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Por que o Golfo quer normalizar laços com Israel?

Manifestantes exibem cartazes contra a normalização entre Emirados Árabes Unidos e Israel, em Gaza, 12 de setembro de 2020 [Ashraf Amra/Agência Anadolu]
Manifestantes exibem cartazes contra a normalização entre Emirados Árabes Unidos e Israel, em Gaza, 12 de setembro de 2020 [Ashraf Amra/Agência Anadolu] ( Ashraf Amra - Anadolu Agency )

O encontro entre o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu e o príncipe herdeiro e governante de fato da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman, representa o passo mais importante e mais perigoso no caminho para a normalização árabe com o estado sionista. Embora não coincida com qualquer acordo público ou oficial, ou mesmo anúncio, como ocorreu com Emirados Árabes Unidos e Bahrein, prevalece ainda como o mais significativo dentre todos os avanços da normalização.

A Arábia Saudita é o mais rico e mais poderoso dentre os países árabes; controla diversas políticas árabes por toda a região. A monarquia domina a Liga Árabe ao lado do Egito, além de uma série de fóruns internacionais que representam o mundo islâmico. Além disso, costuma falar em nome dos muçulmanos sunitas, devido a seu papel histórico na custódia das Mesquitas Sagradas de Meca e Medina. Trata-se ainda da maior reserva de petróleo do mundo e maior mercado consumidor no Oriente Médio.

A visita de Netanyahu à Arábia Saudita para reunir-se com Bin Salman, na presença do Secretário de Estado dos Estados Unidos Mike Pompeo, confirmou que Riad já está dentro do jogo da normalização. Sobretudo, sugere que a onda de normalização no Golfo não era meramente uma tentativa de conceder impulso eleitoral à política externa do presidente americano Donald Trump, como acreditavam muitos observadores.

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Trump provavelmente quer ser o mais generoso possível com Israel, às custas dos árabes, antes de deixar a Casa Branca. É por isso que, em apenas quatro anos, foi responsável por emitir 14 decisões em apoio à ocupação, contrárias aos direitos do povo palestino. Agora, corre contra o tempo para abrir conversas diretas de normalização com o maior número possível de países árabes.

Há algumas questões importantes que precisam ser postas diante desta conjuntura. O que quer, por exemplo, cada lado um do outro? Por que os israelenses e países do Golfo estão mobilizados em instituir relações oficiais?

No Golfo, o motivo da normalização tornou-se claro. Os regimes querem obter proteção israelense contra eventuais ameaças, incluindo o Irã e seu próprio povo, sob receios de potenciais revoluções populares, como os protestos da Primavera Árabe. Trump fala abertamente desta salvaguarda, ao alegar que os Estados Unidos não deverão mantê-la gratuitamente. O Golfo de fato começou a pagar, mas a normalização com o estado colonial da ocupação é apenas parte da dívida.

Normalização com Israel, quem é o próximo? [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Normalização com Israel, quem é o próximo? [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Questões ainda mais importantes referem-se ao que quer Israel dos estados do Golfo; quais são seus interesses? É preciso considerá-los com cuidado e atenção.

No âmbito político, via normalização com os países árabes, Israel destitui os palestinos de seu apoio tradicional e histórico, à medida que o Golfo sempre representou um grupo de países importantes em apoio político e financeiro à Palestina, por décadas e décadas, tanto em nível oficial, quanto popular. A maioria das doações emitidas aos cofres palestinos durante a Primeira Intifada (1987-1993) e a Intifada de Al-Aqsa (2000-2005) vieram do Golfo. Tais fontes financeiras agora secam pouco a pouco. A Autoridade Palestina está sob pressão por todo o mundo árabe, para conduzir maiores concessões à ocupação israelense.

Israel deseja contornar os palestinos e jordanianos sobre a questão de Jerusalém e da Mesquita de Al-Aqsa. Desta forma, busca ainda uma alternativa árabe e islâmica para assumir custódia dos locais sagrados, atualmente mantida pela Jordânia, de modo que a ocupação possa influenciar diretamente o destino dos patrimônios palestinos. O único candidato viável para tal papel parece ser a Arábia Saudita, em virtude de Meca e Medina e seu forte domínio sobre a Organização para Cooperação Islâmica, que tenta liderar a representação de muçulmanos em todo o mundo, com 57 estados-membros no total.

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Além disso, Israel cobiça beneficiar-se dos mercados consumidores do Golfo, os maiores da região. Produtos israelense chegam a tais países há quase três décadas, contudo, sob dificuldade, através de dois canais essenciais: Egito e Jordânia. Com novos acordos de normalização, Israel poderá garantir sua superioridade industrial a longo prazo, graças aos fortes mercados regionais dispostos a consumir seus produtos.

Como o resto do mundo, Israel sofre hoje de um crise econômica sufocante, diante da pandemia de coronavírus. O estado sionista espera superar essa crise, que especialistas prevêm que poderá durar pelos próximos quatro anos. A normalização com o Golfo abrirá as portas a grandes investimentos, em particular, nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que possuem três dos dez maiores fundos soberanos no mundo. Representam, portanto, uma série de investimentos prometidos a Tel Aviv.

Enfim, esta onda de normalização do Golfo com a ocupação significa ganhos generalizados a Israel, em franco detrimento do povo palestino e sua posição política, com Jerusalém e Al-Aqsa sob ameaça, em particular. Em contrapartida, os países árabes que desejam normalizar laços com Israel conseguirão apenas proteção de seus regimes por parte de israelenses e americanos, mas nada mais de efetivamente concreto.

Traduzido de The New Khalij, 24 de novembro de 2020

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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