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O futuro governo democrata do Império e suas projeções para o Oriente Médio

A então senadora Kamala Harris (esq.) recebida pelo primeiro-ministro israelense Netanyahu em Jerusalém, novembro de 2017 [Amos Ben Gershom / GPO]
A então senadora Kamala Harris (esq.) recebida pelo primeiro-ministro israelense Netanyahu em Jerusalém, novembro de 2017 [Amos Ben Gershom / GPO]

Desde o momento da proclamação da vitória de Biden na Pensilvânia, que culminou na maioria absoluta dos votos de delegados no colégio eleitoral, o planeta respira, de certa forma, aliviado. Não se trata de alegria com a “vitória do Partido Democrata”, mas necessariamente saber que o polo irradiador da extrema direita – com Donald Trump à frente do Poder Executivo da Superpotência – perde o fôlego. Por mais que não tenha se pronunciado a favor da anexação formal da Cisjordânia, proposta pelo adversário derrotado na urna indireta, o (muitas vezes reeleito) senador por Delaware nunca foi um aliado dos árabes, longe disso. A trajetória do presidente eleito do Império não é nada animadora nos temas do Oriente Médio e da Palestina, assim como o período de Obama não foi bom, embora um pouco “menos ruim” do que as permanentes provocações geradas por Trump desde sua primeira viagem à região, tanto na ida à Israel como antes, na Arábia Saudita

Em geral, cada candidato presidencial comparece de forma reverencial na convenção do lobby de Israel. Dessa vez, o presidente eleito Joe Biden não pôde comparecer na Conferência anual do poderoso AIPAC (Comitê de Relações Públicas Israelense-Americano), mas deixou um vídeo postado no Twitter do grupo de pressão. Neste discurso, se compromete em combater o BDS (a campanha de Boicote, Desinvestimento, Sanções contra o Estado de Apartheida de Israel, ver bdsmovement.net) e classificar de antissemitismo as críticas contra Israel. Por isso, o ex-vice de Obama repete que “combaterá o antissemitismo que venha da direita, centro e esquerda”. Ora, a falsa acusação de “antissemitismo por esquerda” é justamente contra a campanha do BDS e a correta caracterização de Israel como Estado Colonial. Biden também afirma que sua primeira missão oficial ao exterior como senador foi para Israel e, orgulhosamente, sentou ao lado de Yitzhac Rabin, ainda como assessor da ex-primeira ministra trabalhista Golda Meir

Ao mesmo tempo, aparentemente, Biden se coloca como contrário ao plano de Anexação. Logo, não vai retomar o famigerado “Acordo do Século”. Também afirmou que considera muito perigosa a escalada de construção de assentamentos, o que pode indicar algum tipo de freio ou congelamento nessas obras. Isso pode se dar se os EUA aplicarem suas leis a investimentos estrangeiros com capitais egressos de seu território ou de empresas que atendam legalmente ao conjunto de medidas legais do Departamento de Justiça. A chance de executar essas medidas é muito reduzida.

Outro tema delicado é a relação com Teerã. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse acreditar que a política externa dos EUA no governo de Joe Biden seria semelhante à observada no governo do presidente Barack Obama, especialmente no que diz respeito ao Irã e às mudanças climáticas. Especificamente quanto ao bloqueio econômico contra o Estado persa, acredito que possa haver alguma sinalização de pontos a serem negociados para diminuir a tensão, mas sempre tentando subordinar o Irã às determinações de poder do Centcom (o Comando Central dos EUA, cuja 5ª frota está localizada na Base de Manama, Bahrein).

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Pela lógica da representatividade haveria melhor expectativa com a ex-Procuradora-Geral da Califórnia. Conforme foi comentado neste portal, a vice-presidente Kamala Harris declarou que sua administração vai retomar princípios de multilateralismo e diminuição de espaço das potências regionais, a começar pela Arábia Saudita. Se tomarmos em conta as práticas do governo Obama, essa administração não deixou de tentar intervir e aumentar a escalada de conflitos na Líbia e na Síria. Ao mesmo tempo abriu alguma possibilidade de diálogo contido com o Irã e pressões contra as tentativas de amplas manobras e agressividade colonial israelense.

