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Relembrando Yasser Arafat, ícone da luta palestina

Dezesseis anos desde o assassinato do líder palestino Yasser Arafat, morto em 11 de novembro de 2004
Palestinos reúnem-se no local onde Yasser Arafat está enterrado, no 14° aniversário de sua morte, em Ramallah, Cisjordânia ocupada, 11 de novembro de 2018 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]
Palestinos reúnem-se no local onde Yasser Arafat está enterrado, no 14° aniversário de sua morte, em Ramallah, Cisjordânia ocupada, 11 de novembro de 2018 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]

A máxima “o terrorista de um homem é o combatente da liberdade de outro” pode muito bem ter sido escrita para Yasser Arafat, ao longo de sua vida e mesmo após a sua morte. Arafat atraiu atenção considerável tanto de quem o reverencia como símbolo de resistência, quanto de quem o despreza por pegar em armas.

Ao saber de seu falecimento, em 2004, o ex-Presidente de Israel Shimon Peres afirmou: “O maior erro de Arafat foi voltar-se ao terrorismo. Sua maior conquista foi quando tentou construir a paz”. Por outro lado, o então Presidente de Cuba Fidel Castro declarou: “Honra eterna e glória ao combatente heróico e inesquecível Yasser Arafat. Nada pode apagar seu nome da história, dentre os grandes combatentes que lutaram pela liberdade de seus povos.”

Seja como for, é difícil negar que Arafat é responsável por apresentar a questão palestina aos olhos do mundo, ao sobreviver como ícone da luta palestina. Sua imagem aparece em selos, camisetas, pôsteres e emblemas em todo o mundo.

Muhammad Arafat nasceu em 1929, mas seu apelido pegou desde criança. Yasser pode significar “equilibrado” ou “justo”. Há relatos de ter nascido no Cairo, mas o líder palestino sempre manteve que seu local de nascimento foi Jerusalém. Um entre sete irmãos, seu pai era de Gaza e sua mãe, da família Abu Saud de Jerusalém, que, segundo a biografia Arafat: Terrorist or Peacemaker (Arafat: Terrorista ou Pacificador), de autoria de Alan Hart, alegava descendência direta do profeta Muhammad.

Arafat tornou-se revolucionário desde jovem, inspirado pelas injustiças do imperialismo europeu e da colonização sionista, que testemunhou enquanto crescria. Ainda adolescente, protestou contra recusa do governo egípcio em fornecer armas aos palestinos e deu início a uma operação bem-sucedida para contrabandear armamentos ao longo da fronteira. Em 1948, abandonou o curso de engenharia civil na Universidade do Cairo para juntar-se às forças árabes na Palestina, em combate com os grupos paramilitares de Israel, que buscavam expulsar milhares de palestinos de suas casas para enfim criar o estado sionista.

Mais tarde, reuniu palestinos afetados por essa tragédia sob o partido político secular Fatah, conforme o slogan: “Revolução até a vitória.” No caso de Arafat, a vitória era representada pelo direito de retorno dos palestinos à sua terra e a criação de um estado palestino. Arafat tornou-se então presidente da Organização para a Libertação da Palestina, confederação de diversas facções distintas, entre as quais o Fatah era a mais forte.

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Palestinos reúnem-se no local onde Yasser Arafat está enterrado, no 14° aniversário de sua morte, em Ramallah, Cisjordânia ocupada, 11 de novembro de 2018 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]

Palestinos reúnem-se no local onde Yasser Arafat está enterrado, no 14° aniversário de sua morte, em Ramallah, Cisjordânia ocupada, 11 de novembro de 2018 [Issam Rimawi/Agência Anadolu]

Na ocasião, o Fatah e a OLP apoiavam ainda a luta armada, tanto como resposta à violência israelense que expulsou os palestinos de sua terra, quanto como meio necessário para reavê-la. Arafat lançou sua campanha armada a partir dos países vizinhos. A OLP assumiu base na Jordânia até que o Rei Hussein ordenou sua expulsão compulsória, em 1970. A entidade logo reuniu-se no Líbano, mas também teve de deixar o país devido à invasão total de Israel, em 1982, que deixou para trás mais de 17.500 mortos, a maioria civis. Arafat e outros membros da OLP viajaram então a Túnis, Tunísia.

