Portuguese / Spanish / English

Middle East Near You

Hezbollah e o assassinato do ativista Luqman Slim

Trata-se de milícia de resistência, partido político ou grupo terrorista?
Manifestantes reúnem-se em frente ao Palácio da Justiça em protesto contra o assassinato de Luqman Salim, ativista crítico ao Hezbollah, em Beirute, Líbano, 4 de fevereiro de 2021 [Houssam Shbaro/Agência Anadolu]
Manifestantes reúnem-se em frente ao Palácio da Justiça em protesto contra o assassinato de Luqman Salim, ativista crítico ao Hezbollah, em Beirute, Líbano, 4 de fevereiro de 2021 [Houssam Shbaro/Agência Anadolu]

Não é possível falar sobre o complexo e controverso cenário político, social, econômico e militar no Líbano nas últimas quatro décadas sem abordar a participação do Hezbollah. Esta organização declaradamente xiita, e de ideologia teocrática assumida, tem tido um papel que varia de uma atuação mais discreta nos primórdios dos seus dias até assumir o controle praticamente total do Líbano hoje, constituindo um estado paralelo, um estado não-oficial dentro do estado libanês oficial, sendo que o estado não-oficial exerce o controle e detém o poder de fato sobre a República Libanesa. E este poder assumiu uma forma mais direta e cresceu tremendamente desde a saída das tropas de ocupação israelense do sul do Líbano no ano de 2000.

Procuraremos aqui traçar um perfil do papel do Hezbollah, partindo de uma experiência pessoal e integrando a análise de fatos históricos e de acontecimentos políticos recentes. Sendo natural do Líbano (onde nasci em 1982 e morei até 1997) e cidadão brasileiro desde o ano 1997, venho expor aqui o meu testemunho e a minha versão pessoal sobre o sempre polêmico Hezbollah. Tentarei ser o mais isento possível, e farei de tudo para expor os meus argumentos de um modo simples e claro. Sei que é tarefa nada fácil, pois falar do Hezbollah equivale-se a pisar em campo minado, como acontece toda vez que tentamos dissecar uma ideologia teocrática, imbuída de traços de totalitarismo fascista.

A Nomenclatura e as Origens

Nada mais esclarecedor para entender a ideologia e o “modus operandi” do Hezbollah do que partir da sua nomenclatura. O nome Hezbollah é composto de duas palavras, em árabe: Hezb (que significa “partido”) e Allah (que significa Deus); portanto, a palavra Hezbollah é a fusão destas duas palavras em árabe. Em outras palavras, Hezbollah é o “Partido de Deus”. Está aí a chave para entender todo o resto. Estamos diante de uma organização que apropria-se do nome de Deus, julga-se o seu representante na terra e vende-se como o partido dos escolhidos Dele.

Me lembro muito bem quando eu tinha cerca de dez anos de idade, ia com frequência com meus pais a Beirute, capital do Líbano. Nestas visitas, mesmo criança, mas já alfabetizado em árabe e inglês, uma das coisas que me chamaram a atenção foram faixas e cartazes espalhados pela cidade, fazendo apologia ao “partido de Deus”. Eram cartazes e cartazes com diversos dizeres associados a imagens gigantes das diversas personalidades símbolos deste grupo, figurando as imagens de “Khomeini” e seu sucessor “Khamenei” como as mais proeminentes. Naquela época eu não sabia o que estava vendo exatamente, mas me lembro muito bem que não consegui digerir bem a nomenclatura “Partido de Deus”. Me soou estranho usar o nome de Deus desta maneira. Já com educação islâmica inicial, aquilo me pareceu como uma profanação do sagrado. E, mais do que isso, só de ler as propagandas e ouvir falar, me lembro que sentia um temor inexplicável.

LEIA: Ativistas em Beirute protestam contra a morte de Luqman Salim, crítico do Hezbollah

De fato, o Hezbollah surgiu no início da década de 1980, no Líbano. A sua fundação foi obra da embaixada iraniana em Damasco, capital da vizinha Síria, numa época em que o Oriente Médio estava sendo assolado por duas grandes e devastadoras guerras: a Guerra do Líbano e a Primeira Guerra do Golfo (entre Iraque e Irã). O Irã tinha acabado de virar uma república islâmica xiita, de bases inteiramente teocráticas, após o triunfo da Revolução Islâmica que destronou o monarca, o Xá Reza Pahlevi, e levou ao poder o “Khomeini”, o “Ruhollah” (alma de Deus, em árabe), segundo seus seguidores. Por aí denota-se o grau de santificação com que os seguidores da revolução islâmica do Irã reverenciam o seu teólogo-mor.