Acordo do Século, mudança da embaixada e Colinas de Golã - O que mais Israel poderia esperar? – Charge [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Acordo do Século, mudança da embaixada e Colinas de Golã – O que mais Israel poderia esperar? – Charge [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

Outra indicação do tipo de política a ser levada a cabo pelo governo Biden está no nome de sua provável secretária de Estado (equivalente à ministra de relações exteriores ou chanceler), Susan Rice. É conhecido o histórico dessa diplomata de origem afro-americana e de extração de classe alta nos temas que dizem respeito ao Oriente Médio. Tanto no governo Clinton, como nos postos que ocupou no governo Obama (embaixadora dos Estados Unidos na ONU, primeiro mandato; no segundo como assessora de segurança nacional) foram seguidos os posicionamentos intervencionistas na região. Rice fez o possível para destituir Assad na Síria e associou-se na aventura de mudança de regime na Líbia, incluindo o absurdo do “bombardeio humanitário”. Assim como cravou os olhos nas práticas ditatoriais de Damasco e de Gaddafi, desviou sua mirada para o recrutamento massivo de operadores salafistas.

O gesto de “realpolitik” ou “pura hipocrisia realista” se deu no envolvimento direto da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, tanto na Síria como na coalizão que exerce supremacia aérea e comete atos de lesa humanidade na Guerra Civil do Iêmen. Considerando o volume de atividades de Rice, a diplomata só não emplacou como secretária de Estado no segundo mandato de Obama porque a bancada republicana no Senado a tomou como uma dos alvos de responsabilização pelo ataque contra o centro de espionagem da CIA e de representação diplomática estadunidense em Benghazi, Líbia, em 11 de setembro de 2012 .

 Susan Rice, ex-embaixadora dos Estados Unidos na ONU [Foto de Arquivo]

Susan Rice, ex-embaixadora dos Estados Unidos na ONU [Foto de Arquivo]

Entretanto, é muito importante não confundirmos os cenários. Trump é uma excrescência no ambiente doméstico dos EUA, assim como suas relações em todo o planeta, que enfatiza o discurso emanado de espaços como o CPAC e outras manipulações ao estilo de Steve Bannon , como se fizesse algum efeito ou sentido. Já a relação com Israel pode mudar levemente de tom, mas a natureza de aliado estratégico não. O conjunto de lideranças israelenses que ocupa postos formais no Estado colonial, bem como importantes grupos de pressão sionistas nos EUA (todos, sem exceção), parabenizaram o novo presidente, apesar da recusa de Trump em reconhecer sua derrota.

Podemos argumentar que tudo que possa impedir, ao menos temporariamente, a sanha colonialista e a institucionalização do Apartheid em Israel, como a declaração do Estado judeu (a qual Biden corrobora) e a tentativa de anexação fática (com a qual o democrata eleito se diz contrária), pode vir a ajudar. Ainda assim somos obrigados a lembrar dos ataques genocidas de Israel contra Gaza em 2012 e 2014, ambos ocorridos no segundo mandato de Obama.

Não podemos nos iludir. O ponto central de quem acompanha e apoia a Nação Árabe, a Libertação da Palestina e a Autodeterminação dos Povos a partir da diáspora, é conseguir colocar essas questões em debate, do ponto de vista humanitário e anti-imperialista. Fazendo isso, devemos lutar para que essa pauta entre como tema central das sociedades civis, com grande presença étnico-cultural de população descendente do Oriente Médio. Além de analisar os pêndulos do Império, nossa tarefa mais importante é organizar a solidariedade internacional e nossas comunidades.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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