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Juventude palestina sob ocupação e na América Latina: a nova face da resistência

Ato em solidariedade ao povo palestino. São Paulo/ Brasil [Foto Lina Bakr]
Ato em solidariedade ao povo palestino. São Paulo/ Brasil [Foto Lina Bakr]

“Os velhos morrerão, os jovens esquecerão.” A máxima proferida pelo primeiro-ministro de Israel em 1948, David Ben-Gurion, há muito foi desmontada. O arquiteto da Nakba (catástrofe com a criação do Estado de Israel em 15 de maio de 1948 mediante limpeza étnica planejada) não poderia ter se enganado mais.

Não é de hoje que a juventude palestina na América Latina tem protagonizado ações que demonstram isso, elevando a bandeira da libertação contra a ocupação israelense. No passado, de fato, esta teve papel fundamental na mobilização da solidariedade em toda a região. Não obstante, nos últimos anos, percebe-se pelo menos em parte de uma nova geração um reavivamento em novas bases. Esta parcela se apresenta como totalmente descrente do caminho das negociações como solução.

Isso é particularmente importante quando se observa que a formação de novas lideranças para dar sequência às ações na América Latina em prol da libertação da Palestina se viu prejudicada após os desastrosos acordos de Oslo firmados em 1993 entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e Israel. Como consequência, instituições palestinas foram desativadas, passaram a funcionar somente formalmente ou como locais de encontros sociais.

Tal desmonte foi impulsionado pelas representações na região da então criada Autoridade Palestina, que alimentaram a percepção enganosa de que a paz “possível” seria uma questão de tempo – nas bases absolutamente mínimas de dois estados (em que o futuro estado palestino seria criado tão-somente nos territórios ocupados em 1967 – Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental).

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Quase 28 anos depois, parte da juventude já não tem qualquer ilusão. Ciente de que essa suposta solução, injusta desde sempre, está morta ante a agressiva expansão colonial sionista, fortalece a reivindicação de um estado único palestino, laico, livre, democrático, não racista, com direitos iguais para todos que queiram viver em paz com os palestinos. A única possibilidade de se garantir justiça à totalidade do povo palestino e o retorno dos milhões de refugiados às terras de onde foram expulsos desde a Nakba.

Nesse caminho, volta-se também contra a Autoridade Palestina. Para essa parcela, à qual se somam outros palestinos da diáspora não tão jovens e aderem organizações solidárias, não há dúvidas do papel nefasto desempenhado pela gerente da ocupação desde sua criação, sem qualquer autonomia, com dependência econômica integral e cooperação de segurança com Israel. A Autoridade Palestina, como bem sabem e denunciam, é obstáculo de primeira ordem à resistência heroica e histórica.

Neste momento em que Mahmoud Abbas está ansioso para retomar negociações incondicionais com Israel – com um novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, à frente –, a posição expressa por essa nova geração na América Latina, parte da qual constituída por refugiados provenientes da Síria, ganha dimensão ainda maior.

“Filhos de Oslo”

Essa situação reflete o que ocorre na Palestina ocupada, em que uma vanguarda jovem, sobretudo feminina, não tem dúvidas quanto a isso. É parte expressiva dos chamados “filhos de Oslo”, os quais constituem, segundo dados de 2017 da Organização das Nações Unidas (ONU), 30% da população sob apartheid sionista institucionalizado.

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A consciência elevada se deve ao fato de nunca terem vivido um único dia de paz. Muito pelo contrário. Sua própria identidade nacional está ameaçada. Na Cisjordânia, seu caminho, por exemplo, para o trabalho, escola ou universidade é apinhado de checkpoints, além do muro do apartheid, e sujeito à violência dos colonos ou soldados da ocupação. A humilhação e violação de direitos humanos fundamentais são cotidianas e afetam todos os aspectos de sua vida. Apesar disso, têm nível de educação bastante elevado, mas enfrentam altas taxas de desemprego. Linha de frente na resistência, são submetidos a prisões políticas e, portanto, tortura institucionalizada por parte de Israel.

Como aponta a Sociedade Acadêmica Palestina para Estudos de Assuntos Internacionais (Passia, na sigla em inglês), essa situação é particularmente dramática em Jerusalém Oriental, em que a expansão colonial sionista se dá a passos largos. Por não serem considerados cidadãos israelenses, vivem sob constante ameaça de expulsão.

Em Gaza, encontram-se numa prisão a céu aberto, em meio a quase 14 anos de cerco sionista desumano. Com a vida ameaçada rotineiramente, muitos já perderam familiares ou foram mutilados pelos bombardeios frequentes. A pobreza, a falta de serviços básicos e destruição os impede, assim como os que vivem sob apartheid institucionalizado na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, de vislumbrar um amanhã que não seja a partir de sua resistência, a única forma possível de continuarem a existir.

Já a juventude que vive nas áreas ocupadas em 1948 – onde hoje é Israel –, como parte dos mais de 1,5 milhão de palestinos que ali se encontram, está submetida a 60 leis racistas.

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A realidade dos milhões em situação de refúgio nos países árabes não é menos desafiadora. Tendo nascido e crescido nos campos em situação de extrema vulnerabilidade, à espera do retorno, conhecem a Palestina pelos olhos de seus pais e avós.

Para esse conjunto, Oslo é definitivamente pedra fundamental da Nakba contínua. Espelha a consciência da realidade nua e crua: negociar com a colonização é render-se à ocupação.

Mais: essa juventude traz legado deixado pelo escritor e revolucionário palestino Ghasan Kanafani, como expresso em seu “A revolta de 1936-1939 na Palestina” (Editora Sundermann). Nessa análise das causas da derrota da poderosa revolução no período contra o então mandato britânico e as gangues sionistas – momento em que se chegou mais próximo da libertação da Palestina –, ele definiu os poderosos inimigos da causa palestina, que continuam atuais: o sionismo/imperialismo, os regimes árabes e a burguesia árabe-palestina.

Essa vanguarda já deu o exemplo de que assimilou bem os ensinamentos de Kanafani. Para além da resistência cotidiana contra a colonização sionista, levantou-se em solidariedade às revoluções no Oriente Médio e Norte da África iniciadas em fins de 2010 e contra a Autoridade Palestina em diversas ocasiões.

Mas outra lição deixada por Kanafani ainda está por ser concretizada: a construção de uma direção revolucionária. Não é tarefa fácil, pelo contrário. Mas é a única forma possível de articular a resistência coletiva rumo à libertação da Palestina, do rio ao mar.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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