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Emirados Árabes Unidos compraram a normalização do Sudão com Israel

Sudaneses protestam contra acordo de normalização com Israel, em Cartum, capital do Sudão, 25 de setembro de 2020 [Abbas M. Idris/Agência Anadolu]
Sudaneses protestam contra acordo de normalização com Israel, em Cartum, capital do Sudão, 25 de setembro de 2020 [Abbas M. Idris/Agência Anadolu]

Os Emirados Árabes Unidos são acusados de cumplicidade na turbulência política do Sudão já há algum tempo. Há quem acredite até mesmo que as maquinações políticas no leste do Sudão são de fato patrocinadas e sustentadas pelo governo emiradense em Abu Dhabi.

Mohamed Ali Al-Jazouli, chefe do Partido de Desenvolvimento e Estado da Lei, no Sudão, acusou os Emirados de tentar reproduzir um cenário similar ao conselho transicional separatista do Iêmen, em solo sudanês, ao apoiar manifestantes que reivindicam a secessão do restante do país. De fato, Abu Dhabi é acusado de trabalhar com revolucionários que exortam reformas políticas e divisão territorial do Sudão, nas regiões de Darfur, Nilo Azul e Cordofão do Sul.

O longevo ditador do Sudão, Omar al-Bashir, era próximo dos estados do Golfo, particularmente Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Bashir foi deposto após protestos populares que eclodiram em dezembro de 2018. Ao perceber que distanciava-se cada vez mais do poder e de alguns aliados próximos, especialmente o comandante das Forças de Suporte Rápidas (RSF), Mohammad Hamdan Dagalo (conhecido como Hemetti), que já havia iniciado conversas por apoio emiradense, Bashir visitou o Catar, rival regional de Abu Dhabi, para buscar seu próprio apoio político e financeiro.

O Catar competia com seus adversários no Oriente Médio por influência no Sudão e outros países no Mar Vermelho e Golfo de Aden. Contudo, sob receios de ser pego no fogo cruzado dos protestos sudaneses, após manifestantes alertarem contra envolvimento de qualquer estado do Golfo nos assuntos políticos do Sudão, o Catar decidiu rejeitar a aproximação de Bashir. Membros da RSF, porém, entrincheiravam sua própria relação com Riad e Abu Dhabi.

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Desesperado por auxílio financeiro dos ricos estados do Golfo, a fim de manter-se no poder, Bashir enviou tropas ao Iêmen, em 2015, como parte da coalizão liderada pela Arábia Saudita contra os rebeldes houthis. Muitos dos combatentes sudaneses contratados pelos sauditas eram membros de grupos paramilitares como a RSF ou a milícia Janjaweed. Desde a queda de Bashir, Hemetti tornou-se único beneficiário, em termos financeiros, do envolvimento de sua organização na guerra conduzida no Iêmen. Consequentemente, membros da RSF não reforçaram somente um sentimento de temor, mas também tornaram-se bastante poderosos e admirados por sua relativa riqueza, comparada com soldados do governo. Mesmo como força de combate, a RSF demonstrou estar muito melhor equipada do que o Exército do Sudão.

O Conselho Soberano do Sudão, estrutura interina de governo composta por gestores civis e militares, tenta restaurar a economia do país, desde seu estabelecimento. Abdel Fattah al-Burhan, ex-aliado próximo de Bashir, tornou-se presidente do conselho. Havia esperanças, quando assumiu suas responsabilidades, de que a vida política e a economia sudanesas poderiam melhorar. Contudo, as violações de direitos humanos continuam impunes e a situação econômica permanece funesta.

Segundo a Anistia Internacional: “Embora o conflito no Sudão seja recentemente menos intenso do que foi no passado, todos os lados em confronto continuam a cometer violações da lei humanitária internacional, tais como ataques contra civis e comboios humanitários”. Além disso, altos níveis de corrupção frustram efetivamente esperanças de um ressurgimento econômico. As enchentes que afetaram grande parte do leste africano, neste ano, agravaram a situação fiscal e social no Sudão. O Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) no Sudão destacou que as inundações e deslizamentos de terra, causados por tempestades torrenciais no país, afetaram quase 830.000 pessoas, destruíram centenas de milhares de casas e danificaram grandes porções de terras agrárias logo às vésperas da colheita. As enchentes levaram à falta de alimentos e aumento nos preços. Conforme piorava a situação, o governo do Sudão passou a depender cada vez mais de um milagre para conter os protestos iminentes que levariam o país a tumultos ainda mais graves. Então, entrou a normalização.

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Ao longo dos anos, as sanções dos Estados Unidos foram vistas como culpadas pelos problemas econômicos do Sudão. Removê-las, portanto, era considerado essencial para qualquer recuperação econômica. Sob o Presidente Donald Trump, os Estados Unidos insistiram que não removeriam as sanções contra o país africano, a menos que o Sudão indenizasse vítimas americanas de terrorismo, ou suas famílias. Caso as sanções sejam de fato suspensas, o Conselho Soberano em Cartum receberá todo o crédito, além de comprar tempo para tentar pôr a economia de volta nos trilhos. Deste modo, o Sudão consentiu com o pagamento multimilionário de indenização a vítimas de bombardeios contra embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, em 1998, ataques conduzidos pela rede Al-Qaeda, enquanto seu líder, Obama Bin Laden, vivia no Sudão. Para pagar tais valores, o Sudão aproximou-se novamente dos ricos aliados do Golfo para solicitar ajuda financeira. Os Emirados Árabes Unidos então viram tal sequência de fatos como oportunidade para estender sua campanha de normalização com a ocupação de Israel. Abu Dhabi ofereceu assistência ao Sudão, via Arábia Saudita, em troca da normalização dos laços entre Cartum e Tel Aviv, agora materializada.

Os Emirados engajam-se hoje em um jogo de alto risco, que pode sair pela culatra, pois ignora posições políticas polarizadas entre a população dos países árabes sobre Israel. A normalização das relações com a ocupação israelense por outros estados árabes, sob pressão emiradense, poderá criar conflitos duradouros entre as próprias facções e populações árabes, sobretudo porque, com ou sem normalização, Israel continuará a colonizar mais e mais terras palestinas, devastar a economia dos territórios palestinos e bombardear a população sitiada na Faixa de Gaza.

“Acordos de paz” falaciosos com as potências regionais não serão capazes de interromper as violações israelenses contra o povo nativo da Palestina ocupada, seja como ou quando bem quiser. Este fato tornar os governos árabes “normalizados” cúmplices efetivos da opressão cometida contra seus irmãos e irmãs árabes. Os Emirados Árabes Unidos buscaram promover a normalização entre Israel e Sudão. Será interessante ver o que os sudaneses comuns pensam disso tudo.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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