Em 1974, Arafat recebeu uma ovação de pé ao discursar na ONU. Declarou: “Venho a vocês com um ramo de oliveira em uma mão e a arma de um combatente da liberdade na outra. Não deixem o ramo de oliveira cair de minha mão”. A sugestão de negociações pacíficas em troca do estabelecimento de uma pátria palestina constituiu um ponto de inflexão para o notório líder. Mas nem todos concordaram em abandonar as armas e a entrada de Arafat na arena diplomática dividiu a OLP.

Mais tarde, Arafat participou de uma série de negociações de paz, mais notavelmente os Acordos de Oslo, em 1993, dos quais surgiu um novo corpo de governo para os territórios ocupados: a Autoridade Palestina. Foi eleito presidente em 1996. Contudo, a tentativa do Fatah em converter-se a partido político, segundo muitos observadores, representou também o início do colapso da organização. Arafat foi acusado de corrupção e nepotismo e, através dos sucessivos acordos, fracassou efetivamente em asseverar o direito de retorno aos refugiados palestinos. Enquanto isso, os assentamentos ilegais israelenses floresciam na Palestina ocupada, um golpe reiterado ao próprio âmago de toda a sua luta.

Diziam que Arafat não aceitava folga, que proclamou casamento à causa palestina e adotou ao menos 28 filhos e filhas de mártires palestinos. Porém, aos 61 anos, mudou de ideia e casou-se com Suha Daoud al-Tawil, então com 27 anos, sua conselheira econômica e filha de um proeminente ativista da OLP. Suha vive hoje com sua única filha, Zahwa, na França, com uma pensão da Autoridade Palestina no valor de £8.450 por mês.

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Arafat foi descrito como um líder gentil, cortês e corajoso, embora demonstrasse algum pavio curto, eventualmente. Gostava de assistir desenhos animados e tomar chá com mel. Não fumava, mas às vezes fingia ter o hábito como parte de seu personagem.

Quando entrevistado, Arafat costumava vestir seu uniforme militar verde-oliva e seu famoso keffiyeh, o lenço palestino. Frequentemente respondia a questões que não gostava com a frase: “Você precisa ser bastante preciso ao falar com Arafat”. Mostrava cada vez maior impaciência com a mídia ocidental e sua cobertura sobre a questão palestina, cada vez menos afeito a eventuais críticas.

Arafat passou seus últimos dias virtualmente sob prisão domiciliar imposta por tropas israelenses. Em sua entrevista a Christine Amanpour, da rede CNN, em março de 2002, Arafat falou por telefone de seu complexo particular em Ramallah, cercado por soldados e sob fogo constante das forças israelenses. O líder já idoso mostrou-se agitado com uma série de perguntas que considerou uma forma de encobrir “atividades terroristas da ocupação israelense”; então, desligou a chamada. Mais tarde, naquele mesmo ano, tratores de Israel destruíram seu quartel-general, enquanto Arafat e 200 camaradas escondiam-se em uma das alas.

Após uma refeição, em outubro de 2004, Arafat adoeceu com náusea, vômito e dores no abdômem. Um mês depois, estava morto. Uma investigação da rede Al-Jazeera levou à exumação do corpo de Arafat em 2012 e subsequente inquérito forense. Sobre as descobertas, afirmou o investigador David Barclay: “Com base em décadas de experiência pessoal e as evidências diante de mim, não tenho a menor dúvida de que uma dose letal de polônio-210 foi administrada em seu corpo ou ingerida por Arafat em 2004, o que resultou em sua morte”.

Autoridades israelenses jamais permitiram que Arafat fosse enterrado em Jerusalém. Seu velório, como chefe de estado, foi realizado no Egito e então seu corpo foi levado a Ramallah. Diferente de Nelson Mandela, Yasser Arafat jamais foi exonerado do título de “terrorista”, mas afirmou ainda em vida: “Quem quer que fique ao lado de uma causa justa não pode ser chamado de terrorista.”

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