Resistência e assassinatos políticos

O primeiro ato marcante do Hezbollah foi um atentado em Beirute, com caminhão-bomba, que matou mais de duzentos marines norte-americanos. O Líbano encontrava-se em plena guerra (durou de 1975 a 1990). Este ato foi recebido por boa parte dos libaneses como ato de legítima defesa e de nobre resistência. E o grupo começou a ganhar espaço e projeção como uma milícia de resistência, mesmo sendo cria do Irã.

Em 1982, as tropas do exército israelense invadiram o Líbano e ocuparam militarmente a sua capital, Beirute. Por esta ocasião, formou-se a “Frente Libanesa de Resistência” (conhecida pela sigla árabe de “Jammul”), composta por coalização de milícias de esquerda (principalmente o partido comunista), cujo objetivo era a luta armada contra os invasores israelenses. Esta frente de resistência nacional teve feitos heróicos, desferindo muitos golpes ao invasor israelense.

Enquanto a coalizão paramilitar de esquerda ocupava-se de resisitir ao inimigo invasor israelense, o Hezbollah estava ocupado em duas coisas: 1) luta sangrenta interna pelo poder com a outra organização paramilitar de ideologia xiita: o “Amal”, grupo fundado pelo clérigo xiita o imam “Mussa Al-Sadr”, desparecido na Líbia do Muamar Kadafi na década de 70 do sec XX, e nunca mais encontrado; 2) eliminação física dos intelectuais xiitas de ideologia marxista e esquerdista (assassinatos políticos dos pensadores e militantes Hussein Mroue e Mehdi Amel, como exemplos).

O Acordo de Taif

Em 1990, na cidade de Taif, na Arábia Saudita, e sob o patrocínio da monarquia saudita e o apadrinhamento de um importante magnata libanês, o Rafic Al-Hariri, foi firmado o “Acordo de Taif”, que pôs fim à Guerra do Líbano. Este acordo que incluiu, entre outras coisas, a desintegração das milícias e de todas as organizações paramilitares, deixou duas cruciais pendências: 1) a ocupação militar israelense de uma boa parte do Sul do Líbano; 2) a ocupação militar síria de todo o restante do território libanês. Todos os acontecimentos no Líbano desde então, inclusive o papel do Hezbollah, devem ser analisados à luz destas duas pendências.

O efeito imediato do “Acordo de Taif” foi a liquidação da “Frente de Resistência Libanesa”, como consequência da desintegração das milícias armadas. No entanto, a única milícia que foi exceção a esta regra foi ninguém menos que o Hezbollah. O ditador sírio, na época, o Hafez Al-Assad, aliado histórico do regime teocrático iraniano, assegurou à filial iraniana no Líbano o direito de manter-se armada, em gritante desacordo ao que foi firmado em Taif. A partir de então, Hezbollah e o regime de Al-Assad tornaram-se carne e unha. A missão de combater e resistir a Israel tornou-se exclusividade da milícia xiita libanesa de filiação iraniana.

Toda a década de 90 do sec XX no Líbano foi marcada pela atuação da Resistência Islâmica (sinônimo de Hezbollah até hoje) no Sul do Líbano. O marco maior desta atuação teve lugar em abril de 1996. Nesta ocasião, Israel protagonizou uma ofensiva, chamada “Cachos da Ira” contra o Líbano, com pesados bombardeios a alvos civis e militares, não poupando inclusive instalações da ONU que serviram de abrigo a civis. Me lembro muito bem do Massacre de Qana (ainda morava no Líbano naquela época), ocorrido dia 18 de Abril de 1996. Neste dia, Israel bombardeou assentamentos da ONU no Sul do Líbano matando mais de cem civis, entre idosos, crianças, mulheres e adultos. A minha admiração pelo Hezbollah, naquela época, estava no seu grau máximo, ao ponto de eu sonhar em ser um guerreiro desta milícia!

Não tardou muito, e as tropas israelenses retiraram-se completamente do Sul do Líbano, em 25 de maio de 2000. Teoricamente, com este fato histórico, Hezbollah não teria mais justificativas para manter-se armado. O mais lógico e esperado seria que ele entregasse as suas armas ao estado libanês. Porém, não foi isso o que aconteceu. O “Partido de Deus” recusou-se de uma forma veemente a depor as suas armas, que seriam desta vez apontadas em outra direção: para dentro, e mais precisamente para seus opositores (muçulmanos sunitas e cristãos).

