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Desprezo pela pandemia e pela democracia no autoritarismo de Bolsonaro

Presidente Jair Bolsonaro [Marcos Correa/Presidência da República]
Presidente Jair Bolsonaro [Marcos Correa/Presidência da República]

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sempre confiou em trunfos explosivos para desviar a atenção dos questionamentos ao seu projeto autoritário. Parece agir por impulso, mas o efeito é sempre o de conseguir trocar manchetes desfavoráveis pelo destaque a seus gestos tresloucados ou que avançam sobre os limites da democracia.

A confiança, porém, começa a se confundir com desespero. Ou seu governo ou a democracia estão sob risco. E não há dúvidas de qual será a opção do governante se a segunda opção estiver ao seu alcance. Bolsonaro é apoiador do golpe militar de 31 de março de 1964 que instalou a ditadura militar no Brasil e, em 17 de março último, conseguiu no Tribunal Regional Federal da 5ª Região o direito de comemorar a data.

[Arquivo Nacional]

É o movimento para militarizar cada vez mais o governo e concentrar em si próprio o controle político das Forças Armadas que o Brasil acompanha nos arroubos autoritários do governo, medindo em cada reação das lideranças públicas e sociais a capacidade das instituições de neutralizar novas tentativas de golpe. Ou de autogolpe, como acabamos de assistir no no Congresso Nacional.

Neste 31 de março de 2021, Bolsonaro celebra o golpe de 1964 acumulando derrotas, em especial a responsabilização pública do presidente da República pelas vidas perdidas para a pandemia – ganhando o adjetivo de genocida nas redes sociais – e a capitulação no caso do ministro Ernesto Araújo, pela incapacidade de sustentar seu representante na política internacional. Acuado pela posição de juízes, a cobrança de parlamentares, e a reação de governantes e prefeitos que se juntaram para tomar o controle do combate à pandemia, o presidente segue disputando com o desastre um protagonismo insano e perigoso.

Charge Carlos Latuff:

 

Se no final da última semana, o ápice da crise parecia concentrar-se na iminente demissão de Araújo, no início da semana o foco já havia sido transferido da diplomacia para o círculo mais próximo das armas. Em movimento brusco, Bolsonaro aumentou o tom e quase diluiu a crise do pupilo em outra crise maior, com as trocas simultâneas na Defesa, Justiça e Segurança . Em mais um dia apenas depois disso, outro lance atropelou as pressões, desta vez vinda das alas militares. Ao ver-se ameaçado por um pedido coletivo de demissão do alto comando do Exército, Marinha e Aeronáutica, Bolsonaro antecipou-se anunciando a troca dos comandantes.

O corte de cabeças já vinha sendo acalentado pelo governo, segundo especulava-se na mídia, após seguidas frustrações. Uma delas teria sido o descontentamento com o ex-ministro da Defesa que não quis manifestar-se contra a anulação das sentenças condenatórias do ex-presidente Lula, como fez antes o general Villas Boas em julgamento anterior. Para intimidar o Judiciário. Mas o espetáculo do assalto a cadeiras sensíveis da Defesa nacional foi além do que se podia especular. Bolsonaro está forte para tudo isso?

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As garras de fora do governo não são suficientes para se sobrepor, pelo contrário, tornam mais evidente o tamanho do golpe sentido por Bolsonaro ao ser obrigado a entregar a cabeça de Ernesto Araújo, íntimo de sua família e ideias, e a mais ousada representação de seu projeto ideológico na relação com o resto do mundo.

Ernesto Araujo não é apenas o subordinado que se despede em carta enviada ao “querido chefe”. Foi o executor de uma diplomacia voltada a encaixar Bolsonaro no panteão da extrema direita supremacista branca no mundo. Não é a toa que, cobrado a explicar o descaso com a compra de vacinas que está levando a milhares de mortes evitáveis no Brasil, o ex-ministro teve a coragem de repetir Mussolini ao homenagear a sigla SPQR: Senātus Populusque Rōmānus, usada pelos fascistas para arrogar-se um supremacismo imperial inspirado na Roma antiga. A vida frente o fascimo não tem valor.

Na política externa, Araújo seguiu à risca o alinhamento da família Bolsonaro com os interesses dos Estados Unidos de Donald Trump, e de Israel de Benjamin Netanyahu e investiu em novos aliados autoritários, como a Arábia Saudita, com o prínicipe MBS, sobre o qual paira a sombra pesada do assassinato de Kashoggi. Na América Latina, sua gestão foi marcada pelos ataques à Venezuela de Maduro e à Bolívia de Evo Morales. Perder seu ministro o nivelou aos fracassados direitistas Mauricio Macri, derrotado na Argentina e os autoproclamados Juan Guaidó, na Venezuela, e Jenine Áñez, na Bolívia, ambos longe do poder e de qualquer chance de concretizar os planos imperiais para a America Latina.

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Bolsonaro perde o porta-voz dos ataques do Brasil à Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), que o ministro tratava como uma espécie de antessala do comunismo. A ferida na própria carne aguça o sofrimento com a derrota de Trump, nos EUA, e a incapacidade de formar governo de Netanyahu, na quinta eleição em dois anos. A bravata é uma espécie de antídoto ineficaz para o ridículo que vai isolando mais e mais o presidente.

Dono de um mandato popular que lhe garante o cargo até 2022, enquanto o Congresso não aceitar os sucessivos pedidos de impeachment, o presidente certamente fará uso dos recursos que ainda tiver para sustentar seu projeto, inclusive de reeleição – se um golpe não for possível antes.

As possibilidades são avaliadas e recentemente barradas pelos demais poderes, em estado de atenção. Bolsonaro tentou cassar o direito de governadores e prefeitos estabelecer lockdown, tentando concentrar em si próprio decisões que podem deixar a pandemia correr solta. O STF não deixou. Ameaçou um estado de sítio, que não convenceu ninguém. Não tem poderes para isso. Enquanto armava a dança das cadeiras no Planalto e nas Forças Armadas, seu aliado, o deputado federal, major Victor Hugo tentou aprovar de sopetão um projeto de lei que lhe daria esses poderes. O parlamento barrou.

A mídia avalia o risco de que o presidente – com cerca de seis mil militares ocupando postos do governo, tente mobilizar pelas bases, soldados e policiais, e um eleitorado fanático que ainda o segue, uma sustentação a seus arroubos golpistas. Zero chance – assegura o vice-presidente, general Mourão, em relação aos militares. Eles não estariam interessados a brigar com a Constituição. Apesar das celebrações do 31 de março, que Bolsonaro chama de “dia da liberdade”, o cerco vai se fechando.

O que vem pela frente, da parte do governo, não se sabe. Com certeza será midiático. Mas sobre o que interessa mesmo, que é o socorro a quem espera por um leito, uma vacina, ou oxigênio, o governo só vai agir sob pressão – assim como foi pressionado a assinar o auxílio emergencial e a aceitar troca do ministro acusado de atrapalhar a compra de vacinas em plena pandemia.

Enquanto as perdas de vidas vão enlutando mais e mais famílias, provavelmente as de muitos de seus apoiadores, a pressão para levar o presidente a agir se desdobra entre o combate à pandemia e a defesa da democracia. Duas prioridades nacionais que não combinam com o atual governo.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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