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Israel-Bolsonaro é pacto de morte, não de vida

Bolsonaro confirmou que pretende mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Foto: Alan Santos/PR

Nesta semana mais uma fake news passou a circular a partir de grupos bolsonaristas: de que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) produziu secretamente uma vacina contra a Covid-19 sob supervisão de cientistas israelenses. O portal Aos Fatos conferiu e revelou em 24 de março: a própria instituição enviou nota desmentindo parceria com o Estado sionista em “quaisquer de suas atividades relacionadas a fabricação da vacina”.

A falsa informação vem na esteira da viagem da comitiva bolsonarista a Israel, em que a inverdade de uma parceria Brasil-Israel para produzir vacina foi devidamente plantada. Não surpreenderia, portanto, se se revelasse que a fake news teria origem nos círculos do poder. Nem seria a primeira vez, já que esse desgoverno Bolsonaro se construiu em cima de mentiras.

Muito ao contrário de uma aliança por vacinas, a parceria Israel-Bolsonaro configura um pacto de morte, não de vida. É o que se revela na insistência da diplomacia sob o comando de Bolsonaro de se aliar contra a mínima justiça aos palestinos e votar ao lado do apartheid nos organismos internacionais.

A delegação bolsonarista, em meio à pandemia que matava brasileiros, costurou mais um episódio nessa direção em sua viagem recente ao Estado sionista. Um dos temas em pauta já conhecidos foi blindar a investigação aberta no Tribunal Penal Internacional, em Haia, Holanda, contra Israel em função do massacre a Gaza em 2014.

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E em 23 de março, duas semanas após a viagem, como revela Jamil Chade em sua coluna no portal UOL, o Brasil atuou como porta-voz do Estado sionista no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Desta vez contra resolução relativa à situação de direitos humanos na Palestina ocupada, que aponta a necessidade de se garantir justiça ante as violações. Como informa Chade, todos os latino-americanos – exceto obviamente o Brasil – e praticamente todos os países europeus votaram a favor do texto, que não obstante acabou passando, por 32 votos a favor, oito abstenções e apenas seis contrários.

Esse pacto macabro é evidenciado ainda nos acordos com a colonização, inclusive militares, consolidando a vergonhosa posição nacional de quinto maior importador destas últimas tecnologias conquistada nos últimos anos.

Lei antiterrorismo

Na semana seguinte ao retorno da comitiva bolsonarista de Israel, chama atenção ainda que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), tenha criado uma comissão especial para acelerar a tramitação do Projeto de Lei (PL) 1.595/2019, que amplia a malfadada lei antiterrorismo aprovada em 2016. Apresentada há dois anos àquela Casa, a proposição estava parada desde outubro.

De autoria do deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), dispõe sobre “ações contraterroristas”. Em sua justificativa, tais são definidas como “aquelas praticadas em nome de diversas visões políticas e religiosas, cometidas com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz ou a incolumidade pública”. A generalização, por si só, demonstra a que veio: criminalização de ativistas e movimentos sociais.

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A se contar pela xenofobia expressa também na justificativa, quando o autor expõe a razão para apresentar tal proposição – “a permeabilidade de nossas fronteiras e a recente aprovação do novo estatuto do estrangeiro (Lei de Imigração de nº 13.445/2017) tornam ainda mais frágeis as barreiras” –, não é difícil imaginar que árabes e islâmicos estão entre os alvos. E que a criminalização tipificando críticos do Estado de Israel falsamente como antissemitas é outra possibilidade aberta também a partir desse PL.

Nessa direção, a proposição – além de poder enquadrar genericamente qualquer um que se levante contra o genocida desgoverno Bolsonaro –, como se evidencia, atende também ao lobby sionista.

Na mesma justificativa, constam a parceria de “defesa e cooperação em segurança” que está entre os eixos norteadores da agenda do Ministério das Relações Exteriores. “Ainda nessa toada, quanto à concentração de esforços no combate ao terrorismo internacional, é necessário ressaltarmos o alinhamento de entendimentos com Israel e com Estados Unidos.”

E então, a cereja do bolo vem sob propaganda do apartheid: “Nessa perspectiva, configura-se oportuno salientar que a Agência de Segurança Israelense conhecida com Shin Bet é extremamente preparada a resguardar o Estado de Israel quanto a possíveis investidas terroristas, em razão dos constantes atos de violência que o país enfrenta quase que diariamente.” Uma enorme distorção. Quem está submetido a “constantes atos de violência” são os palestinos.

O propositor continua: “A atuação preponderante do Presidente da República no tocante à cooperação entre países se apresenta de forma estratégica, haja vista a referência do Estado de Israel, reconhecida internacionalmente, no que tange aos padrões de segurança e dos sistemas de alto nível dos quais dispõem. Conhecido pela sua expertise no combate ao terrorismo, à incitação, à radicalização e às ameaças cibernéticas, Israel se desvela em importante aliado no compartilhamento de estratégias de inteligência, bem como de tecnologias e mecanismos suficientes a capacitar o Brasil na constituição de instrumentos institucionalizados para prevenir a concretização dos ataques terroristas.”

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Em seu artigo 5º, o PL aborda que a prevenção se dará inclusive mediante tal “cooperação internacional” (inciso V). No mesmo artigo, engloba entre as ações ordinárias para tanto “o controle potencializado do fluxo de combatentes terroristas estrangeiros e de seus possíveis apoiadores previamente identificados pela comunidade internacional em trânsito pelo Brasil” (inciso IX). Quem seria classificado como combatente terrorista estrangeiro e quais os parâmetros é óbvio que o PL não diz.

A proposição diz também, em seu artigo 18, que a União alocará anualmente recursos para a implementação da Política Nacional Contraterrorista (PNC), fixada pelo Presidente da República, para, entre outros, o “treinamento e qualificação dos profissionais envolvidos nas ações”, no Brasil e no exterior (inciso II).

O PL cai como uma luva para Israel: um instrumento para silenciar aqueles que, no Brasil, se levantam contra a colonização e o apartheid, ao mesmo em que indica novos acordos para aquisição de tecnologias e treinamento militares sionistas. Para sustentar a ocupação, exportando ao Brasil suas técnicas e armamentos testados sobre as cobaias humanas palestinas. E depois utilizá-las à criminalização e genocídio pobre e negro no Brasil.

Tudo a ver

A aliança Bolsonaro-Israel não poderia ser mais lógica. Defensor contumaz da ditadura, o primeiro agiu a favor do vírus da Covid-19, como amplamente documentado na 10ª. edição do Boletim Direitos na Pandemia, iniciativa da ONG Conectas Direitos Humanos e Centro de Estudos e Pesquisas de Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP) – o que levou a mais de 300 mil mortes no Brasil. E Israel contabiliza sem-número de corpos palestinos desde a consolidação da Nakba – a catástrofe com a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada.

Em sua continuidade, no mesmo dia em que a fake news sobre a produção de vacina na Fiocruz circulava no Brasil, o Estado sionista bombardeava mais uma vez Gaza, em meio à pandemia. Em 2020, segundo documentado pelas Forças de Ocupação Israelense, foram quase 300 ataques à estreita faixa – denúncia trazida pelo Monitor do Oriente.

Barrar o PL 1.595/2019 e denunciar o pacto de morte Bolsonaro-Israel estão na ordem do dia das organizações em solidariedade ao povo palestino no Brasil e de direitos humanos em geral. É tarefa de todos os que lutam contra a opressão e exploração no mundo.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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