportar a suposta violência palestina e foguetes disparados de Gaza a Israel. Tais representantes da grande imprensa costumam concentrar-se na reação e ignorar a verdadeira raiz do conflito — isto é, neste caso, os ataques israelenses a fiéis muçulmanos e a expulsão de residentes e nativos palestinos não apenas em Sheikh Jarrah, mas em muitas aldeias e cidades palestinas em todo o território ocupado, sobretudo Jerusalém.

A política de dupla moral apresentada por líderes mundiais e redes de imprensa deve também ter fim. Os palestinos foram e são vítimas da situação.

Hashtags e resposta internacional

Desde o início da recente rodada de incitação israelense, a hashtag #SaveSheikhJarrah viralizou nas redes sociais, além de outras como #GazaUnderAtack, #AlQuds, #Jerusalem, #AlAqsa, #FreePalestine e #PalestinianLivesMatter — isto é, “Vidas Palestinas Importam”, em referência à campanha do movimento negro contra a brutalidade policial que difundiu-se em todo o mundo.

Houve uma grande resposta global de solidariedade, incluindo por parte de celebridades. Muitas manifestações foram organizadas em âmbito internacional e mensagens de apoio circularam online. De fato, tais iniciativas encorajam a motivação e determinação do povo palestino, ao demonstrar que não está sozinho. Até então, entretanto, nenhuma resolução emergiu dos estados-membros do Conselho de Segurança ou mesmo da Liga Árabe.

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O mais importante é justamente buscar intervenção séria da comunidade internacional em campo, para dar fim às atrocidades e ataques mortais contra os palestinos, além da ocupação militar israelense em Jerusalém e Cisjordânia e do bloqueio a Gaza, para conceder enfim o direito à liberdade de movimento, expressão e culto ao povo palestino. Os países árabes que normalizaram laços com Israel devem usar então sua influência para pressionar o novo aliado a respeitar os lugares sagrados para o Islã ao menos durante o Ramadã e evitar sobretudo o derramamento de sangue palestino pelo avançado aparato militar de Israel.

É hora de Israel deixar de utilizar Gaza como campo de treinamento para armas banidas internacionalmente. É hora de remover as centenas de postos de controle e bloqueios rodoviários que cortam e dividem as cidades e aldeias da Palestina ocupada.

Os palestinos são vítimas

Esforços israelenses intermináveis são feitos para tentar deturpar os fatos e mostrar a ocupação militar como vítima da situação, enquanto civis palestinos desarmados e uma resistência precariamente armada são retratados como agressores e arruaceiros. A poderosa máquina de propaganda instituída por Tel Aviv garante a impunidade de seus crimes e chacinas, cometidos sistematicamente.

Os hospitais em Gaza, sob falta de remédios e tecnologia devido ao cerco militar israelense, já começam a superlotar seus leitos pelo alto número de feridos deixados nesta última ofensiva. A escalada continua na pequena faixa costeira devastada e empobrecida de Gaza. A mortalidade deve aumentar exponencialmente, à medida que avançam os ataques aéreos israelenses.

Não há como falar de paz sem falar de justiça ao povo palestino. Os direitos nacionais devem ser restaurados e a opressão e ocupação militar devem chegar ao fim. Jamais haverá paz no Oriente Médio sem uma solução justa aos palestinos.

Gaza respondeu aos apelos de Jerusalém para resistir à brutalidade dos soldados, mas parece que, na imaginação de Netanyahu e outros oficiais israelenses, o pequeno território litorâneo deve sempre pagar o alto preço por exigir direitos básicos ao povo palestino.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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