LEIA: Hezbollah alega ter dobrado seu arsenal de mísseis de precisão, em 2020

O Assassinato de Hariri

No dia 14 de fevereiro de 2005, um acontecimento trágico abalou o Líbano e o mundo árabe: o padrinho do “Acordo de Taif” e o ex-premiê Rafic Al-Hariri foi assassinado num atentado estrondoso em Beirute. Logo as suspeitas voltaram-se para o regime sírio de Bachar Al-Assad e para o Hezbollah. Al-Hariri defendia, na época, o cumprimento do famoso acordo que previa a retirada das tropas sírias do Líbano. Esta atitude custou-lhe a vida. Em 2020, a Corte Internacional em Haia concluiu que um membro do Hezbollah executou o atentado que matou o Al-Hariri. A corte internacional evitou acusar o partido de Deus de uma forma frontal. Digamos que usou uma saída diplomática para evitar a condenação dos regimes tiranos de Teerã e Damasco, mãe e madrinha do Hezbollah.

A Guerra de Julho de 2006

Em julho de 2006, mais uma guerra árabe-israelense teve lugar. Israel lançou uma ofensiva contra todo o Líbano, matando civis e destruindo grande parte de sua infraestrutura. Esta guerra ganhou repercussão internacional. O governo brasileiro enviou aviões da FAB para evacuar brasileiros do Líbano. Me lembro que a comunidade libanesa de São Paulo organizou, na Av. Paulista, uma passeata de apoio ao Líbano e condenação de Israel. Nesta passeata, gritamos palavras de ordem de apoio ao Hezbollah e ao seu líder Hassan Nasrallah. Foram também vendidas camisetas com estampas da milícia de resistência. Os membros do partido de Deus eram vistos como heróis em todo o mundo árabe. Eram unanimidade. Mas a partir do final da guerra de julho de 2006 esta história começou a mudar.

07 de Maio de 2008

No dia 07 de Maio de 2008, Beirute, capital do Líbano e cidade de maioria sunita, foi alvo de um ataque da milícia do Hezbollah. Os seus homens ocuparam a cidade, aterrorizaram e mataram civis, destruíram instalações. E tudo isso em retaliação ao governo do premiê libanês Fuad Al-Saniora, que estava combatendo o domínio do Hezbollah sobre o estado libanês. Este fato desagradou a milícia xiita, que vingou-se da população sunita de Beirute. Sem demonstrar um mínimo de remorso ou arrependimento, Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, chamou este infame dia de “dia glorioso”. Desde então tornei-me um opositor ao Hezbollah, parei de defendê-lo nas discussões políticas e passei a criticar as suas atitudes. O pior ainda estava por vir.

A Guerra da Síria

Na Guerra da Síria, que teve início em março de 2011 e que continua até hoje, Hezbollah tem tido uma atuação direta e decisiva, sob o comando do líder máximo do Irã, o Khamenei. Nesta guerra, esta milícia cometeu massacres contra a população síria e promoveu uma limpeza étnica dos sunitas. A “Resistência Islâmica” esqueceu do seu suposto papel de lutar contra o estado do apartheid sionista, e foi matar sírios inocentes e destruir cidades históricas. Nesta guerra, todas as máscaras do “partido de Deus” caíram, e tornou-se cada vez mais comum entre libaneses e sírios (que sempre admiraram a “Resistência Islâmica”) chamar a milícia xiita de “Hezb Al-Chaitan”, ou seja, “Partido do Satanás”!

Líbano Sequestrado

Desde o assassinato de Al-Hariri, uma série de assassinatos políticos ocorreu no Líbano. Todas as vítimas foram políticos, ativistas e jornalistas opositores ao Hezbollah e do regime ditatorial de Al-Assad. A última vítima foi o intelectual e ativista xiita Luqman Slim, importante opositor ao Hezbollah, que foi encontrado morto a tiros, com marcas de tortura, há alguns dias no Sul do Líbano, região de pleno domínio do Hezbollah.Desde o assassinato do Al-Hariri, o Hezbollah exerce um pleno domínio político, econômico, social e de mídia no Líbano. O governo libanês é um refém do Hassan Nasrallah. O líder do Hezbollah exerce o seu domínio sobre um dos estados mais corruptos do mundo, com uma classe política que sequestrou todos os recursos do estado e deixou a população às mínguas. Usando o nome de Deus, este grupo patrocina e promove a corrupção institucionalizada, intimida e aterroriza a população com o poder de suas armas, e protege e promove o narcotráfico.

LEIA: Após morte de manifestante no Líbano, prédio público é incendiado

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

Categorias
ArtigoIsraelLíbanoOpiniãoOriente MédioSíria
Show Comments
Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
Show Comments